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Biografia desconstrói mitos que Elke Maravilha criou ao longo da vida

Audiobook revisita passado da modelo e descobre, por exemplo, que ela não nasceu na Rússia, como sempre disse

São Paulo

Antes de chegar ao último ano da faculdade de jornalismo, o escritor e jornalista Chico Felitti começou a pensar em ideias para seu trabalho de conclusão de curso.

A imagem de Elke Maravilhava pairava sobre sua cabeça como a de um ícone a ser reverenciado e jamais esquecido. Foi então que decidiu fazer um perfil da modelo, ligou para ela e foi recebido para uma série de entrevistas. Mas o tema do trabalho foi considerado desimportante por seus professores, que logo enterraram a ideia.

Gravações, pesquisas e memórias ficaram esquecidas por cerca de uma década, até a morte de Elke, em 2016, aos 71 anos. Foi então que Felitti decidiu ressuscitar todo o material levantado nos anos universitários e escrever um obituário, publicado nas páginas deste jornal. “Era justamente um texto sobre como era difícil fazer uma biografia da Elke, porque ela era mais inteligente do que todos os biógrafos”, diz o escritor.

Agora, as histórias reunidas por Felitti podem ser ouvidas na Storytel, plataforma de audiobooks sueca que o incumbiu de transformar sua pesquisa no livro “Mulher Maravilha”, primeira produção original do serviço no Brasil. O lançamento ocorreu em 20 de fevereiro, dois dias antes do aniversário de 75 anos de Elke.

“Ela não gostava de dar entrevista e odiava a ideia de uma biografia”, lembra Felitti. “Tinha muita negociação para saber quando podia ligar o gravador, era um campo minado. Ela não negava, mas fazia a entrevista não acontecer”, diz sobre os encontros com a modelo, que sempre aconteciam no bar, ou então em alguma padaria —desde que houvesse álcool.

Elke morreu achando que, durante as conversas, havia conseguido tapear mais um jornalista interessado em seu passado. Mas, ao sentar para escrever, Felitti começou a perceber inconsistências naquilo que tinha ouvido dos lábios sempre coloridos e sorridentes da modelo. Teria ela mentido sobre partes importantes de sua biografia?

“As histórias eram muito maravilhosas para serem verdade, eram muito romanescas e improváveis. Você ouve uma, duas, dez vezes e começa a sentir que tem alguma coisa esquisita nelas”, diz Felitti. “Ela contava a mesma história com pequenas diferenças.”

Foi então que o autor começou a desconfiar de um dado relevante da vida de Elke —o lugar onde nasceu. Segundo a modelo, ela havia nascido em Leningrado, atual São Petersburgo. Sua mãe teria saído de uma pequena cidade na Alemanha, atravessado a Europa em meio aos tiros e bombas da Segunda Guerra e dado à luz na União Soviética, enquanto procurava pelo marido, desaparecido. “Era muito incrível para ser verdade.”

Cópia de tradução da certidão de nascimento de Elke Maravilha
Cópia de tradução da certidão de nascimento de Elke Maravilha - Reprodução

Mas Felitti não encontrava evidências de que aquilo não passava de uma das várias fantasias criadas por Elke. Quando “Mulher Maravilha” já estava finalizado, no entanto, ele recebeu a ligação de um professor que estava com os registros escolares da modelo. No meio deles havia a cópia de uma certidão de nascimento. Elke havia nascido em Leutkirch, na Alemanha. A história foi confirmada por seus irmãos e se tornou recheio do audiobook.

Foram várias as informações maquiadas por Elke, que acrescentou brilho e glamour a outras passagens marcantes de sua vida, como sua chegada à TV —ela dizia que nunca tinha assistido à televisão até estrear no palco de Chacrinha, mas segundo sua irmã, elas passaram a infância em frente à telinha.

“Não sei se estou idealizando, mas quando você vê tudo o que ela fez e o que falava... Ela sabia abordar assuntos delicados de um jeito tão interessante, festivo e vestido de felicidade que conseguia passar a pior das mensagens”, diz Felitti.

Na visão do escritor, foi o seu grande talento para embrulhar bem alguns recados importantes com tons popularescos e acessíveis que a alçou à condição de ícone. “Ela foi uma libertária e soube vestir esse libertarianismo para ser palatável para as massas.”

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