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Em série, Freud sonha que está matando o pai e transando com a mãe

Produção da Netflix ficcionaliza juventude do psicanalista com a sutileza de um mastodonte

Freud

  • Onde Disponível na Netflix
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Robert Finster, Ella Rumpf, Georg Friedrich
  • Direção Marvin Kren

Um Freud jovem, bonitão e desconhecido tenta convencer seus colegas médicos a usarem hipnose no tratamento da histeria. Usa táticas fraudulentas para persuadi-los e mesmo assim se dá mal. Na sequência se vê às voltas com crimes de caráter sobrenatural.

A série "Freud", que acaba de estrear na Netflix, com direção de Marvin Kren, usa e abusa da figura do criador da psicanálise, uma das maiores personalidades do século 20, com grande dose de invencionices. A reconhecida ética do médico vienense dá lugar a atitudes inescrupulosas e cenas tórridas de sexo com uma estranha.

A produção é excelente pela qualidade dos figurinos, cenários, fotografia e dos atores, que encarnam os personagens mais improváveis sem perder o rebolado. Robert Finster, Ella Rumpf, Georg Friedrich dão conta do recado nos papéis do jovem Freud, da médium Fleur Salomé e do policial Kiss, respectivamente.

O nome da médium seria uma alusão à carismática psicanalista, filósofa e poeta russa Lou Andreas-Salomé, musa de Freud, de Nietzsche e de Rilke?

É curioso ver os elementos da vida e da obra de Freud sendo manipulados pelo bem da trama e fazer o “jogo dos —70 e— sete erros”.

Hipnose —que o verdadeiro Freud não apreciava e não dominava muito bem, mas foi o pontapé inicial da psicanálise— é a questão central da primeira temporada, na qual aparece para lá de superestimada.

Alguns fatos de sua relação com Josef Breuer, responsável pelo caso de Bertha Pappenheim —inaugural da psicanálise—, o uso desavisado de cocaína, sua ambição são alguns dos fatos sabidos de sua biografia que aparecem na série.

Não é a primeira vez que Freud é alvo da ficção. John Huston, em 1962, já havia bancado o desafio de retratar as descobertas fundamentais de Freud num filme "que cheirasse a enxofre", como declarou, associando o percurso do médico ao de Dante no inferno.

A história da realização desse filme daria outro, contando a relação entre Huston e Sartre, convidado a escrever o roteiro. O choque cultural entre o francês e o americano e a disputa de egos gerou diálogos memoráveis.

Por fim, o filósofo pediu que tirassem seu nome dos créditos como roteirista e usou o material para fazer um livro. O filme sobreviveu ao moedor de carne do puritanismo americano e ao alcoolismo de Montgomery Clift, o protagonista. Ao final, caiu nas graças dos intelectuais, mas foi um fracasso de bilheteria. Em português, o filme levou o nome do livro de Sartre "Freud, Muito Além da Alma", que saiu pela Nova Fronteira, em 2005.

Em 2011, tivemos "Um Método Perigoso", de David Cronenberg, com um Freud mais próximo da postura ilibada, pela qual era conhecido, puxando a orelha de Carl Jung, que tinha casos com algumas pacientes.

Mas Freud versão thriller, terror, sobrenatural é novidade. Aos puristas, perdão, mas quem conhece a biografia e a obra de Freud —e gosta desse gênero de filme— vai se divertir.

A série é muito bem feita e tem momentos impagáveis como quando o autor de "A Interpretação dos Sonhos" sonha que está matando o pai e transando com a mãe. A sutileza de mastodonte me rendeu uma explosão de risos. Quem não conhece corre risco de acreditar que Freud era antiético, inescrupuloso ou charlatão, o que a história real desmente. Mas, para quem ficar na dúvida, talvez a curiosidade o aproxime do autor.

Para quem está começando a se familiarizar com sua obra pode ser desconcertante ver o psicanalista tão desconstruído e mal apresentado. Para esses, lembro que iconoclastia e chiste são alguns dos pontos fortes da psicanálise.

Demorou para Freud entrar no rol dos personagens de séries rocambolescas.

Na academia e na transmissão da psicanálise, o respeito à biografia, o conhecimento profundo da teoria, a experiência própria como paciente ou como analista são imprescindíveis.

Na ficção, no entanto, a questão se põe de forma bem diferente. Fica impossível não lembrarmos que se trata de uma apropriação livre de fatos e personagens históricos.

De quebra, a brincadeira com o ídolo ajuda a lembrar que crença em mitos nunca combinou com a psicanálise.

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