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Cinema

'Border' nos chama a experimentar a diferença e questiona o que é belo

Monstros não estão mais no circo e são seres fronteiriços, entre homens e não homens

Inácio Araujo

Border

  • Quando Estreia nesta quinta (11)
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Eva Melander, Eero Milonoff, Jörgen Thorsson
  • Produção Suécia, Dinamarca, 2018
  • Direção Ali Abbasi

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Os filmes de monstros são uma categoria conhecida: dráculas, zumbis, lobisomens se instalaram no mundo dos homens com tal desenvoltura que chegam a fazer parte dele, sem que ninguém se espante.

São um pouco diferentes os seres de "Border". São inqualificáveis. Como Tina, policial de fronteira com faro muito aguçado. Ela é feia e sabe disso. Ali Abbasi, diretor iraniano, também sabe, porém sem pudor fecha a imagem no rosto dela a toda hora. É como se nos chamasse a vivenciar a feiura tão incompreensível quanto estranha.

Com certeza nos chama a viver a diferença. Ser feio, negro, gay, hermafrodita: dimensões da alteridade que a vida social designará, com maior ou menor tato, como monstruosidade.

Já houve filme parecido: o estranho, fabuloso "Freaks" (1932), de Tod Browning. Ali sob a aparência monstruosa existiam seres bons, enquanto os belos humanos eram, na verdade, ruins. Será assim mesmo?

"Border" é uma digna versão contemporânea. Mas mudaram os tempos. Os monstros não estão mais no circo, mas na fronteira. São seres fronteiriços: entre homens e não homens. São inquietantes, assim como a aparência de Tina é mais inquietante pelos planos aproximados: quando mostra os dentes já não parece humana, parece um cão (ou lobo) disposto a atacar.

Ela remete por instantes ao universo dos meninos selvagens. Não é bem assim, ao contrário. Ela tem um pai amável, embora adotivo. Esse desconhecimento sobre a origem lhe coloca a questão: quem eu sou?

E, como todo ser, é preciso resolver esse mistério, entrar na própria pele. Quem vai ajudá-la é Vore, homem muito estranho (e feio também), de quem ela desconfia fortemente, a quem interroga. Mas nada num primeiro momento ela é capaz de descobrir.

E se não descobre é porque o mistério deve permanecer, ou antes se multiplicar. A presença dele desdobra, multiplica o mistério. É um homem feio, marginal e diferente como ela. Com algo a dizer que nos deixará de cabelo em pé e que nos inquietará quanto mais nos aproximamos do fim.

Talvez não seja o caso de revelar um ou dois segredos. Talvez seja o caso de pensar a que gênero se filia o filme. Assim como os gêneros humanos (homem ou mulher), os gêneros cinematográficos explodiram.

Estamos perto do terror, sim, mas de um terror que lembra mais o cinema de David Cronenberg do que o dos monstros da tradição.

Um terror que não diz respeito, na verdade, aos monstros supostos do filme, mas a nós outros. Ao homem. Essa espécie para cuja fragilidade "Border" chama, todo o tempo, a atenção. Sem cortejar o belo, é verdade, mas como que se perguntando, implacavelmente, e não sem argumentos, o que, afinal, é o belo em nosso mundo.

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