Banco Central mantém taxa de juros em 6,5% ao ano

Essa deve ser a última reunião do Copom com Ilan Goldfajn na presidência do BC

Anaïs Fernandes
São Paulo

O Copom (Comitê de Política Monetária) manteve, nesta quarta-feira (6), a Selic (taxa básica de juros) na mínima histórica de 6,5% ao ano e, segundo economistas, não ofereceu indícios que sustentem novos cortes.

Definida por unanimidade, a sétima manutenção consecutiva da taxa era esperada por todos os 40 analistas ouvidos pela Bloomberg.

O comitê argumentou que indicadores recentes da atividade continuam evidenciando recuperação gradual da economia brasileira. Dados mais fortes podem levar o BC a subir juros se houver receio de pressão inflacionária.

Em comunicado, o Copom disse ainda que o cenário externo permanece desafiador, com mais riscos de uma desaceleração da economia global em razão de incertezas como disputas comerciais e o 'brexit'.

Mas destacou arrefecimento de "riscos de curto prazo associados à normalização das taxas de juros em algumas economias avançadas", em referência à recente sinalização do banco central americano de que vai pausar seu aperto monetário.

Juros altos nos EUA atraem para aquele país capital até então alocado em emergentes, levando a desvalorização de suas moedas ante o dólar e potencial alta da inflação.

No Brasil, o quadro inflacionário é benigno. O IPCA fechou 2018 em 3,75%, abaixo da meta do governo de 4,5%. "O comitê avalia que diversas medidas de inflação subjacente se encontram em níveis apropriados ou confortáveis."

Em 2019, a meta é de 4,25%, mas economistas têm reduzido suas estimativas. Em um mês, as projeções do Boletim Focus, do BC, passaram de 4% para 3,9%.

Como fatores de risco que levariam à queda da inflação, o colegiado voltou a listar a ociosidade elevada da economia.

O mercado se desanimou com alguns indicadores econômicos recentes do país, como o resultado da indústria. Apesar de o setor ter crescido 1,1% em 2018, perdeu fôlego ao longo do ano e desacelerou em relação a 2017, quando avançou 2,5%. A taxa de desemprego também ficou estável no ano passado, e 12,1 milhões de brasileiros terminaram 2018 sem trabalho.

Na ponta que puxaria a inflação, o comunicado cita "frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas e ajustes necessários na economia brasileira". O colegiado enfatizou, mais uma vez, que esses elementos são essenciais "para a manutenção da inflação baixa no médio e longo prazos, para a queda da taxa de juros estrutural e para a recuperação sustentável da economia."

Os riscos de um cenário sem reforma poderiam ser intensificados se houver deterioração do quadro externo para economias emergentes, acrescentou o BC. Mas o comitê ressaltou novamente que, "quanto ao cenário externo, houve arrefecimento dos riscos inflacionários."

Como na reunião anterior, de dezembro, o comitê se absteve de dar indicações sobre seus próximos passos, destacando que eles continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação.

Apesar disso, economistas avaliaram que há indícios no comunicado apontando, a princípio, para a manutenção da Selic em 6,5% até o fim de 2019. No mercado, alguns nomes viam chance de mais um corte nos juros, se a retomada da economia não ganhar fôlego ou, por exemplo, se a reforma da Previdência não for aprovada.

"Foi um comunicado bem neutro de quem de fato quer passar o bastão para seu sucessor sem fazer muito barulho. Não há nada que sugira que o comitê está pensando em cortar os juros. Para isso se concretizar, teria de haver queda significativa nas expectativas de inflação e crescimento, o que ainda está distante nas projeções de mercado", diz o economista do Santander Luciano Sobral.

José Pena, economista-chefe da Porto Seguro Investimentos, destaca que o BC reforçou a ideia de que o balanço de risco ainda pesa mais para uma alta na inflação. "Os fatores apresentados não são novos, mas o comunicado reforçou o ponto de que, na avaliação do comitê, uma frustração com reformas e a piora do cenário externo têm um peso maior sobre a inflação do que a continuidade da atividade fraca", diz.

Converge para essa leitura trecho em que o ​Copom cita "cautela, serenidade e perseverança nas decisões de política monetária, inclusive diante de cenários voláteis".

Para este ano, o comitê manteve estimativa do IPCA de 3,9%, considerando projeções do Focus para câmbio e juros. Em relação a 2020, porém, houve ligeira alta, de 3,6% para 3,8%. "O modelo indica que segurar os juros neste ano afetaria a inflação em 2020. Ainda dentro da meta, mas com folga menor", diz Pena.

A próxima reunião do Copom será em 19 e 20 de março, e a expectativa do mercado é que Roberto Campos Neto já tenha assumido a presidência do BC.

"Vamos começar a ver de fato o jogo deste ano, na conta do novo governo. Não dava para cobrar grande movimentação em relação à reforma da Previdência, por exemplo, para esta reunião. Na próxima, o mercado vai considerar isso e também analisar o perfil do novo presidente do Banco Central, sua maneira de se comunicar", avalia Patrícia Pereira, estrategista da Mongeral Aegon Investimentos.

O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, em Brasília
O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, em Brasília - REUTERS
Erramos: o texto foi alterado

Versão inicial do texto afirmava que analistas viam possibilidade de corte na Selic caso a reforma da Previdência não fosse aprovada. O correto é possibilidade de alta na taxa básica de juros caso a reforma não passe. O texto foi atualizado e, por isso, o trecho foi suprimido.

 

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