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Pele animal não está em declínio, diz estilista da Fendi na Design Miami

Em entrevista, Silvia Fendi explica parceria com artistas e afirma que procura por roupas de bicho cresceu

Pedro Diniz
Miami

Num ano em que o uso de peles na moda foi mais uma vez posto na fogueira, com o decreto da semana de Londres de que seus estilistas não devem mais apresentar roupas feitas com bichos selvagens, e no qual marcas de moda abraçaram as artes visuais como vetor de expressão, uma grife pioneira nesses dois movimentos coroou seu lugar na indústria alheia a polêmicas.

Emblema dos casacos de bicho mais caros do mundo, a italiana Fendi completou neste mês dez anos como porta-voz da moda na feira Design Miami, nos Estados Unidos.

Uma das primeiras etiqueta de luxo a entrar no universo sisudo da arte, a marca levou uma série de esculturas da holandesa Sabine Marcelis, reconhecida por suas obras que usam a luz como matéria-prima —suas peças na feira reinterpretam o logo e as linhas da sede romana da Fendi. 

Dentro delas, água em diferentes estados, do líquido ao gasoso, corriam como se criassem silhuetas, curvas que remetem ao corpo e ao espírito mutante da moda.

Diferentemente de outras colaborações entre grifes e designers em ascensão, “Formas da Água”, como foi batizado o trabalho de Marcelis, não soa como uma desculpa esfarrapada para a Fendi ganhar status de obra artística, porque a água é elemento natural na história da grife.

Diversas fontes de Roma, incluindo a histórica Fontana di Trevi, foram reformadas pela etiqueta nesta década, e, no início dos anos 2000, a marca também montou uma exposição com fotos das fontes mais importantes do mundo. 

“Água é um elemento feminino, que representa um estado constante de mudança e de transformação”, explica Silvia Venturini Fendi, herdeira da grife criada pelos avós em 1925 como um ateliê de acessórios e cabeça por trás da fase mais pop de seu clã fashion.

Além de ter sido uma das mentoras da compra da empresa pelo grupo francês LVMH, em 2001, ela criou bolsas icônicas da história da moda, como a Baguette e a Peekaboo, que nesta edição da Desgin Miami ganhou uma coleção desenhada por artistas plásticos como Chris Wolton e Kiichiro Ogawa.

“Artes visuais são a única forma de expressão da criatividade que não se propõe a ser uma ferramenta de marketing ou ter funcionalidade como fundamento. Por isso, sempre acreditei que a moda se aproxima mais do design do que da arte, porque há o aspecto funcional da roupa que nenhum estilista pode abrir mão” afirma a designer.

Esse “defeito” da moda também a fez ampliar a relação do cinema com a Fendi, que frequentou o guarda-roupa de filmes dos cineastas Luchino Visconti e Federico Fellini.

Nome importante da nova safra de realizadores italianos, Luca Guadagnino (“Me Chame Pelo Seu Nome”) também está na lista atual dos parceiros de Silvia Fendi, que produziu vários filmes do diretor, inclusive o terror “Suspiria”, a ser lançado no Brasil em 2019.

“Luca é um grande amigo. Para mim, é o cineasta que melhor traduz a visão da Itália sobre o mundo”, diz.
Mas mesmo que a Itália, especificamente Roma, esteja no coração dos negócios da empresária, é no Brasil onde ela pretende passar seus dias numa aposentadoria futura. 

É que desde criança Fendi visita o país —“meu segundo lar”—, do qual guarda as lembranças de quando a família mantinha casas numa “Búzios selvagem”, que não frequenta mais por “estar muito diferente do que era”. “Mas ainda amo o Rio clássico, dos dias no Copacabana Palace e do clima quente que sinto.”

Mas até fazer da cidade sua morada definitiva, Fendi tem a missão de, ao lado do estilista Karl Lagerfeld, com quem divide a assinatura das linhas femininas da marca, convencer a juventude de que o universo selvagem criado pela grife em fazendas próprias ainda pode ser considerado fashion.

De bonecos felpudos para prender na bolsa até um casaco de chinchilas avaliado em R$ 3,4 milhões, a marca mantém a pele na dianteira do consumo de luxo, mesmo vendo o cerco fechar com a política de intolerância à extração e à venda em metrópoles como São Paulo e Los Angeles.

“Por definição, peleteria é um negócio menor, tem outro preço. Antigamente, só mulheres usavam, agora, vejo vários homens comprando. Definitivamente, não é algo que está em declínio, não mesmo. Não para nós.”

O jornalista viajou a convite da Fendi

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