Filantropia tóxica gera protestos inflamados de artistas nos EUA

Centros culturais recebem doações provenientes da venda de um produto que provocou muitas mortes

Nova York

A causa não é inédita, mas, nos últimos anos, tem ganhado novamente espaço nas mídias sociais e na imprensa —artistas e ativistas decidiram protestar contra doadores de museus e centros culturais que construíram impérios a partir da exploração de negócios considerados controversos.

As críticas mais duras recaem sobre a família Sackler, dos irmãos Arthur, Mortimer e Raymond —todos mortos.

Eles eram donos da Purdue Pharma, empresa com sede em Stamford, no estado americano de Connecticut, que se transformou em uma gigante farmacêutica recorrendo a um marketing agressivo e ancorado nas vendas do medicamento OxyContin, um poderoso opioide que está no centro da crise que vem matando milhares de americanos.

Colagem para a capa da Ilustrada de 17.03
Alex Kidd

A família Sackler é benfeitora de alguns dos principais museus do mundo, como o Guggenheim e o Metropolitan, de Nova York, o Louvre, em Paris, e a Tate Modern e a National Gallery, de Londres.

Ao longo de décadas, os três irmãos doaram milhões a essas instituições e a outras, algumas vezes em troca de uma galeria com seu nome. Arthur, que morreu em 1987, doou mil obras estimadas em US$ 50 milhões (cerca de R$ 190 mi) ao museu Smithsonian, além de US$ 4 milhões para construir o espaço que as abriga.

A origem do dinheiro doado pela família tem gerado reação inflamada de artistas nos Estados Unidos.

A fotógrafa Nan Goldin é uma das principais vozes que pedem aos museus que deixem de aceitar esse tipo de filantropia. Ela própria é uma sobrevivente do vício em OxyContin e decidiu fundar o grupo Pain (acrônimo para algo como intervenção agora ao vício de medicamentos, além de jogar com a palavra inglesa para dor).

"Nós somos artistas, ativistas e pessoas lidando com o vício que usamos ações diretas como plataforma para as nossas exigências", diz o comunicado do grupo, que esclarece que o alvo é a família Sackler e, para isso, decidiram realizar atos em museus e universidades que tenham seu nome. O grupo já realizou protestos no Met, no Smithsonian e nos museus de arte da Universidade Harvard.

Há um mês, levou a ação para o Guggenheim. Panfletos foram jogados do último andar do átrio em espiral do museu, voando pelos ares até alcançar o lobby principal. No chão, frascos laranjas de remédios, com rótulos contendo frases como "indicado a você pela família Sackler, OxyContin, extremamente viciante vai deixar 400 mil mortos".

Pedaços de papel voam pelo ar em protesto no museu Guggenheim, em fevereiro - Reuters

Em um dos lados do rótulo, uma faixa amarela dizia "efeito colateral: morte".

O OxyContin, aprovado pelo governo americano em 1995, é um opioide indicado para tratamento de dores. Tem efeito parecido com o da morfina e, como esse medicamento, tem risco altíssimo de vício. Risco esse do qual a Purdue tinha ciência e, ainda assim, optou por omitir a informação de reguladores, médicos e pacientes —em 2007, a farmacêutica fechou acordo no qual admitiu ser culpada das acusações.

Desde que foi lançado, em 1996, o OxyContin teria gerado US$ 35 bilhões em receita à Purdue. Por outro lado, o remédio é um dos protagonistas da crise dos opioides nos Estados Unidos, que começou há cerca de 20 anos.

Só em 2017, quase 48 mil pessoas morreram por overdose de algum medicamento do tipo. E é esse o cerne do protesto dos artistas —a filantropia tóxica, doações a centros culturais feitas com dinheiro proveniente da venda de um produto que provocou a morte de tanta gente.

Uma porta-voz da Purdue Pharma afirma que a empresa continua a apoiar iniciativas de controle, educação e saúde com o objetivo de enfrentar a crise dos opioides. Segundo a companhia, os medicamentos que fabrica respondem por menos de 2% de todas as receitas de medicamentos do tipo.

No meio cultural, poucas são as instituições que se pronunciam sobre a polêmica dos patrocínios. Questionado por esta repórter, o Guggenheim, por exemplo, não se manifestou. Ao jornal The Washington Post, Linda Thomas, porta-voz do Smithsonian, enviou comunicado no qual afirma que o museu não tem planos de retirar o nome de Arthur Sackler de uma de suas alas nem de devolver o dinheiro ou obras doados pela família.

