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Para Luiz Ruffato, literatura ignora classe média baixa que votou em Bolsonaro

Escritor lança romance 'O Verão Tardio', sobre homem que reencontra sua cidade natal

Bruno Molinero
São Paulo

Quando os jornais estamparam que Jair Bolsonaro havia sido eleito presidente com 55% dos votos, em outubro do ano passado, logo começaram a borbulhar aqui e acolá análises políticas que diziam mais ou menos o seguinte: quem se surpreendeu com o resultado não havia compreendido as demandas da classe média baixa brasileira.

Faz sentido. Após três meses no cargo, marcados por disputas internas e polêmicas entre membros de seu primeiro escalão, Bolsonaro tem o governo avaliado como bom ou ótimo por 36% das pessoas que ganham entre 2 e 5 salários mínimos, segundo o Datafolha —já entre os que recebem entre 5 e 10 salários mínimos, a taxa salta para 43%.

Na sala de seu apartamento, à beira de uma janela que emoldura o arborizado bairro de Perdizes, em São Paulo, o escritor Luiz Ruffato diz que a literatura brasileira tampouco é capaz de compreender essa mesma classe média baixa. 

Retrato de Luiz Ruffato feito por Walter Carvalho
Luiz Ruffato retratado em Cataguases por Walter Carvalho, que assina a direção de fotografia do filme ‘Redemoinho’, baseado na obra do escritor - Walter Carvalho

“Nossa literatura retrata historicamente a classe alta e os miseráveis. A faixa da população que se esforça muito para ter algum conforto não tem espaço nos livros, no cinema, em lugar nenhum. Então, como ninguém olha para eles, ninguém compreende muito bem o que está acontecendo no país hoje”, avalia o autor.

Ao perceber isso, talvez por ser filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira, Ruffato resolveu apontar desde cedo seus óculos para essa gente.

A obra do escritor se tornou conhecida e premiada ao entrelaçar diferentes trabalhadores, donos de pequenos comércios, pessoas que se esforçam para se equilibrar na gangorra entre o salário do fim do mês e as contas a pagar, universo que ele retoma em seu sexto romance, o recém-lançado “O Verão Tardio”, publicado pela Companhia das Letras.

“São personagens que votariam no Bolsonaro”, diz. “Porque a classe média nunca foi revolucionária. Ela até pode não ter acesso ao sistema, mas gostaria de ter. São pessoas que sonham em usufruir de benefícios, ter um carro bom, uma casa melhor ainda. E que, em épocas de crise, depositam suas esperanças em quem promete isso”, continua.

No novo livro, Ruffato conta a história de Oséias, que retorna à sua cidade natal, a mineira Cataguases, após 20 anos sem pisar por lá, onde perambula ao lado da sobrinha rejeitada, encontra a irmã que se esforça para ser eternamente jovem e esbarra com figuras que lembram fantasmas e mostram uma certa incapacidade de comunicação.

Como ocorre em outros livros do autor, sobretudo na pentalogia “Inferno Provisório”, o cenário é a mesma Cataguases onde Ruffato nasceu e da qual só se despediu quando passou no curso de comunicação social na Universidade Federal de Juiz de Fora.

“Se você seguir os passos dos personagens, os nomes das ruas, o tempo de deslocamento entre os lugares, as descrições das casas, tudo é igual. Geograficamente, é Cataguases. Mas não é. É a minha Cataguases”, diz o autor, que reconhece que isso acabou gerando atritos com alguns moradores.

Ruffato ri quando se lembra da vez em que ele e a equipe do filme “Redemoinho”, baseado em sua obra e filmado no município, participaram de uma exibição do longa, seguida de um debate público, na sua cidade natal.

Era 2017 e, além de Ruffato, estavam em Cataguases para a exibição de “Redemoinho” o diretor do longa-metragem, José Luiz Villamarim, e parte da equipe e do elenco.

Quando a exibição terminou, uma moradora logo levantou a mão e reclamou: para ela, a cidade tem muitas coisas bonitas, mas Ruffato se esforça em mostrar apenas o lado ruim do lugar.

“Como eles vivem na Cataguases real, não reconhecem a cidade nos meus livros. Ou não querem reconhecer”, diz o escritor. Mas é fato que alguns entusiastas não devem se sentir muito orgulhosos ao lerem o trecho abaixo, por exemplo, presente já no início de “O Verão Tardio”.

“A cidade está feia, suja, fedendo a mijo. O lixo se espalha pelos meios-fios. Mendigos e camelôs disputam os passantes. Nos botequins, bares e restaurantes, televisores ligados hipnotizam os clientes.”

Mais do que um município específico encravado no interior de Minas Gerais, as Cataguases de Ruffato são uma metáfora do próprio Brasil. 

Ponte de Cataguases no filme "Redemoinho", em fotografia de Walter Carvalho
Ponte em Cataguases no filme "Redemoinho", em fotografia de Walter Carvalho - Walter Carvalho

“Além de não mostrar a classe média baixa, a literatura urbana brasileira também é feita no eixo Rio-São Paulo. Não há um olhar para o interior, onde não há saneamento e sobra violência e medo.”

Foi justamente esse Brasil que o autor descreveu durante a Feira de Frankfurt de 2013, em uma fala que repercutiu internacionalmente e, de certa forma, projetou o nome de Ruffato além das letras.

Durante cerca de dez minutos, 2.000 pessoas ouviram o escritor afirmar que o país foi fundado pelo genocídio, que a suposta democracia racial foi criada à base de estupros e que, no Brasil, reinam a impunidade e a intolerância. Tudo isso durante o primeiro governo de Dilma Rousseff, poucos meses após as manifestações de junho daquele ano.

Seis anos depois, ele voltou na última semana à Alemanha —desta vez a Berlim, onde foi convidado para falar sobre o governo de Jair Bolsonaro. 

“Quis mostrar que o projeto de Lula acabou forjando os eleitores de Bolsonaro. Ele foi o melhor presidente do ponto de vista econômico. Mas falhou ao não proporcionar nada além de bens materiais. Transformou a classe C em consumidora, mas não em cidadã. Quando essas pessoas sentiram que perderiam o pouco que tinham, acabaram migrando para o discurso da extrema direita”, analisa.

“Claro que o PT construiu coisas boas. Só que leva tempo para levantar uma casa. Você precisa de dinheiro, terreno, arquiteto, engenheiro, pedreiro. Demora. Agora... Se quiser destruir tudo isso, basta uma pessoa com uma picareta.”

O Verão Tardio

  • Preço R$ 49,90 (232 págs.)
  • Autor Luiz Ruffato
  • Editora Companhia das Letras
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