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Kanye West nunca soou tão chato como em 'Donda', seu novo disco

Rapper americano abusa da vitimização no álbum, repleto de polêmicas antes mesmo do lançamento

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Donda

  • Quando Disponível
  • Onde Plataformas difitais
  • Autor Kanye West
  • Gravadora Universal

Acompanhar a carreira de Kanye West é uma tarefa que demanda dedicação integral. São tantas suas atividades extramusicais —o casamento e divórcio da celebridade Kim Kardashian, o apoio a Trump, a patética iniciativa de concorrer à Presidência dos Estados Unidos, as incontáveis e claramente orquestradas polêmicas com gravadoras e outros rappers— que pouco se discute o que deveria interessar mais, suas rimas, suas batidas ou sua música.

Aos 44 anos, West acaba de lançar “Donda”, seu décimo álbum de estúdio. O disco foi cercado pelas fanfarronices sensacionalistas habituais. Teve sua data de lançamento adiada inúmeras vezes; informações sobre o álbum, como a lista de colaboradores e a arte de capa, foram divulgadas a conta-gotas e muitas vezes eram negadas momentos depois de viralizarem, o que garantia ainda mais visualizações.

Kanye West fez desse mundo da pós-verdade seu habitat. Ele domina, como poucos, a técnica de criar factoides sobre si mesmo. Entende o poder de uma mentira bem contada, de um boato que vai repercutir, de uma polêmica inventada.

Para lançar “Donda” —nome de sua mãe, morta em 2007 por complicações depois de uma cirurgia estética para redução de seios—, o rapper promoveu três festas de audição em estádios de Atlanta e Chicago, onde fãs pagaram de US$ 100 a 300, ou entre R$ 515 e R$ 1.545, pelo direito de ouvir um playback do álbum. No total, cerca de 120 mil pessoas pagaram.

Um pouco antes, West havia se metido numa briga de comadres com Drake, trocando farpas por redes sociais com o rapper canadense —que, por uma notável coincidência, tem um álbum para sair em poucos dias.

homem negro com sorriso tímido
O rapper Kanye West em 6 de novembro de 2019, em Nova York - Angela Weiss/AFP

Para finalizar, West acusou a gravadora Universal de ter lançado “Donda” nas plataformas de streaming sem a sua aprovação. Ninguém acreditou, é claro, mas a Universal fez questão de negar a acusação mesmo assim.

Com tanto hype, “Donda” teve bons números de audições nos primeiros dias, chegando ao topo em plataformas como Spotify e Apple Music.

A questão agora é outra. Dissipada a nuvem de fofocas e falsas polêmicas, será que “Donda” vai sobreviver? Daqui a alguns meses, quantos fãs de Kanye West continuarão interessados no álbum? Como “Donda” será avaliado em comparação com discos marcantes do rapper, como “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”, de 2010, e “Yeezus”, de 2013?

Não vai ser fácil. À primeira audição, “Donda” parece um disco prolixo e irregular. Com 27 faixas distribuídas em longos 108 minutos —quase o dobro da duração média de outros discos de West—, tem bons momentos, mas perdidos em um oceano de sons monótonos e repetitivos.

Apesar de o álbum do rapper levar o nome da mãe, os temas principais de “Donda” são outros —Deus e Kanye West. Não necessariamente nessa ordem. A quase ausência de batidas e o total abandono do humor autodepreciativo e irônico de outros discos tornam “Donda” um álbum gospel um tanto sombrio, desanimado e sem pulso. Kanye West nunca soou tão chato.

Um exemplo gritante é “Jail”, que começa com um animado riff de guitarra e tem participação do amigo Jay-Z —a música promete grandes emoções, com um início bombástico, mas termina de repente, sem clímax.

A sequência, “God Breathed”, também começa promissora, para logo cair numa modorrenta sonoridade ambiente. Há exceções, como “Believe What I Say”, que sampleia a animada “Doo Wop (That Thing)”, de Laurin Hyll, e é dos raros momentos de brilho e animação no álbum todo.

Em alguns momentos, West abusa da vitimização e do “coitadismo”. Versos como “Tudo de bom que você faz ninguém percebe”, de “Jesus Lord”, ou “Uma mansão de US$ 60 milhões sem nunca me sentir em casa”, de "Hurricane”, soam como lamentações autoindulgentes de um bilionário completamente fora da realidade.

Nem quando ostenta Kanye West soa divertido. Outra prova da prolixidade de “Donda” é que termina com quatro versões de músicas que já estão no próprio disco —“Jail Pt. 2”, “Ok Ok Pt. 2”, “Junya Pt. 2” e “Jesus Lord Pt. 2”.

Enfim, “Donda” é um disco decepcionante de um artista que, mesmo surfando em seu próprio hype e sensacionalismo, sempre entregou trabalhos inspirados. Se vai sobreviver ao teste do tempo, ninguém sabe.

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