Descrição de chapéu

Papa Francisco prioriza misericórdia divina, e não castigo eterno

Segundo jornalista, pontífice disse que não existe inferno, só desaparecimento de pecadores

Com batina branca, o papa Francisco levanta a bíblia com capa dourada e com pedras preciosas cravejadas durante a Missa dos Santos Óleos, no Vaticano; ao fundo, candelabros de prata
O papa Francisco lidera a missa da Crisma nesta quinta-feira (29), cerimônia na qual os óleos sagrados são benzidos na Basílica de São Pedro, no Vaticano - Stefano Rellandini/Reuters
Reinaldo José Lopes
São Carlos

O jornalista e escritor italiano Eugenio Scalfari, 93, fundador do jornal La Repubblica, deixou muitos católicos perplexos ao publicar um novo relato de suas conversas com o papa Francisco nesta quinta-feira (29).

Entre outras coisas, o pontífice teria afirmado: "Não existe um inferno em que sofrem as almas dos pecadores por toda a eternidade. Aqueles que não se arrependem e portanto não podem ser perdoados desaparecem.".

É a quinta vez que Scalfari, ligado politicamente à esquerda italiana e ateu, encontra-se a sós com o argentino e escreve a respeito. Francisco também já mandou uma carta longa e cordial ao La Repubblica, respondendo a uma série de perguntas sobre fé e descrença.

Uma frase dessa missiva ficou famosa: segundo o papa, a misericórdia de Deus não teria limites, incluindo até as pessoas que não creem nele, as quais deveriam seguir sua consciência para discernir o bem e o mal.

"Acontece o pecado, mesmo para aqueles que não têm fé, quando se vai contra a consciência", escreveu ele na carta de setembro de 2013, primeiro ano de seu pontificado.

Scalfari, porém, tem o hábito de não gravar as conversas e tampouco anota na hora o que o papa diz. Prefere "reconstruir" o conteúdo das falas de memória.

Por isso, a assessoria de imprensa do Vaticano já frisou diversas vezes que os textos do escritor não podiam ser tomados como transcrições fidedignas de declarações de Francisco.

O alerta se repetiu após a divulgação do suposto teor da conversa mais recente. O porta-voz da Santa Sé, Greg Burke, afirmou em comunicado que as aspas saíram de um "um encontro privado, não [de] uma entrevista".

CASTIGOS

Ainda de acordo com Scalfari, que perguntou quais eram as punições reservadas aos condenados por Deus e onde eles eram castigados, o papa teria respondido:

"Eles não são punidos. Aqueles que se arrependem obtêm o perdão de Deus e se juntam às almas que o contemplam, mas aqueles que não se arrependem e, portanto, não podem ser perdoados, desaparecem".

O jornalista relata também reflexões de Francisco sobre o papel criador de Deus, que teria dado vida a um universo dinâmico e em constante evolução, e sua preocupação com "o continente agitado e atormentado da África". Para o pontífice, assenta-se ali um dos grandes centros da fé cristã na época atual.

A crença no Inferno é um ponto importante da doutrina católica sobre o destino do ser humano após a morte.

Antonio Socci, escritor e diretor de televisão que é um dos críticos mais severos do papado de Francisco na Itália, declarou em sua página numa rede social que o pontífice estava "sustentando teses heréticas" e que não conseguia entender como o argentino ainda estava à frente da Igreja.

MISERICÓRDIA

A crença numa punição para os pecadores que não se arrependem é parte importante da doutrina do catolicismo.

A versão mais recente do Catecismo da Igreja Católica, compêndio doutrinal publicado durante o papado de João Paulo 2º (1920-2005), afirma que, se alguém morre recusando o arrependimento e sem desejar "o amor misericordioso" de Deus, fica separado dele por opção própria.

"É esse estado de autoexclusão definitiva da comunhão com Deus que se designa Inferno", diz o texto.

É a pregação de Jesus em viagens por Galileia e Judeia que embasa essa crença, afirma o Catecismo. De fato, frases de Cristo nos Evangelhos citam a Geena, lugar de punição para perversos, bem como o "fogo que não se apaga".

A atual doutrina católica, entretanto, não enfatiza os aspectos físicos do Inferno, mas sim a separação definitiva de Deus e dos "salvos" como a verdadeira punição.

Faz sentido imaginar que Francisco rejeitaria totalmente essa tradição? Provavelmente não. Enfatizar a misericórdia de Deus, no entanto, encaixa-se mais nas pregações do papa.

De qualquer modo, há grupos cristãos que defendem aniquilacionismo (a ideia de que Deus não punirá os pecadores impenitentes, só os destruirá no Juízo Final), mas essa é uma posição teológica minoritária.

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