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Comunismo e fantasma de prostituta permeiam livro chinês

'Na Terra do Cervo Branco' é um registro colorido, dramático, patético, cruel, que é difícil de interpretar em termos ocidentais

Na Terra do Cervo Branco

  • Preço R$ 119 (864 págs.)
  • Autor Chen Zhongshi
  • Editora Estação Liberdade
  • Tradução Ho Yeh Chia, Márcia Schmaltz e Mauro Pinheiro

“Na Terra do Cervo Branco”, do chinês Chen Zhongshi, é uma longa e bela saga, cujos eventos mesclam aspectos genealógicos, lendários e históricos. O centro dela está na rixa um tanto oblíqua entre as duas principais famílias —Bai (“branco”) e Lu (“cervo”)— de uma aldeia da zona rural de Xi’an, capital da província de Shaanxi, no nordeste da China, a mesma região do autor.

No ramo genealógico, predominam as figuras de Bai Jiaxuan, chefe do clã, hierático e rigorista na atinência aos preceitos tradicionais, e de Lu Zilin, mulherengo e maquinador. Historicamente, centra-se no período entre os anos 1920 e 1940, com a destruição da dinastia Qing, a invasão japonesa e as guerras intestinas entre os partidos nacionalista e comunista, até a primeira grande vitória deste.

É quando, não por acaso, os velhos rivais sofrem um colapso, abrindo caminho para a nova geração, cujos valores já não se baseavam nas relações pessoais e na reputação, mas nas ordens emanadas dos intelectuais do governo central.

homem oriental fumando charuto
O escritor Chen Zhongshi em 2007 - Jiang Jianhua/VCG

No tocante às lendas, são particularmente impressionantes as relativas à epidemia e à possessão demoníaca provocadas pelo fantasma de Xiao’e, jovem prostituta depravada, mas que, em termos contemporâneos ocidentais, seria antes compreendida como vítima de um patriarcado brutal. Nada mais estranho à perspectiva do livro, que acompanha de perto a perspectiva tradicional do clã.

A ordem da narrativa é cronológica, mas evita habilmente a linearidade ao findar cada um de seus episódios com acontecimentos que apenas são explicados a posteriori. Ou seja, Chen Zhongzi compõe uma espécie de linha em zigue-zague que, a cada avanço, retrocede para esclarecer as suas razões, pontuando de suspense a longa narrativa.

Excepcionalmente, podem ocorrer saltos maiores para trás ou para a frente, com efeitos quase sempre devastadores —por exemplo, quando se revela que o primeiro Lu era um aprendiz de cozinheiro seguidamente sodomizado, ou quando, num dos avanços para o futuro, a sepultura de Mestre Zhu, o homem mais sábio e respeitado da região, é vandalizada por estudantes comunistas ansiosos por exibirem desprezo pelas antigas leis.

Além da destreza narrativa, é latente o domínio de Chen Zhongzi de recursos refinados como o dos símiles, que introduzem comparações surpreendentes mesmo nas descrições mais prosaicas; dos provérbios e dísticos, que fazem a narrativa se colar à sabedoria de matriz confuciana; das visões e sonhos, que a carrega de presságios e magia; e, enfim, das descrições fisiológicas que operam verdadeiras explosões emocionais.

 

Em termos gerais, trata-se de um tipo de narração teatral, marcada por gestos primitivos, exagerados, sentimentos que irrompem com a violência de surtos. Para dar um exemplo categórico: simplesmente não há página em que as lágrimas não venham a alguma personagem, de mansinho ou aos borbotões, atingindo velhos, crianças ou mulheres, sábios, ricos, militares ou camponeses, diante de circunstâncias até banais. 

 

Trata-se de um registro colorido, dramático, patético, cruel, e ao mesmo tempo provinciano e cômico, que é difícil de interpretar em termos ocidentais. Talvez seja a ilustração poética de uma concepção de vida em cujo centro estão os tormentos diários a suportar, não os ideais ou a felicidade. Em termos políticos, é um perfeito exemplo da aproximação do partido comunista com as raízes confucianas do país.

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