Descrição de chapéu Artes Cênicas

A partir do acaso do tarô, peça encena vazio que permeia o cotidiano

Espetáculo 'Marta, Rosa e João' é a estreia na dramaturgia da atriz Malu Galli, que assina a direção e está no elenco

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

É meio ao acaso que Marta, Rosa e João levam a vida. A primeira se derrama sobre o sofá de casa e delonga em procurar um emprego. A segunda descobre uma gravidez, mas pouco se debruça sobre o assunto. Já o último é um espírito livre, passa o tempo a provocar os outros.

Também ao acaso surgem as cenas de “Marta, Rosa e João”, estreia na dramaturgia da atriz Malu Galli, que ainda assina a direção do espetáculo.

Para construir a narrativa, Galli se inspirou nos arcanos, as principais cartas do tarô. Criou 22 cenas, mas a cada sessão apenas 13 delas são encenadas. A escolha se dá logo no prólogo, quando Rosa (Manoela Aliperti) visita uma taróloga (Katia Naiane). 

O tirar das cartas revela não apenas o futuro da personagem, mas também quais dos trechos —e em qual ordem— serão apresentados naquele dia. À exceção do início, que é fixo, e do fim, que tem apenas duas opções, todas as cenas são móveis, podendo aparecer em qualquer posição.

“No início, não sabia muito bem sobre o que escrever. Depois que eu inventei esse dispositivo, [a escrita] destampou, fluiu que foi uma beleza. Mas eu me deparei com algumas questões. A história não poderia ter começo, meio e fim, uma sequência cronológica de acontecimentos, tampouco revelações”, diz Galli

Assim, para que o encaixe entre as cenas sempre funcionasse, ela construiu trechos que abrem com uma ação já iniciada (como um jantar ou um telefonema) e terminam em suspensão. Todos eles são momentos passados na casa de Marta (Galli), que recebe a visita da filha Rosa, a quem há tempos abandonou. A garota aparece lá de surpresa, logo após a visita à taróloga, quando descobre a gravidez.

Marta não se sente uma boa mãe. Mal sai de casa, está há dois anos desempregada e mergulha na depressão. Rosa tenta entender o relacionamento estranho com a mãe, enquanto esquece que ela mesma espera um filho.

As duas são rodeadas de uma figura provocativa, João (Rodrigo Scarpelli), um passeador de cães que entra e sai da casa e confunde um pouco a relação entre mãe e filha.

“As cenas têm muito do vazio que permeia o cotidiano dessas pessoas. Pessoas que não sabem muito o que fazer com as outras, nem o que fazer com elas. E a vida vai operando”, afirma a diretora.

Para operar a história, Galli criou uma narrativa paralela e de ordem fixa, feita entre as cenas, que de certo modo funciona como ferramenta de controle para os trechos modulares. Na mudança de cenário e figurinos, há trabalhos gestuais do elenco. Como uma espécie de coreografia, os movimentos de um intervalo se conectam ao do seguinte e assim por diante.

Uma linguagem similar foi criada na trilha sonora de Romulo Fróes e Kiko Dinucci. Eles desconstruíram a música, retirando batidas e instrumentos. A cada entre-cena, é tocado um trecho da composição e, ao longo do espetáculo, ela vai ganhando novas camadas sonoras. Ao fim, é tocada com todas as suas partes.

“Foi um dilema para mim [criar mecanismos fixos], eu não queria roubar no jogo”, diz Galli. “Mas acho que é preciso uma licença poética, uma forma de controle.” Todo acaso, afinal, chega à sua ordem.

Marta, Rosa e João

  • Quando Qui. a sáb., às 20h30. Até 23/2
  • Onde Sesc Pinheiros - auditório 3º andar, r. Paes Leme, 195
  • Preço R$ 7,50 a R$ 25
  • Classificação 14 anos
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.