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'Popcast' é o melhor lugar para se pensar a música pop atual

Apesar de olhar americanizado, podcast do New York Times discute a música pop contemporânea sem amarras

Popcast

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No ano passado, você ouviu o disco “1000 gecs”, da dupla 100 gecs? E “Utopia”, do expoente da bachata contemporânea Romeo Santos? “X 100PRE”, do trapper colombiano Bad Bunny? Esses são alguns dos álbuns na lista de melhores de 2019 de Jon Caramanica, crítico do New York Times e apresentador do podcast “Popcast”, do jornal americano.

As escolhas se juntam a nomes mais conhecidos, como Lana Del Rey, Ariana Grande e Taylor Swift, no programa do podcast que discute os LPs mais importantes do ano passado. Nenhum desses álbuns menos conhecidos, contudo, é de música obscura, experimental ou de difícil audição.

duas pessoas loiras no meio de uma cortina vermelha
A dupla americana 100 gecs, que lançou '1000 gecs', seu primeiro disco, em 2019 - Divulgação

Como o nome adianta, a música pop está no centro do “Popcast”. Mas não só aquela que recebe altos investimentos das gravadoras, e sim qualquer fenômeno da internet ou artista desconhecido que indique
novos caminhos para o gênero.

Caramanica é o apresentador, geralmente acompanhado pelo repórter Joe Coscarelli e pelo crítico Jon Pareles, do Times, além de jornalistas especializados convidados.

O disco do 100 gecs, por exemplo, foi lançado em maio, mas teve um programa dedicado a ele só em outubro. Hermético, o álbum é curto e veloz, construído com batidas eletrônicas, vozes agudas e aceleradas, samples e sons que parecem ter sido retirados de alguma esquina da internet. Soa pop-punk e dubstep.

Não se trata de um grupo extremamente popular, apesar de alguns poucos milhões de visualizações nas plataformas de streaming. Para a mesa do “Popcast”, contudo, “1000 gecs” é onde o uso de máquinas captura e amplifica uma diversão profundamente humana. “Eles são o fim do pop ou um novo começo?” é a pergunta que baseia a discussão.

Em termos de formato, o “Popcast” é clássico e limitado. A conversa da mesa redonda só é interrompida para a inserção de trechos de músicas. Por outro lado, o olhar desprovido de preconceitos para o pop atual põe o podcast à frente nesta cobertura.

Episódios dedicados a entender as revoluções promovidas por Drake —que viria a se tornar o artista mais ouvido da década no Spotify— e o trap de Atlanta, de Migos a Young Thug, são alguns exemplos. Assim como as improváveis ascensões de Billie Eilish e Lil Nas X, Lizzo e DaBaby —fenômenos da internet— em 2019.

O “Popcast” também está preocupado com as mudanças na indústria e no consumo. A partir da segunda metade dos anos 2010, quando o programa começou, essas questões são quase tão importante quanto a própria música.

Há episódios sobre os artistas que existem em plataformas como o SoundCloud, a validade da métrica da Billboard no cálculo das mais tocadas, do perfil de celebridades como gênero jornalístico e do álbum como principal formato para reunião de faixas.

Apesar de eclético, o programa falha quando tenta olhar para fora dos Estados Unidos. Mesmo tendo olhado para reggaeton e k-pop, os episódios de música brasileira poderiam ser mais interessantes. Caetano Veloso, entrevistado no “Popcast”, foi mais perguntado sobre política do que música. E o episódio sobre João Gilberto, na ocasião de sua morte, mais discute sua influência na febre de vídeos de ASMR (Resposta Sensorial Autônoma do Meridiano) no YouTube do que suas inovações.

Ainda que a partir de um olhar americano, o Popcast é o melhor lugar para se pensar a música pop contemporânea —suas revoluções e seu futuro— em seu período menos convencional em anos.

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