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Estudos sobre Clarice se multiplicam na academia e ultrapassam a literatura

Trabalhos mais recentes abordam suas cartas, entrevistas, páginas femininas e relação com as artes visuais

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Teresa Montero

Doutora em letras pela PUC-Rio, é autora de "Eu Sou uma Pergunta: Uma Biografia de Clarice Lispector (que ganha edição ampliada pela Rocco em 2021) e "O Rio de Clarice - Passeio Afetivo pela Cidade" (Autêntica)

São Paulo

O valor da obra de Clarice Lispector e seu traço de genialidade não são suficientes para explicar por que o Brasil a cultua apaixonadamente.

Nas últimas décadas, os estudos claricianos se configuraram em várias correntes teóricas: a fenomenológica vinculada ao romance filosófico, a estruturalista, a dos estudos de gênero, a pós-estruturalista e a judaica. As duas primeiras alcançaram uma projeção expressiva entre os anos 1950 e 1970.

Identificada como uma narrativa que desenvolveu as múltiplas possibilidades da expressão literária, sua obra foi analisada como uma visão de mundo singular marcada pela temática da existência. Alguns estudos de fôlego que se tornaram referência nesse período são de autoria de Benedito Nunes e Olga de Sá.

Clarice em seu ambiente de trabalho, nos anos 1970. A imagem está no livro 'Clarice Fotobiografia', organizado por Nádia Battella Gotlib para a Edusp - Acervo Paulo Gurgel Valente

Para entender a diversidade dessa recepção, considero a tese de Siegfried Schmidt em sua “Ciência da Literatura Empírica”, que mostra o caráter construtivo da atividade crítica na recepção de uma obra literária —os comprometimentos pessoais, institucionais e sociais que determinam a escolha por certas correntes teóricas. O mesmo pode ser estendido a outros agentes desse sistema como professores, editores, leitores, biógrafos, agentes e arquivos literários.

A emergência de novas subjetividades e identidades, com suas respectivas visões alternativas de mundo, instaurou um novo paradigma, o do feminino, que se estabeleceu nos anos 1980 e 1990 e consolidou os estudos de gênero nas universidades, tornando a obra de Clarice uma referência.

É o que vimos na França, quando a Éditions des Femmes, berço do Mouvement de Libération des Femmes (MLF, movimento de liberação das mulheres), passou a traduzir a obra de Lispector a partir de 1978, e no Brasil, com a formação do “GT Mulher e Literatura” e a criação da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística, em 1984.

Os Women's Studies incrementaram a fortuna crítica clariciana nos Estados Unidos; o mesmo se deu na Argentina, líder nas traduções nos anos 1970.

A obra de Lispector contribuiu para a ampliação dos estudos de literatura brasileira no exterior e para o mercado de tradução, com o auxílio do Programa de Apoio à Tradução e Publicação de Autores Brasileiros da Biblioteca Nacional, desde 1991.

A atual internacionalização de sua obra na Europa, Estados Unidos e na América Latina comprova a importância do diálogo entre editoras, agente literário, universidades e agências de fomento.

Os estudos sobre memória, autobiografia e biografia nos cursos de pós-graduação, a partir dos anos 1990, despertaram o interesse pelos arquivos literários que ajudaram a reescrever a história da literatura brasileira —na qual as escritoras e, em particular, Lispector tornaram-se protagonistas.

Pude vivenciar isso de perto quando fiz minha dissertação de mestrado na PUC-Rio, de 1992 a 1995, sob a orientação de Rosiska Darcy de Oliveira, “Eu Sou uma Pergunta. Uma Biografia de Clarice Lispector”, publicada pela Rocco em 1999.

A valorização dos guardiões dos arquivos de Lispector, o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, da Fundação Casa de Rui Barbosa, e o Instituto Moreira Salles, atestam isso.

Nos últimos anos, os estudos apontam uma diversidade de molduras teóricas, entre elas o foco na produção não ficcional (crônicas, entrevistas, páginas femininas), na ficção tardia (como “Água Viva”), na relação com as artes visuais, na biografia, na correspondência, na faceta de tradutora, nos estudos filológicos de seus originais e na biopolítica.

Seu legado ultrapassa a fronteira da literatura. Tem inspirado iniciativas como o Centro de Referência Clarice Lispector, em Recife, onde mulheres em situação de violência doméstica e/ou sexista são acolhidas.

É uma justa homenagem para ela, que declarou que gostaria de ter sido uma lutadora e um dia escreveu em uma crônica que cada ser humano recebe a “Anunciação”, como Maria —uma alusão ao quadro de Savelli pendurado na parede de sua sala: “A missão não é leve: cada homem é responsável pelo mundo inteiro”.

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