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'A Casa Amarela', estreia de Sarah Broom, entrega bem mais que promete

Além de história real de família devastada pelo furacão Katrina, livro tece memórias deliciosas de infância

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João Batista Natali

Jornalista, mestre e doutor em semiologia pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e pela Universidade de Paris-Nanterre.

A Casa Amarela

  • Preço R$ 69,90 (388 págs.)
  • Autor Sarah M. Broom
  • Editora Somos Livros
  • Tradução Fernanda Lizardo

Quando o livro de um estreante consegue a unanimidade crítica, ou ele reúne grandes méritos ou, então, entrou na corrente dos temas e enfoques consagrados pela moda.

Mas em se tratando de Sarah Broom, americana de Nova Orleans, ela não precisa cuidar de sua boa reputação literária. "A Casa Amarela", seu primeiro livro publicado em 2019, é bem mais que um novo caso no subgênero de história familiar. São 385 páginas de uma narrativa riquíssima e precisa, que desce borbulhante pela garganta do leitor.

De certo modo, Broom —que levou o National Book Award por obra de não ficção— entrega bem mais que o prometido, até por seus editores. Ela não é apenas a 12ª criança de uma família negra da baixa classe média do sul dos Estados Unidos, cuja casa está entre as quase 2.000 destruídas pelo furacão Katrina em 2005.

capa de livro
Ilustração da capa do livro 'A Casa Amarela', de Sarah M. Broom, publicado pela editora Somos Livros - Reprodução

Seria o desdobramento meramente jornalístico de uma tragédia que deixou 1.836 mortos nos estados americanos de Louisiana e Mississippi. A exemplo do que aconteceu com o furacão Betsy em 1965, os mortos, em sua maioria, tinham cor e classe social.

Regiões mais pobres, abaixo do nível do mar, pagaram o preço da maior devastação, sobretudo porque autoridades dinamitavam os diques para, ao que tudo indica, as águas não afetarem de maneira tão desastrosa os bairros mais abastados.

Com o Katrina, foi um deus nos acuda. A água subiu rapidamente e afogou idosos em asilos e condenados em suas celas de penitenciária. Quanto maiores as famílias, maior era a dispersão e mais demorado o reencontro com os pais e irmãos.

​Sarah Broom perdeu a avó materna, semanas após a tragédia. A velha mulher chegou a ser transportada para o estado do Texas, mas morreu em seguida de fraqueza.

A escritora estava na época morando em Nova York, em companhia de uma das irmãs. Ela tomou um avião rumo a Nova Orleans e chegou a tempo de visitar a antiga residência da família, a casa amarela que dá nome ao livro, destroçada em dois enormes blocos e que se tornara a sepultura para cadernos e fotografias que poderiam um dia reconstituir o histórico da vida em comum.

O que sobrou foi demolido pela prefeitura, e o livro descreve um dos irmãos de Broom, que ocupa sentimentalmente o espaço vazio com a dor da saudade.

Mas tudo isso é, paradoxalmente, bem menor na hierarquia de assuntos escolhidos por Sarah Monique Broom. O grande furacão merece oito dos 32 capítulos.

Ela entrega, por exemplo, uma etnografia deliciosa de sua própria infância. Se ela se atirava ao chão do supermercado para que comprassem determinado produto para ela, "esse comportamento público fazia de mim a candidata ideal para surras regularmente programadas, entregues pela chibata nas mãos macias de mamãe".

Há muito também a contar sobre a segregação racial. Há o caso vergonhoso dos professores que se rebelaram quando os negros puderam frequentar escolas até então reservadas para os brancos. Um dos irmãos de Broom, brilhante em matemática, passou a receber nota zero em troca da entrega de exercícios impecáveis. Injustiçado, ele parou de estudar.

Mas tais episódios não são relatados com a merecida indignação, de modo a abastecer o arsenal de revolta contra o velho racismo dominante. A sociedade que Broom descreve é, ao contrário, aquela em que até as relações inter-raciais caminham à procura de algum equilíbrio.

O pai dela foi zelador de um laboratório da Nasa que produziu o primeiro estágio dos foguetes Saturno, aqueles usados pelo programa Apollo. Era um subalterno, diante dos técnicos e cientistas brancos.

Nem por isso, na família Broom, deixava de prevalecer a boa alimentação, a vaidade ao se vestir e o culto a pequenos valores estéticos —nos móveis, nas cortinas, nos carros— que negros e brancos aprenderam mais ou menos a compartilhar dentro da mesma cultura americana.

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