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Cinema

'O Anjo', de Luís Ortega, reafirma a força do cinema argentino

Filme sobre serial killer que aterrorizou o país é apontado como versão sul-americana de 'Bonnie e Clyde'

Cena do filme 'O Anjo', de Luis Ortega

Malena Villa e Lorenzo Ferro em 'O Anjo', de Luis Ortega Divulgação

Felipe Arrojo Poroger

O Anjo (El Ángel)

  • Quando Estreia nesta quinta (18)
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Lorenzo Ferro, Cecilia Roth, Luis Gnecco
  • Produção Argentina, 2018
  • Direção Luis Ortega

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Nos primeiros minutos de “O Anjo”, novo filme do argentino Luís Ortega, um jovem rapaz, de maneiras e traços delicados —bonito feito o apelido que dá título à obra—, invade uma casa sem fazer alarde.

Roubar não é uma necessidade, ainda tampouco um ofício. Para um garoto entediado, tolhido em uma sociedade de protocolos rígidos, invadir espaços que não lhe pertencem talvez seja a transgressão possível.

Única produção portenha a figurar na lista dos mais vistos da Argentina no ano passado —espremido entre animações e blockbusters americanos—, o filme é daqueles casos singulares que conseguem alcançar números expressivos de bilheteria e, ainda assim, circular nos domínios mais renomados do cinema mundial: a obra foi lançada na mostra Um Certo Olhar, do último Festival de Cannes, e tem Pedro Almodóvar como um de seus produtores.

Baseado livremente na história de Carlos Robledo Puch, assassino em série que, aos 19 anos, aterrorizou a Argentina  —e é hoje o prisioneiro mais antigo do país—, o filme tem sido saudado como uma versão sul-americana de “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Baladas” (1967), clássico de Arthur Penn.

As comparações não são à toa: para além do evidente diálogo temático —afinal, ambos narram o caminho de contraventores, alçados à fama pela crescente dimensão de seus crimes—, o espírito contestatório de “O Anjo” o aproxima não somente da obra de Penn, mas faz dele herdeiro direto de toda chamada Nova Hollywood, movimento cinematográfico norte-americano do fim da década de 70.

Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Mike Nichols, Robert Altman são apenas alguns dos cineastas que começavam a colocar em cena os dilemas de uma juventude desamparada, acometida pela desesperança de um país em colapso moral, em desilusão com as promessas do american way life.

Embora em outro contexto, é desta fonte que bebe “O Anjo”: situada nos mesmos anos 1970, em uma Argentina ditatorial, a história de Carlos (Lorenzo Ferro) —e seu primeiro comparsa, Ramón (Chino Darín), com quem divide as descobertas do crime e do amor— é a jornada de jovens sufocados por modelos conservadores e que, impossibilitados de fazer valer a sua voz, veem na destruição um meio de reafirmar a própria existência.

Da vanguarda hollywoodiana, “O Anjo” também toma de empréstimo o apreço pela sonoridade pop e confluência de estilos. Ancorada em sucessos argentinos da época, a trilha destaca as bandas Pappo’s Blues e Billy Bond y La Pesada Del Rock, cujas letras não raro servem de ilustração aos ânimos dos personagens.

Sem desgrudar as atenções do protagonista Lorenzo Ferro, cuja atuação é das mais impressionantes dos últimos tempos no cinema mundial —sem falar no poder magnético de sua beleza andrógena—, “O Anjo” é mais um argumento poderoso para os que gostam de exaltar as qualidades do cinema argentino. 

Por fim, aos espectadores inclinados à política, não escapará o debate que sublinha a trama. Sem resvalar em apologia à violência ou eximir a responsabilidade daqueles que a praticam, o filme é retrato poderoso dos efeitos de uma sociedade contaminada pelo autoritarismo de um governo ilegítimo, militarizado. Em um cenário no qual extermínio e repressão tornam-se políticas de Estado, comprometer a sanidade dos seus cidadãos é questão de tempo. Convenhamos, não poderia ser mais atual.

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