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Textos de Drummond mostram como desprezo por Machado virou devoção

Compilação de escritos do poeta mineiro explicita a sua relação com o autor de 'Dom Casmurro'

Maurício Meireles
São Paulo

Resolveram transportar o ilustre defunto de sua sepultura. Machado de Assis (1839-1908) sairia de seu jazigo, onde há cinco décadas estudava a geologia dos campos santos, para um mausoléu a ser construído pela Academia Brasileira de Letras.

Aí começou a confusão. Escritores protestaram. Contra a medida, surgiu um abaixo-assinado que tinha como signatários Ferreira Gullar (1930-2016), Rubem Braga (1913-1990), Fernando Sabino (1923-2004), Gilberto Freyre (1900-1987). E, entre eles, despontava um dos mais cáusticos, o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

O lugar onde o escritor ficaria era só superfície do debate. Mais a fundo, estava em jogo um dilema importante. Machado voltaria a ser um autor vestido de fardão, levemente lusitano e parte de um cânone passadista? Ou já era mesmo parte do cânone moderno?

A questão resumia a evolução de um dilema coletivo da literatura brasileira e da leitura individual que Drummond fazia da obra de Machado. Aos 22 anos, o mineiro dizia que o certo era repudiá-lo. Na época da polêmica, já maduro, tinha devoção pelo antecessor.

A história desse aparente desprezo seguido de um amor confesso está no livro “Amor Nenhum Dispensa Uma Gota de Ácido”, que reúne textos de Drummond desde a juventude que mostram sua relação com Machado —entre eles, alguns falam da controvérsia funerária. A edição da Três Estrelas, selo editorial do Grupo Folha, é organizada por Hélio de Seixas Guimarães, professor livre-docente da USP .

“Drummond é figura importante nesse esforço geracional de modernizar Machado. A partir dos anos 1930, se começa a construí-lo como escritor moderno”, diz Guimarães.

Era normal que, moleque, o poeta de Itabira quisesse se insurgir contra o mestre —no texto mais antigo, de 1925, insinua a necessidade de queimar ídolos. Machado representava, afinal, um passado que o modernismo queria superar.

Mais de três décadas depois, Drummond escreveria “A um Bruxo, com Amor”, poema quase todo feito a partir de frases e palavras tiradas de textos do mestre. Era como se a voz de Machado se incorporasse à sua, diz o organizador.

Guimarães destaca que o movimento tem paralelos na poesia de Drummond. Nela, com o tempo, os mortos deixam de ser algo do mundo exterior e passam a fazer parte do próprio poeta. A relação angustiada com o passado e com a figura paterna também marca os versos do mineiro. Machado, aliás, não deixa de ser um pai com quem ele se reconcilia.

Essa reconciliação surge numa das crônicas mais divertidas. Nela, Drummond defende que ser funcionário público —como ele e Machado foram— é ótimo para os escritores. O funcionário-escritor, diz, “constrói sob a proteção da Ordem Burocrática o seu edifício de nuvens, como um louco manso e subvencionado”.

Ao fim do livro, o próprio poeta explica a ira juvenil. “Pela graça de Deus, cheguei cedinho a Machado de Assis. Deste não me separaria nunca, embora vez por outra lhe tenha feito umas má-criações. Justifico-me: amor nenhum dispensa uma gota de ácido.”

Amor Nenhum Dispensa Uma Gota de Ácido

  • Preço R$ 44,90 (160 págs.)
  • Autor Carlos Drummond de Andrade. Org.: Hélio de Seixas Guimarães
  • Editora Três Estrelas
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