Descrição de chapéu Moda

Tom de laranja, eleito a cor do ano, atende desejo de desconexão virtual

Excêntrico, coral vivo da Pantone remete à nostalgia dos anos 1950

Pedro Diniz
São Paulo

Laranja nunca foi lá uma cor exatamente de moda. Culturalmente, no Ocidente, sempre esteve vinculada a excentricidades, ao Halloween e, por causa do efeito estimulante no cérebro, a espaços gastronômicos.

Mas a indústria das tendências há exatos 20 anos tenta quebrar a hegemonia do tripé preto, azul e branco lançando propostas de cor que guiam o design. Neste ano, instituiu um tom de laranja como a cor do ano.

Depois de fazer o mundo usar amarelo-ovo, roxo-cheguei e rosa-bebê, a Pantone, empresa americana especializada em criar cartelas de cor para a indústria editorial e do consumo, escolheu o chamado “living coral”, ou coral vivo, para reinar na passarela, nos salões de mobiliário e até na prateleira de smartphones.

Algo entre o coral elétrico, que já foi a cor do verão brasileiro em 2010, o terracota e o rosa chá, a depender da capacidade ótica de quem vê, esse tom apareceu em setembro no desfile de Marc Jacobs, em Nova York, e logo depois no anúncio do novo iPhone XR, da Apple, que, ao contrário do difundido à época, nem de longe “previu” a eleição da cor.

Fruto de pesquisas em exposições, desfiles e até fábricas têxteis ao redor do mundo, a escolha já é aventada nos primeiros meses do ano anterior. O discurso vendido como motivo da seleção segue um padrão comportamental, uma macrotendência que define uma década. 

O mote desta responde à ebulição política e ao ritmo frenético da evolução tecnológica, que produz uma onda de ansiedade e mina as relações em tempos líquidos. Por isso, assiste-se a uma série de revivals de um tempo recente, quando a vida acontecia ao vivo e em cores, não no plano bidimensional do celular.

Vintage e nostalgia são duas palavras-chaves para entender esse movimento, que levou ao cinema super-heróis de antigamente, estética fantasiosa e roupas setentistas, oitentistas, noventistas. Em resumo, a imagem de um século 20, só que embalada em plástico de novidade.

Por isso, cores estimulantes e quentes dominaram a indústria abraçadas à noção de que  o homem precisa rever suas práticas para a sobrevivência do planeta, daí o tom sustentável expresso em terrosos e verde “greenery”, e melhorar as relações com o outro em prol do entendimento.

Iphone XR em tom coral
Iphone XR em tom coral - Divulgação

“Com os consumidores almejando a interação humana e a conexão social, as qualidades humanizadoras e animadoras da cor atingem um tom responsivo que preenche essa busca”, disse em comunicado a diretora do Instituto Patone de Cor, Leatrice Eiseman.

No caso específico do “living coral”, a memória recuperada é a do pós-Guerra, nos anos 1950, quando o mundo atravessava um período de aparente calmaria e efervescência cultural anterior à corrida armamentista da Guerra Fria, que mais uma vez desestabilizou os ânimos do planeta.

Mas nenhuma boa vontade dessa indústria se resume a elucubrações sobre humores e costumes. Escolher nortes criativos é imperativo para a manutenção do status quo da máquina da costura desde a ascensão do modelo de fast-fashion, ou moda rápida, que coloca no mercado lançamentos semanais nas araras e nas prateleiras de decoração.

Há quem critique essa uniformização de ideias, porque se antes um punhado de estilistas definiam os rumos da costura, a sede por novidades descentralizou o poder de ditar tendências paras os núcleos de criação das indústrias e das redes de lojas populares. Só dessa forma uma demanda global pode ser atendida.

“Se olharmos para as marcas bem-sucedidas, como a H&M, eles pensam globalmente, produzem produtos numa escala que serve centenas de países. O que é difícil na indústria da moda é ter muitos, muitos produtos, vender muito, muito mais”, disse à Folha em entrevista recente o diretor do grupo inglês Ascential, dono do birô de tendências WGSN.

Nesse contexto, modelos, comprimentos e, claro, cores, seriam cruciais para que o consumidor enxergue possibilidades e consiga identificar o que na moda serve ou não para seu gosto pessoal.

“Nunca foi tão importante como hoje ter uma gama de produtos certos na prateleira. Isso se consegue por meio de uma análise de inteligência global. Pessoas que não acreditam na importância disso não são bem-sucedidas.”
 

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