Fora de musical, Fabiana Cozza canta Dona Ivone Lara em novo disco

Cantora foi considerada clara demais para representar em montagem teatral a sambista morta em 2018

Fabiana Cozza, que foi considerada clara demais para representar Dona Ivone Lara em montagem teatral Jardiel Carvalho/Folhapress

Rio de Janeiro

Para quem acompanha a carreira de Fabiana Cozza, soa natural um CD em que ela interpreta composições de Dona Ivone Lara (1922-2018). A paixão que vem da infância virou marca profissional a partir de 2007, ano em que ela gravou "Doces Recordações" ao lado da própria Dona Ivone, parceira de Delcio Carvalho na canção.

"Canto da Noite na Boca do Vento" (Biscoito Fino), que tem show de lançamento neste domingo (7), deixou de ser um projeto natural em função do que houve na virada de maio para junho de 2018. Convidada a representar Dona Ivone num musical, ela foi atacada por gente que a viu clara demais para o papel. Seria um caso de "colorismo", em que alguém é favorecido por ter pele menos escura.

Em boa parte raivosos e grosseiros, os ataques vieram pela internet. Cozza renunciou ao papel numa carta em que expressava a tristeza por ter, segundo disse, dormido negra e acordado branca.

"Aquilo me deixou muito triste. As pessoas não me conheciam. Nem deram um Google no meu nome. Praticaram seu empoderamento, palavra muito usada hoje, detrás de um computador", lamenta Cozza, 43, que sempre teve forte ligação com as músicas e as religiões afro-brasileiras.

 
 

As ameaças não cessaram ("ainda li coisas como 'Estamos de olho em você!'"), mas ela garante estar tranquila. Recebeu apoios significativos como os de Nei Lopes e Emicida, pôde comprovar sua afinidade pessoal e profissional com Dona Ivone —que a tratava como uma de suas sucessoras e cuja família aprovou o convite da produção do musical— e se tornou mais conhecida.

"Abriu-se um caminho mais amplo. Ganhei uma visibilidade que não tinha. Devo parte disso à Dona Ivone, a tudo o que ela me ensinou", afirma.

A Biscoito Fino lhe propôs o CD após a polêmica. Cozza sabe que podem acusá-la de oportunismo, mas considerou importante deixar registrada sua relação íntima com a obra. Até então, havia gravado em discos apenas duas músicas da compositora.

Optou por um repertório com poucos sucessos e distante das sonoridades das rodas de samba. É acompanhada pelo violão de sete cordas de Alessandro Penezzi —que já estava em 2007 em outro projeto de Cozza envolvendo músicas de Dona Ivone—, pelo cavaquinho de Henrique Araújo e pelas percussões de Douglas Alonso.

"Queria apresentar bem as letras. E as melodias também. Muitas vezes a gente perde a lupa que pode pôr sobre as canções em função do andamento [acelerado]", explica.

Ficaram mais lentas "Enredo do Meu Samba" (letra de Jorge Aragão), "Mas Quem Disse que Eu te Esqueço" (de Hermínio Bello de Carvalho) e "Alguém me Avisou", gravada em duo com Maria Bethânia.

Ela queria a participação de um cantor do samba de São Paulo, e Péricles foi convidado para "Adeus, Timidez". Também há uma inédita, "A Dama Dourada" (de Vidal Assis e Hermínio), e algumas praticamente desconhecidas, como "Outra Vez" (de Nei Lopes).

"Precisei reaprender a cantar Dona Ivone em função do que aconteceu. O disco marcou esse momento de dor, de reflexão", diz a cantora.

Nos shows há alegrias e sucessos como "Sonho Meu", "Sorriso Negro" e "Acreditar".

Canto da Noite na Boca do Vento

Biscoito Fino. R$ 30. Também disponível nas plataformas digitais. Show de lançamento. Sesc Pinheiros - r. Paes Leme, 195. Dom. (7): 18h. Ingr.: R$ 12 a R$ 40. 10 anos

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