Descrição de chapéu Artes Cênicas

Briga por herança espelha solidão contemporânea

Silvio Guindane assina texto e direção de 'Ele Ainda Está Aqui', sobre irmãos que se conhecem após morte de pai ausente

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Quem desencadeia os conflitos de “Ele Ainda Está Aqui” curiosamente nunca surge em cena. Está nas motivações, um pouco na personalidade e nos trejeitos dos personagens, mas não aparece.

O sujeito em questão é Almeno, cujos filhos José (Emilio Dantas), Miguel (Thelmo Fernandes) e Francisco (Omar Menezes) nunca se conheceram. O trio se encontra pela primeira vez para discutir a farta herança deixada pelo pai, morto após um infarto.

Tudo começa frio e pragmático, com cada um sugerindo destinos distintos para o espólio, mas aos poucos a conversa ganha tons emotivos. 

“Esse pai é uma figura que a gente já viu por aí, um cara muito querido, bem-sucedido, que viaja o mundo, mas ao mesmo tempo é um pai ausente. E isso se reflete nos filhos, não só pela divisão de dinheiro, mas também pela divisão de afeto, de achar que um teve mais carinho que o outro”, explica Silvio Guindane, autor e diretor do espetáculo.

Guindane escreveu o texto pensando nos relacionamentos contemporâneos, em como “as pessoas estão cada vez mais sozinhas, de olho no celular”, mas se deparou ainda com uma questão familiar bastante enraizada na sociedade brasileira. “O pai ausente é uma coisa muito normal. Uma lógica muito equivocada que se tornou uma regra.”

Tanto que são irmãos de idades parecidas, mas de nacionalidades diferentes. José é brasileiro, empresário de lojas de varejo que acada de ir à falência; Miguel é um economista português, enquanto Francisco é um angolano que sofre de esquizofrenia.

A dificuldade de comunicação entre eles, desde o início truncada devido às suas diferenças, acaba reforçada pelos entraves linguísticos. “Pesquisei as peculiaridades de cada país para aproveitar ao máximo essa situação que a língua nos dá”, diz o autor.

Mas aos poucos acabam também se reconhecendo um no outro e vendo nos irmãos traços do pai, do qual os três têm poucas lembranças.

Os embates ganham contraponto na figura de Francisco, que encontra um pragmatismo em meio ao caos. “Ele é esquizofrênico, mas é o mais sóbrio de todos”, diz Guindane, que pontua os dramas com algumas situações cômicas. “Os outros dois chegam a um grau de irracionalidade tamanho, e ele consegue controlar isso, tem uma observação ácida, irônica e inteligente sobre o que eles estão passando.”

Francisco se expressa também por meio de desenhos, que rabisca enquanto os irmãos se descabelam. O que vemos são ilustrações —criadas pelo cartunista Paulo Caruso— que resumem as fragilidades, as tristezas e a mesquinhez dos personagens.

Depois de São Paulo, o espetáculo, que já circulou por outras cidades brasileiras no ano passado, seguirá para temporadas em países lusófonos, passando por Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Portugal.

Ele Ainda Está Aqui

  • Quando Sex. e sáb., às 21h30, dom., às 18h. Até 24/2
  • Onde Teatro Renaissance, al. Santos, 2.233
  • Preço R$ 90
  • Classificação 12 anos
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