Assis Ângelo, cego há sete anos, lança cordéis sobre a pandemia

Jornalista e poeta é o criador do Instituto Memória Brasil, sobre cultura popular brasileira

São Paulo

Após passar a vida inteira estudando a arte popular brasileira, em especial a nordestina, e acumular cerca de 8.000 folhetos de cordel, o jornalista e poeta Assis Ângelo resolveu se aventurar na composição de alguns. Aos 68, Ângelo lançou quatro folhetos neste ano, e todos eles se referindo à epidemia que assola o país.

“Coronavírus: Piolho do Cramunhão Faz o Mundo Todo Tremer”, “Repórter Entrevista Piolho do Cramunhão”, “Serpente Quer Pôr Ovo no Coração do Brasil”, e “Jornalismo e Liberdade nos Tempos de Pandemia” são os quatro títulos escritos.

Cramunhão, para que não está familiarizado, é o Diabo, Satanás, Belzebu, o Capeta, enfim. Ou, em algumas regiões, pode ser um diabinho entregue pelo Diabo para servir determinada pessoa pelo resto da vida. Já piolho do Cramunhão foi a forma que Ângelo encontrou para se referir ao coronavírus.

Na entrevista que dá ao cordelista em um dos folhetos, o piolho fala de suas diabruras: “Quem chora é bicho mole/ Não merece salvação/ Comigo é diferente/ Sou macho sem coração/ Pois eu pego, mato e como/ Como faz bom gavião”.

“Não vi nenhum cordelista fazer algo a respeito”, afirma Ângelo. “Então em março já lancei o primeiro. A cultura popular é a mais importante que existe, é a formação do cidadão.”

O jornalista está mãos fechadas interpretando as palavras do poema de cordel
Assis Ângelo declama cordel - Gabriel Cabral/Folhapress

Paraibano de João Pessoa, o poeta lembra quando ouvia cordéis ainda menino, nas feiras da cidade. “Os vendedores ficavam recitando as estrofes e, quando chegavam na hora H, eles paravam. Para que as pessoas comprassem para ler o final das histórias. Isso me marcou muito”, conta ele, em seu apartamento nos Campos Elíseos, região central de São Paulo.

Ali, entre os milhares de itens de seu acervo, Ângelo vive em escuridão total e solitária há sete anos. Ele teve deslocamento de retina e perdeu completamente a visão dos dois olhos.

“Não teve pancada nem acidente. Eu estava apresentando um projeto no Rio de Janeiro. Estava no palco lendo um folheto sobre Luiz Gonzaga. No meio, passei a entender menos, parecia que tinham formigas andando nos meus olhos. Quando terminou, comecei a chorar. Estava cego.”

O poeta se consultou com diversos especialistas, fez “sete, oito, nove” cirurgias no Hospital das Clínicas, mas nada foi recuperado. “Dias depois, minha mulher me abandonou”, conta ele.

Ângelo começou a carreira de jornalista ainda na Paraíba, mas desde 1976 está radicado em São Paulo, onde trabalhou como repórter nesta Folha (escreveu na Ilustrada e no Folhetim), no Diário Popular e foi chefe de reportagem política no Estado de S. Paulo. Passou ainda pela rádio Jovem Pan e pelas TVs Globo e Cultura.

Pode-se dizer que São Paulo entrou em seu sangue. Um de seus estudos mais interessantes, fruto de 23 anos de trabalho, foi o “Roteiro Musical da Cidade de São Paulo”. A pesquisa, que resultou numa exposição no Sesc em 2012, reunia 3.000 canções que citam São Paulo ou seus bairros na letra, além de documentos, áudios, partituras, fotografias, matérias de jornais e depoimentos, letras e canções.

Falando em pesquisa, ele gostaria que alguma instituição séria se interessasse por sua coleção. São itens como discos, fitas, jornais etc. sobre a cultura popular brasileira. "Seria ótimo se isso fosse catalogado, digitalizado e ficasse à disposição do público.” Parte desse acervo está no site do Instituto Memória Brasil, que o jornalista mantém.

De olhos fechados, Assis posa na frente de prateleiras repletas de papéis e discos
O jornalista Assis Ângelo em meio a seu acervo de cultura popular brasileira - Gabriel Cabral/Folhapress

Além disso, escreve diariamente em seu blog (assisangelo.blogspot.com), com a ajuda de um jornalista recém-formado e de uma estudante de artes plásticas. Ângelo dita os textos por telefone. Volta e meia, recebe a visita de suas filhas.

Com uma memória prodigiosa, ela lamenta não encontrar trabalho após o problema de visão. “Eu fiquei cego, mas são os outros que não me veem. Virei um ser invisível”, diz.

Escuta dois ou três audiolivros por mês, coisas como Guimarães Rosa e Camões (do qual diz saber recitar decorado metade d’“Os Lusíadas”) e Monteiro Lobato (de quem ouvia Jeca Tatu no dia desta entrevista).

“Difícil mesmo é lutar contra a solidão e a depressão”, conta Assis Ângelo, que sonha transformar em realidade a ideia de um programa para cegos, apresentado por um cego. “Será que não interessaria à TV Cultura?”

Cordéis de Assis Ângelo

  • Onde pelo email eduribeiro@jornalistasecia.com.br
  • Preço R$ 12,50 (de 12 a 20 págs.)
  • Editora Rouxinol do Rinaré

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