Descrição de chapéu Moda

SPFW bate continência para estilo americano com brasilidade 'cool'

Grifes interpretam gostos da elite refugiada em balneários e exaltam artistas e imagem militarizada

Pedro Diniz Giuliana Mesquita
São Paulo

É o “Exército do amor.” Foi assim que Patricia Viera, uma designer com fama entre abastados da sociedade carioca, definiu a militar forrada de insígnias que cruzou a passarela na São Paulo Fashion Week nesta terça (23).

O tema que ela disse ter levado ao desfile é o próprio Brasil. Mas em tempos belicosos, nos quais os próprios estilistas parecem viajar para longe e fugir dos problemas, o país assume múltiplas facetas.

Ela até tentou mostrar mosaicos de couro, sua especialidade, como forma de estampar a diversidade. Mas a vontade de gritar parece ter soado mais alto do que a tesoura.

A impressão geral nesses dois dias de semana de moda é que as grifes estão escapando do Brasil, mas dizendo que a ideia é exaltar o país. 

 

Fabiana Milazzo, por exemplo, escolheu um brasileiro para homenagear, mas um bem internacional: o artista plástico Vik Muniz, particularmente querido nos Estados Unidos.

Dos trabalhos em arame de Muniz, como a tela “Biografia Parte II”, partiram os bordados em camisas de algodão orgânico. Do quadro “Color Tears”, saíram os vestidos de canutilho, nos quais é difícil diferenciar o que é estampa e o que são franjas aplicadas.

Quem viajou também, no que chamou de “busca espiritual”, foram as estilistas Lily e Renata Sarti, da Lily Sarti. O “mosaico étnico” da dupla é daquelas coleções de crochê e tecido de algodão para garotas arteiras do circuito Coachella-Índia-Nova York.

Desfile da grife Lily Sarti na 47ª São Paulo Fashion Week, em abril de 2019
Desfile da grife Lily Sarti na 47ª São Paulo Fashion Week, em abril de 2019 - Agência Fotosite/Divulgação

Esse Brasil tipo exportação que viaja o mundo começou já na segunda-feira (22), quando Reinaldo Lourenço abriu a temporada com um estudo sobre Miami, refúgio tanto de suas clientes quanto das de Milazzo, Viera ou Lenny Niemeyer, que abriu o segundo dia de desfiles.

A moda praia da designer é uma das melhores do país. Embora afeita aos signos do tropicalismo, ela também abraça a estética da turma cool das artes, mas faz com destreza ao colocar sua coleção no mesmo plano da obra de Ernesto Neto, cujas instalações estão expostas na Pinacoteca e foram cenário para o desfile.

Ela prioriza a complexidade, trocando a lycra por tricô e seda, materiais que encaram, no máximo, o 
cloro da piscina do resort.

Os primeiros dias reproduziram um extrato de brasilidade que bate continência para o estilo de vida americano e faz a cabeça da ala mais abastada do calendário da SPFW. 

Um Brasil de “jet setters”, refugiados em suas próprias bolhas de glamour e que idealizam um país colorido, chique, mas esquálido e faminto por debaixo dos panos.

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