Descrição de chapéu
Cinema

Gente feia, velha e desvalida dão o tom de longa sobre serial killer

'O Bar Luva Dourada', do alemão Fatih Akin, joga luz sobre marginalizados em filme que conta história real

Bruno Ghetti

O Bar Luva Dourada (Der goldene Handschuh)

  • Quando Estreia nesta quinta (18)
  • Classificação 18 anos
  • Elenco Jonas Dassler, Katja Studt, Hark Bohm
  • Produção Alemanha/França, 2019
  • Direção Fatih Akin

Talvez exista outro filme recente tão desagradável, nauseante e violento como “O Bar Luva Dourada”, mas é difícil citar. O longa do alemão Fatih Akin ignora todos os códigos da sensibilidade de 2019 ao exibir cenas de truculência espantosamente cruas, brutais, sobretudo contra mulheres. Uma enorme audácia.

É a história (real) de Fritz Honka, serial killer dos anos 1970. Um sujeitinho corcunda, estrábico, de nariz torto, que frequentava o que havia de mais decadente na noite de Hamburgo. Sonhava com
jovens burguesas, mas fazia sexo com meretrizes baratas, alcoólatras e mais velhas.

Matou quatro delas, após rompantes de ira machista. Honka se enfurecia quando riam de sua inaptidão sexual. Escondia os corpos em casa, um antro de mau gosto e insalubridade, e atribuía o odor à comida dos vizinhos gregos.

Akin não poupa o espectador da sordidez daquele universo. Tudo é incômodo, abjeto. Os móveis e roupas setentistas têm o tom perfeito de cafonice, e as paredes sujas, infectas, dão ao filme um aspecto amarronzado, diarreico, que torna as imagens peculiarmente viscosas.

Há, porém, algo de bizarramente fascinante nessa podridão. A estilização ajuda, assim como um humor inesperado aqui e ali. Mas o diferencial do longa é menos óbvio —e é o seu cerne. Mostra a humanidade de seres que mal se lembram de que são humanos.

Apesar da brutalidade (às vezes excessiva), há certa condescendência de Akin pelos personagens. Não se trata de perdoar falhas —aliás, todos pagam um preço alto o tempo todo por serem quem são. Mas o filme traz justamente um olhar a eles, mostrando a vida infernal desses desvalidos.

São pessoas marginalizadas —velhas, feias, beberronas, miseráveis, sem saúde. E, sobretudo, solitárias. Gente que não interessa à sociedade. A violência do longa não só se justifica, é o que dá sentido.

Akin nunca tenta defender Honka ou mesmo compreender o que o leva a ser monstruoso, não quer redimi-lo. Mas em alguns instantes, sua câmera se compadece do patético daquele ser, uma aberração física e moral. Que, ao seu modo torto, vive em busca de normalidade. E de prazer.

Ele e qualquer frequentador do bar Luva Dourada estão fadados ao sofrimento, à tragédia, o mundo não pertence a eles. Não é à toa que, quando a jovem burguesa do imaginário erótico de Honka visita o perigoso pub, sai de lá ilesa. O submundo não a afeta,  não lhe é sequer uma ameaça.

É um filme mais propenso à repulsa do que à adesão, mas ao menos um elemento parece unânime: Jonas Dassler, como Honka. O ator é jovem e belo, mas a caracterização o torna asqueroso. Um assassino imperdoável, mas um homem que não faria a menor diferença ao mundo. Não ganharia, inclusive, um filme, não fossem os seus atos extremos.

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