Álbum recupera os cantos e as músicas da São Paulo do século 19

Projeto da pesquisadora e cantora Anna Maria Kieffer nos leva pelas ruas da capital entre 1830 e 1880

Úrsula Passos
São Paulo

A ladeira que vai do centro à baixa do vale do Anhangabaú —ali onde hoje passa a avenida São João e, por baixo, um túnel— um dia se chamou ladeira do Acu. Na região ficava a bica do Acu, de água venenosa. Uma cantiga dizia: “Água tem veneno, morena,/ Quem bebeu, morreu”. 

É nesse local que somos como que tomados pelas mãos pela voz de Anna Maria Kieffer para dar um passeio pela São Paulo do século 19. Seguimos pela São João, que já assim se chamava, até o então distante campo dos Curros —agora praça da República—, onde aconteciam touradas, e o tanque do Arouche, ouvindo sapos e um cantar de quatro versos, recolhido por Mário de Andrade em suas pesquisas.

Cruzamos tropeiros vindos do interior pelos lados de onde sobe a rua da Consolação, voltamos ao centro da cidade antiga passando pelo largo São Francisco até o da Forca, hoje praça da Liberdade. 

De lá para a rua do Carmo, o salão da Marquesa de Santos, a Luz, e de volta à Sé, diante da qual ouvimos um hino sacro composto pelo mestre de capela do local que morreu em 1844.

Assim somos introduzidos ao álbum “São Paulo: Paisagens Sonoras (1830-1880)”, concebido por Kieffer, cantora e pesquisadora que há anos se dedica a recuperar a história da música do Brasil.

“Eu acho interessante mostrar a cidade, seu tamanho, como era pequena, como as pessoas viviam. A rua da Palha [hoje Sete de Abril, então assim chamada por suas casas de sapé com telhado de palha] era na ‘cidade nova’, era longínqua, eu acho importante frisar isso, a transformação da cidade em 50 anos”, diz ela.

O CD segue com versos de então estudantes de direito, como o poeta Álvares de Azevedo e Bernardo Guimarães, de “A Escrava Isaura”, pregões de vendedores e cantos de trabalhadores —está ali a flautinha do amolador—, canções de saraus, serenatas e letras abolicionistas de Luis Gama.

Há ainda uma peça nunca gravada de Carlos Gomes, uma versão de câmara do entreato de sua ópera “Joana de Flandres”, de 1863 (“O Guarani” é de 1870). E uma de seu irmão, Pedro Santana Gomes, para clarinete e piano, encontrada em manuscrito por Kieffer.  

A pesquisadora já havia lançado “Viagem pelo Brasil”, no qual há canções populares recolhidas pelos naturalistas alemães Spix e Martius nos anos 1810, além de melodias indígenas. Em “Teatro do 
Descobrimento”, ela revia cantigas ibéricas e tradicionais brasileiras, além de cantos indígenas, dos séculos 16 e 17.  

Agora, o foco são os sons paulistanos de 1830 a 1880. “Nesses 50 anos, São Paulo passa de uma cidade de tropeiros, muito provinciana, para uma que está se internacionalizando, não só por causa do curso jurídico mas também por causa da vinda de imigrantes, como o primeiro dos Levy”, diz Kieffer.

A escola de direito do largo São Francisco começa a funcionar em 1828, atraindo alunos e professores de todo o país e estrangeiros que influenciam o desenvolvimento da cidade. O francês Henri-Louis Levy chegou ao Brasil em 1848 e, anos depois, sua família estabeleceu em São Paulo uma loja, que existe até hoje, em que vendia instrumentos musicais e partituras, também imprimindo-as. 

“Eles são importantíssimos na virada para um tipo de atividade musical mais internacional. O Levy traz essa ideia do concerto como conhecemos hoje”, explica Kieffer.

Os sons da viola de arame e da guitarra romântica, avós da viola caipira e do violão, já anunciam a linha que se seguirá. “Naquela época já havia o canto a duas vozes, que vem do século 18, tanto na música de salão quando na popular. Aos poucos ele vai se transformar na música sertaneja.”

São Paulo: Paisagens Sonoras (1830-1880)

  • Preço R$ 20; disponível no Spotify.
  • Autor Anna Maria Kieffer
  • Gravadora Selo Sesc
  • Lançamento sexta (25), às 18h, no Sesc Vila Mariana, R$ 17, 12 anos
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