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Televisão

Série sobre inocentes presos por estupro ajuda a entender o racismo hoje

Olhos que Condenam recria passagem vergonhosa da história dos Estados Unidos

Lúcia Monteiro

Olhos que Condenam

  • Elenco Asante Blackk, Caleel Harris, Ethan Herisse
  • Direção Ava DuVernay
  • Estreia Na sexta-feira (31), na Netflix

Roteiro hábil, temática envolvente, elenco talentoso, fotografia caprichada, bom ritmo de montagem...

Esses são alguns dos argumentos usados para avaliar séries. Ainda que todos eles estejam presentes em “Olhos que Condenam”, série que estreia na sexta-feira (31), a razão principal para vê-la é de outra ordem.

Escrita e dirigida por Ava DuVernay, primeira realizadora negra premiada em Sundance e indicada ao Globo de Ouro, o lançamento da Netflix baseia-se na história real de cinco adolescentes de Nova York condenados injustamente por um estupro no Central Park. O crime, ocorrido em abril de 1989, tem repercussões perenes na vida dos envolvidos e é um marco na história das tensas relações raciais nos Estados Unidos.

Numa noite de primavera, cinco garotos do Harlem, negros ou latinos, saem para fazer bagunça no Central Park. No mesmo momento, uma mulher branca de 28 anos é atacada, estuprada e chega ao hospital em estado gravíssimo. Os meninos levam a culpa, ainda que nenhum elemento na cena do crime justifique isso.

Difícil não ser arrebatado pela performance dos atores mirins que interpretam os protagonistas no primeiro dos quatro episódios. Difícil, também, ficar indiferente ao desespero das famílias, num crescendo que acompanha a escalada de injustiças a que os garotos são submetidos.

O conhecido desfecho da história não impede o espectador de torcer por cada um dos meninos, de acreditar que a justiça será feita, nem de sofrer diante do destino deles.

Inteligente, a direção inseriu imagens televisivas da época, como as do magnata Donald Trump, que foi a público para pedir a pena de morte. Vemos, mais magro, o atual presidente dos Estados Unidos dizer, cinicamente: “Eu gostaria de ser negro neste país hoje”. Para completar, de maneira mais desavergonhada: “Aqui os negros têm muito mais oportunidades do que os brancos”.

Do ponto de vista do espectador, o principal incômodo talvez seja, no segundo e no terceiro episódios, a mudança do elenco. Como fazer diferente? Quando são condenados, os “Central Park Five” têm entre 14 e 16 anos. Entre reformatórios e prisão, ganham a liberdade já adultos. 

Há, porém, perda dramática nessa passagem do tempo. Felizmente, o versátil Jharrel Jerome se mantém no papel de Korey Wise, o mais velho do grupo e quem passa mais tempo atrás das grades 
—mais de dez anos.

Pode-se criticar, ainda, a presença discreta do movimento negro e a associação, mais uma vez, entre personagens de jovens negros e as narrativas de violência e crime.

Nenhuma dessas ressalvas tira o mérito, a importância e a relevância de “Olhos que Condenam”, uma série necessária para entender não só essa passagem vergonhosa da história dos Estados Unidos, mas sobretudo as permanências do racismo em nosso presente. 

Em 2014, quando Nova York indenizou os cinco garotos, Trump voltou a se pronunciar —e não admitiu que a polícia e a Justiça erraram, insistindo na tese de que eles eram, sim, culpados.

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