Importadores elevam compras de soja barata dos EUA enquanto China deixa de negociar

Soja brasileira está sendo vendida com um prêmio de até US$ 1,50 por bushel

Produção de soja em Buda, Illinois, nos Estados Unidos
Produção de soja em Buda, Illinois, nos Estados Unidos - Daniel Acker/Reuters
Chicago

As tarifas retaliatórias da China sobre a soja americana, ameaçadas há semanas e decretadas na sexta-feira (6), derrubaram os preços e provocaram uma onda de compras de barganha por importadores de outros países, segundo análise da Reuters com base em dados oficiais.

Os compradores chineses até agora responderam por apenas 17% de todas as compras antecipadas da safra de soja americana deste ano --uma queda ante os 60% de média na última década, segundo a análise.

Em contrapartida, a soja brasileira está sendo vendida com um prêmio de até US$ 1,50 por bushel, já que contratos futuros de soja nos EUA caíram 17% em seis semanas, para US$ 8,50, nível mais baixo em quase uma década.

A diferença de preço provocou uma corrida pela soja dos EUA por importadores desde o México, passando pelo Paquistão, até a Tailândia, de acordo com a análise dos dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Mesmo com a China recuando, as compras antecipadas realizadas por todos os importadores da próxima safra de soja dos EUA subiram 27% até junho, em 8 milhões de toneladas, em comparação com o mesmo período do ano passado, mostrou a análise.

As compras são o exemplo mais recente de como a política está afetando bilhões de dólares em fluxos globais de comércio à medida que o presidente dos EUA, Donald Trump, trava uma guerra comercial com a China.

Pequim impôs tarifas sobre US$ 34 bilhões em produtos norte-americanos na sexta-feira, de soja e algodão a automóveis e aviões, em retaliação às tarifas dos EUA promulgadas no mesmo dia sobre mercadorias chinesas de igual valor.

O declínio das compras de soja norte-americana pela China e o movimento de outros países para adquirir o produto dos EUA em seu lugar evidenciam uma aposta coletiva contra qualquer resolução rápida da escalada da guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo.

Até mesmo o Brasil, maior exportador global de soja, está se preparando para grandes compras de soja norte-americana para alimentar seus processadores domésticos, uma vez que envia uma maior produção para a China a preços elevados, segundo a associação de exportadores Anec.

O Brasil pode importar até 1 milhão de toneladas de soja dos EUA, com as compras aumentando em outubro, disse o assistente executivo da Anec, Lucas Trindade.

As esmagadoras brasileiras de soja, que transformam a colheita em óleo de cozinha e ração animal, normalmente não precisam de soja nos EUA. Mas logo pode ser mais barato importar grãos cultivados a milhares de quilômetros de distância no Meio-Oeste dos EUA do que comprar a produção local.

"Parece irracional, mas existe a possibilidade de os preços em Chicago (futuros) se aproximarem dos 8 dólares (o bushel)", disse Alessandro Reis, diretor de originação e logística da CJ Selecta, uma processadora e comercializadora de soja no Brasil.

Os comerciantes de grãos que dominam os mercados de soja —incluindo a Archer Daniels Midland (ADM), a Bunge e a Cargill— estão trabalhando para minimizar o impacto da queda repentina na demanda chinesa, desviando cargas para outros lugares.

Bunge e ADM recusaram-se a comentar. A Cargill não respondeu aos pedidos de comentários.
 

Reuters
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