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Leitor é cúmplice de futuro terrível em livro que narra férias de verão que antecedem o Holocausto

Em 'Meu Pai, Minha Mãe', Aharon Appelfeld nos conduz aos anos 1930, logo antes das experiências da guerra

Leda Cartum

Meu Pai, Minha Mãe

  • Preço R$ 79,90 (232 págs.)
  • Autor Aharon Appelfeld
  • Editora Carambaia
  • Tradução Luis S. Krausz

A língua materna do escritor judeu Aharon Appelfeld (1933-2018) era o alemão. Além disso, na infância, ele falava iídiche com os avós, ruteno com os habitantes de Bucovina, romeno por exigência do governo.

Aprendeu ucraniano durante a Segunda Guerra e russo logo que a guerra acabou. Ao chegar na Palestina com 12 anos, em 1946, já não tinha uma língua que fosse sua. “Aprendi o hebraico com muito esforço. [Essa língua] me ensinou […] a poupar palavras, a não usar adjetivos demais, a não intervir demais”, diz em entrevista a Philip Roth.

“A história de sobrevivência de Aharon Appelfeld parece um desafio a todas as probabilidades”, escreve o tradutor Luis Krausz, no posfácio do livro "Meu Pai, Minha Mãe". Com 8 anos, ele viu o assassinato da mãe pelos nazistas; foi levado para um campo de trabalho e de lá fugiu sozinho; escondeu-se nas florestas da Europa Oriental; conviveu com camponeses ucranianos, ladrões de cavalos, trabalhou para uma prostituta e foi intérprete de soldados russos.

Mas nada disso é contado no livro publicado recentemente pela Editora Carambaia.

Em "Meu Pai, Minha Mãe", Appelfeld nos conduz por uma viagem para as margens do rio Pruh, aos pés dos Cárpatos, onde passava as férias de verão com os pais, logo antes das experiências da guerra, no final dos anos 1930.

A escrita de Appelfeld convida para uma jornada de retorno, mesmo para quem nunca esteve na região de Bucovina ou em Czernowitz, na Romênia, hoje Ucrânia, onde o autor nasceu. Numa “caminhada para trás”, chegamos em uma conhecida “terra sussurrante” que se mistura com os sonhos que o menino tem à noite. No balneário, ele observa os nadadores, o homem da perna amputada, a mulher que se lamenta, o médico, a vidente, seu pai muito crítico, sua mãe muito boa.

“Deixe as imagens entrarem e se aprofundarem em você. Algum dia você vai reencontrá-las” —é o que o narrador, criança, escuta a mãe dizer. Ele não podia imaginar o corte que, em seguida, separaria “o que foi do que iria ser”. E agora, cavando muito fundo na “mina da qual surgem pedras preciosas”, o autor faz de seus leitores cúmplices do futuro: sabemos de algo terrível que essas pessoas ainda não sabem, e por isso o texto é assombrado pelo que silencia.

Também por ter perdido as suas línguas de origem, esse é um autor que escreve com um sotaque eternamente estrangeiro —como se o próprio texto em hebraico já fosse a tradução de uma língua e de um tempo que não existem mais. Ele volta para quando os boatos corriam na beira do rio, entre judeus que não imaginavam o que seria a guerra que viria.

Para uma criança, esses “rumores e temores” não significavam muito além de uma ameaça abstrata e assustadora. Mas, nas lembranças antigas, ainda mais quando separadas do presente por uma ruptura como essa, os adultos também soam como crianças em suas afirmações categóricas, sua ignorância sobre o ponto em que se encontram no tempo.

Appelfeld conta que, por ter vivido experiências que estão além do poder da imaginação, sua tarefa como artista “não era desenvolver a imaginação, mas contê-la”. De fato, em "Meu Pai, Minha Mãe", a narração trabalha com o mínimo, e se interessa mais pelas vozes dos outros ao seu redor do que pela própria. “Sei que as pessoas que cruzaram meu caminho aqui não são heróis nem são pessoas maravilhosas, e que entre elas há algumas assustadoras, repugnantes e ridículas. Ainda assim, me parece que elas estarão ao meu lado também quando eu voltar para casa.”

Leda Cartum é escritora e roteirista; publicou "O Porto" (Iluminuras) e "As Horas do Dia" (7Letras).
 

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