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Genocídio de Ruanda inspira autor e rapper Gäel Faye, que vem à Flip

Franco-ruandês divulga romance 'Meu Pequeno País' no evento literário

O escritor e rapper Gael Faye, um dos convidados da Flip 2019
O escritor e rapper Gael Faye, um dos convidados da Flip 2019 - Divulgação
Maurício Meireles
São Paulo

O menino Gabriel, protagonista do romance "Meu Pequeno País", quer saber do pai por que tútsis e hútus guerreiam em Ruanda. 

Seria por que não têm o mesmo território? Não, responde o pai, eles vivem no mesmo país. Porque não falam a mesma língua? Não, eles falam o mesmo idioma. A religião é diferente? Não, é a mesma. Por que, então? "Porque não têm o mesmo nariz", diz o pai de Gabriel.

É assim que começa o livro do rapper e escritor Gäel Faye —com um olhar infantil a contemplar a brutalidade. Na escola, enquanto as crianças assistem a "Cyrano de Bergerac", alguns dizem: "Olhem só o nariz dele! Só pode ser um tútsi!".

O autor, que já vendeu mais de 700 mil exemplares na França e ganhou o prêmio Goncourt des Lycéens —versão para estreantes do principal troféu literário do país—, é um dos convidados da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que ocorre entre os dias 10 e 14 de julho.

Depois do sucesso de Scholastique Mukasonga, em 2017, o evento volta a trazer um autor que escreve sobre o genocídio cometido contra os tútsis há 25 anos. 

Gabriel, o protagonista, vive com os pais no Burundi quando o presidente é assassinado e os conflitos entre as duas etnias logo mostram sua cara no país vizinho, Ruanda.

Faye, o autor, também nasceu no Burundi, filho de pai francês e mãe ruandesa. Perdeu familiares no massacre, mas, alerta, não escreveu um romance autobiográfico.

"Para escrever algo autobiográfico prefiro fazer uma música. Fora que fazer livro de memórias é o melhor jeito de ter problemas com a família", ri ele. "Mas acho que a vida real é mais complicada do que um romance."

Faye foi morar com a mãe em Paris aos 13 anos, foi só aí que se descobriu negro, conta —no Burundi e em Ruanda, era considerado branco, por ter a pele mais clara. A carreira de artista começou no rap —uma de suas canções famosas é "Petit Pays", que em francês é mesmo nome do romance. Recentemente, lançou uma chamada "Balade Brésilienne" (balada brasileira), com uma batida que remete ao samba.

"Gosto que a música brasileira, como a cubana, consegue misturar as influências europeias e africanas. No Burundi, eu cresci entre três línguas e preciso escrever em francês o que sinto em todas elas", afirma o autor. "Não quis falar só do genocídio. Esse livro fala do paraíso perdido, é um romance de formação."

Há alguns anos, Faye voltou com a mulher para Ruanda. Diz querer que as filhas não pensem no país de origem da família apenas sob a ótica do genocídio que aconteceu.

A letra da música "Petit Pays" talvez ilumine esse retorno. Com versos contundentes, ela traz alguém no exílio que se dirige a seu local de origem: "Pequeno país, eu te envio este cartão-postal/ Minha rosa, minha pétala, meu cristal, minha terra natal". Mais à frente, indaga: "Quando nos veremos longe da guerra?".

Meu Pequeno País

  • Preço R$ 57,90 (189 págs.)
  • Autor Gäel Faye
  • Editora Rádio Londres
  • Tradução Maria de Fátima Oliva do Coutto
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