Morta há 31 anos, Ana Mazzotti tem obra revisitada por gravadora inglesa

Pianista brasileira elogiada por Hermeto Pascoal, tocava jazz à moda brasileira e foi cobiçada por gravadoras estrangeiras

Amanda Cavalcanti
São Paulo

Em 1974, uma jovem de 24 anos saiu pela primeira vez de seu estado natal, o Rio Grande do Sul, para passar algumas semanas no Estúdio Havaí, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, gravando seu disco de estreia financiado de forma independente —situação rara para a época.

Natural da cidade de Caxias do Sul, a cantora, compositora e instrumentista Ana Maria Mazzotti (1950-1988) contou com a ajuda de membros do trio Azymuth e de seu marido, Romildo Teixeira Santos, para gravar oito de suas composições originais e duas versões de Chico Buarque e do cantor norte-americano Gene McDaniels.

O resultado foi o disco "Ninguém Vai Me Segurar", lançado pelo selo Top Tape naquele ano. Alguns anos mais tarde, em 1977, Mazzotti recebeu um convite da gravadora da TV Tupi, a Gravações Tupi Associadas, para regravar os vocais das faixas e adicionar mais uma composição, “Êta, Samba Bom”, para o lançamento do disco Ana Mazzotti. Em 13 de setembro, a gravadora inglesa especializada em música brasileira Far Out Recordings relançará oficialmente uma reprensagem e remasterização dos dois LPs.

"Ninguém Vai Me Segurar" e Ana Mazzotti cabem perfeitamente no escopo de música brasileira dos anos 1970 e 1980 influenciada por jazz e funk que passou a ser cobiçada por gravadoras e DJs estrangeiros —artistas como o próprio Azymuth, que forma a maior parte do catálogo da Far Out, Marcos Valle, Banda Black Rio e João Donato também tiveram seus discos relançados por selos de fora do Brasil nos últimos anos.

“Na época, os discos infelizmente não foram muito bem recebidos, mas hoje existe um interesse renovado por esse tipo de música”, diz Jake Williams, Label Assistant que participa de perto dos processos de lançamento da Far Out. “Especialmente por LPs que foram subestimados ou negligenciados.”

Os discos não foram centrais à carreira de Mazzotti, que começou na música tocando piano em igrejas da cidade muito católica de Bento Gonçalves, onde viveu pela maior parte de sua juventude. Mais tarde, ela se interessou pelo rock e formou um grupo de covers dos Beatles com outras três garotas —sendo responsável por apresentar a banda seminal a uma parte da cidade, como é contado no documentário “Sou Ana Mazzotti”, realizado pela Antro Filmes em 2013.

O interesse pela música brasileira, o funk e o jazz veio com a ajuda do marido, que a artista conheceu num festival denominado Encontro Bento Gonçalves da Canção em 1972. Naquele ano, o casal forma a banda de baile Desenvolvimento e se mudam para a capital gaúcha. Foi esse também o mesmo momento em que Mazzotti começou a trabalhar em suas composições que, mais tarde, se transformaram em "Ninguém Vai Me Segurar".

No início de 1974, José Bertrami e Alex Malheiros, membros fundadores do trio Azymuth, foram convidados por Teixeira, chamado por Malheiros de “Tijolinho”, a criarem arranjos e participarem das gravações do disco.

“Foi uma grande experiência para mim e para o Zé, porque eram coisas mais ligadas à nossa essência musical. Como músicos profissionais de estúdio, nós gravávamos qualquer coisa: bolero, samba”, conta Malheiros, sobre a experiência. “Gravar o disco com o Tijolinho e a Ana nos aproximou muito da nossa música, foi um incentivo pra gente poder se colocar.”

Muitos anos depois, sua filha Sabrina Malheiros gravou uma versão da composição de Mazzotti “Eu Sou Mais Eu” para seu disco de estreia Equilibria (2005).

Depois do lançamento de Ana Mazzotti, a artista permaneceu se apresentando em bares e hotéis das noites carioca e paulistana e se interessando cada vez mais por jazz (o que foi registrado no disco ao vivo Festival de Verão do Guarujá, lançado em 1982) até sua morte em 1987, depois de uma batalha contra o câncer.

Os LPs originalmente lançados na década de 1970 faziam parte da coleção de discos brasileiros do DJ e fundador da Far Out Joe Davis e foram usados para a masterização dos novos discos. “Infelizmente, não se sabe onde estão as fitas [das gravações] originais”, conta Williams.

Apesar da curta carreira, Mazzotti trabalhou e tocou com diversos nomes importantes para o jazz brasileiro e mundial, como Chick Corea e Hermeto Pascoal. Este declarou em “Sou Ana Mazzotti”: “Se ela estivesse aqui ainda, estaria fazendo seu trabalho cada vez melhor. Era uma supermusicista”.

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