Um dos argumentos de quem defende a manutenção do nome de Arthur, ao menos, é o fato de ele ter morrido em 1987, oito anos antes do lançamento do OxyContin. Elizabeth Sackler, filha do magnata e fundadora do Elizabeth A. Sackler Center for Feminist Art, afirmou que nenhum dos descendentes dele tem qualquer fatia de ação da Purdue —os outros irmãos compraram o terço de Arthur depois de sua morte.

As manifestações de repúdio às doações feitas pela família Sackler não se restringem aos EUA ou ao mundo artístico. Na Escócia, políticos são as vozes mais recentes a criticar o tal dinheiro tóxico.

O alvo é o museu de design V&A Dundee, que recebeu cerca de US$ 650 mil de um fundo dos Sackler dirigido por Theresa Sackler. Ela é citada como ré em um processo que corre nos Estados Unidos envolvendo o papel da empresa na crise de opioides.

Detalhe do prédio do museu V&A em Dundee, na Escócia. A construção fica acima de um espelho d’água e tem aparência moderna, com acabamento em telhas brancas dispostas em fileiras e vidro na parte superior
Detalhe do prédio do museu V&A em Dundee, na Escócia - V&A

Ross Greer, membro do Parlamento, acredita que entidades que receberam dinheiro dos Sackler deveriam devolver os valores ou trabalhar para garantir que haja reparações a vítimas de opioides.

O questionamento sobre filantropia tóxica não se limita a doações de magnatas ligados a farmacêuticas. Em dezembro passado, Michael Rakowitz, artista de Chicago, decidiu se retirar da Bienal do Whitney, em Nova York, uma das mostras de arte contemporânea mais importantes do país.

A medida foi um protesto contra um vice-diretor da instituição que é, também, executivo de uma empresa que produz gás lacrimogêneo e coletes à prova de bala para militares e agentes policiais.

Em entrevista ao jornal The New York Times, ele afirmou que sentiu que estaria traindo tudo com o que se importava em seu trabalho, que retrata pessoas e comunidades vulneráveis, como imigrantes.

"Você não deveria comprometer a integridade de um artista e pedir a ele para expor com financiamento e autorização de pessoas que pioram as condições de segurança para as outras", afirmou, em referência à atuação de agentes na fronteira dos Estados Unidos com o México. Os curadores da Bienal disseram respeitar a decisão do artista e lamentar que ele não participe da 79ª edição do evento, que começa em maio.

Em outros casos, a pressão de ativistas consegue resultados concretos. Em 2016, a petrolífera BP anunciou o fim de um patrocínio de quase três décadas à Tate Modern, citando um "ambiente de negócios extremamente desafiador".

A empresa era alvo constante de ativistas pelo financiamento ao museu londrino. Em 2015, um grupo passou 25 horas rabiscando com carvão frases sobre as mudanças climáticas no chão da Tate. O ato foi organizado pelo coletivo Liberate Tate, que afirmou que milhares de pessoas apelaram à instituição para encerrar o contrato com a BP, com base em questões éticas.

Uma porta-voz do museu elogiou o patrocínio da BP, que, por sua vez, negou que a decisão tenha relação com pressão de ativistas.


Entenda as brigas com as instituições

Guggenheim, em Nova York
Há um mês, ativistas liderados pela artista Nan Goldin, famosa por suas imagens do submundo de sexo e drogas em Nova York e ela mesma uma vítima do vício em opioides, lançaram panfletos do alto do átrio em espiral do museu nova-iorquino alertando contra os riscos do remédio OxyContin, o mais rentável e altamente viciante medicamento produzido pela farmacêutica da família Sackler, que apoia a instituição 

foto de Nan Goldin
A artista Nan Goldin - Nan Goldin

Metropolitan, em Nova York
O maior museu nova-iorquino tem uma ala batizada com o nome da família Sackler e já foi alvo de protestos semelhantes. Uma herdeira do clã, Elizabeth Sackler, fundou no Brooklyn Museum, na mesma cidade, um centro de arte feminista Whitney, em Nova York O artista Michael Rakowitz anunciou seu boicote à Bienal do Whitney, uma das mais importantes mostras de arte contemporânea nos Estados Unidos, por oposição à empresa de um vice-diretor da instituição, que fabrica gás lacrimogêneo e coletes à prova de bala

Tate Modern, em Londres
Um dos mais famosos museus britânicos perdeu o patrocínio da petrolífera BP depois de repetidos protestos de ativistas. Num deles, um grupo passou 25 horas rabiscando frases sobre mudança climática no chão do museu à beira do Tâmisa, na capital da Inglaterra

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