Adultos enfrentam obstáculos vivendo sonho adolescente de faturar para jogar videogame

Casal brasileiro fez maratona de dois meses e parou quando cachorra teve ataque epilético

Isabella Menon
São Paulo

Jogar videogame por dez horas seguidas todos os dias —livre das reclamações dos pais e ganhando para isso— é um sonho adolescente. Quem o conquistou ao passar para a fase adulta, no entanto, segue enfrentando obstáculos. 

“Uma coisa é jogar sozinho ou com os amigos; outra é fazer disso seu trabalho”, ponderam Bia, 28, e Ishiro Oninawa, 31. A dupla mantém o canal Casamento Nerd, hospedado na plataforma de transmissão de jogos ao vivo Twitch.

“Nosso público não vem assistir a um jogo específico, fazemos de tudo”, conta o casal, que soma 45 mil seguidores na plataforma e diz promover um “show de entretenimento”. As performances já incluíram leitura de contos e pintura de mangás. Eles costumam, ainda, sortear acessórios como fones de ouvido e webcam.

Segundo o Twitch, site de streaming fundado em 2011 nos Estados Unidos, os brasileiros já representam mais um bilhão de minutos vistos por mês —tempo que equivale a 19 séculos. Entre 2017 e 2018, o número de visualizações mensais cresceu cerca de 50%, diz a empresa, que não divulga os acessos. 

Diferentemente do YouTube, em que os geradores de conteúdo recebem conforme a visualização de vídeos ou venda de anúncios, na Twitch o mais comum é que os espectadores doem dinheiro aos jogadores.

​Também streamer, João Vicente Chequer costuma jogar World of Warcraft e classifica as doações de fãs como um “couvert artístico”. 

Chequer, que tem 27 anos, passou a se dedicar integralmente à plataforma no ano passado. Beirando os 50 mil seguidores, ele já recebeu US$ 2 mil, cerca de R$ 8 mil em um mês.

O jogador já chegou a ficar 20 horas jogando sem parar, mas em um dia normal sua jornada de trabalho começa entre 18h e 20h e termina na madrugada.

Os colegas do Casamento Nerd já bateram seu recorde. Durante uma crise financeira, o casal resolveu fazer uma maratona de dois meses e meio sem desligar a câmera. 

A missão, que durou 1.500 horas, teve início em meados de agosto e foi até o início de novembro —algumas pausas foram necessárias, como quando tiveram de levar a cachorra ao hospital após um ataque epilético.

Com a câmera ligada por tanto tempo e depois mais de R$ 6.000 em brindes sorteados, a dupla conseguiu faturar R$ 19 mil. O dinheiro foi utilizado para quitar algumas das dívidas acumuladas ao longo de anos. 

Enquanto Ishiro bebericava uma lata de energético após passar 12 horas jogando, ele diz que a plataforma é um meio de trabalho instável. “Enquanto falamos com você, já surgiram outros cem canais na Twitch e perdemos 50 pessoas que nos viam.”

As preocupações com números de visualizações não se limitam aos streamers de porte médio, como o casal. 

De cabelos azuis e com 12 milhões de seguidores, o streamer americano Tyler Blevins, o Ninja, 27, contou em suas redes sociais que perdeu 40 mil inscritos após passar 48 horas sem fazer vídeos em seu canal.

Ninja, o mais popular do mundo, diz receber cerca de R$ 1,9 milhão por mês entre doações e patrocínio para jogar "Fortnite", um retumbante sucesso dos games tipo battle royale, que envolve exploração de território, combate e sobrevivência. Cada vez que ele liga o Twitch, 53 mil pessoas acompanham.

Para o casal brasileiro, o estresse causado pelo jogo e a vontade de sempre ganhar mais dinheiro geraram a necessidade de estabelecer regras fora do jogo, para manter a sanidade mental. “Quando estamos no quarto é proibido falar sobre trabalho”, conta Bia.

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