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Brasileiro usa recursos próprios para ajudar orquestra de músicos venezuelanos

Flautista James Strauss criou, em Caracas, orquestra bancada por concertos que faz no exterior

Cris Veronez
Rio de Janeiro

Flautista e concertista internacional, o pernambucano James Strauss, 44, já morou na França, na Finlândia, no Equador e na Venezuela. Este último país, onde vive desde 2016, se tornou o seu maior afeto.

“Simplesmente me apaixonei por aquela gente e pelo amor que eles têm pela música. É um povo muito bom”, afirma Strauss.

No país liderado pelo ditador Nicolás Maduro, o flautista reuniu o que garante serem os melhores músicos do mundo e montou a orquestra Camerata Simón Bolívar, que sustenta com recursos próprios.

Strauss paga a cada músico entre US$ 20 e US$ 30 mensais (entre R$ 78 e R$ 118). 

O flautista James Strauss, em gravação com músicos venezuelanos - Roxanna Bastidas/Divulgação

A Camerata conta com 50 músicos, escolhidos a dedo entre os jovens da Fundação do Estado para o Sistema Nacional das Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela.

Essa fundação paga apenas cerca de US$ 6 mensais (R$ 24) aos músicos das orquestras por ela geridas —dinheiro que não compra, conta ele, dois frangos de padaria na Venezuela.

“Para nós, pode parecer pouco a quantia que eu pago aos músicos, mas em comparação ao que eles ganham pelo trabalho que fazem na fundação, é um dinheiro que ajuda muito”, afirma Strauss.

As despesas pessoais do flautista e de sua orquestra são cobertas com o dinheiro que ele ganha fazendo concertos remunerados em outros países. Suas próximas apresentações serão realizadas na Áustria, na Colômbia, no Equador, na Itália e na Finlândia. 

“Passo de um a dois meses trabalhando fora para bancar o dobro do período na Venezuela”, diz.

O violinista venezuelano Jesús Guzmán, 22, spalla da Camerata Simón Bolívar —primeiro violino da orquestra, que se senta na primeira cadeira à esquerda do maestro—, disse que a crise econômica fez com que os salários de todos os trabalhadores ficassem quase nulos por causa da inflação.

“O projeto com Strauss nos ajudou economicamente. Não que ganhemos altas somas de dinheiro, mas toda ajuda é sempre útil”, disse Guzmán.

O spalla usa o dinheiro recebido na camerata para comprar comida. Ele também toca em eventos de entretenimento e participa de outros grupos musicais para complementar a renda.

Até o fim do ano, o pernambucano lançará, com a camerata, o disco “James Strauss plays Glass” (nome provisório), em que tocarão arranjos inéditos do compositor Philip Glass, 82, dos EUA.

Considerado pela crítica americana um dos expoentes da música de concerto no país, Glass é nome central do minimalismo. Ele se apresentou no Brasil em setembro de 2017.

O objetivo da empreitada, diz Strauss, é tornar a camerata conhecida para que possa dar concertos mundo afora e tornar o projeto mais viável.

Richard Guérin, representante de Philip Glass, elogiou a iniciativa de Strauss. “É um gesto de humanidade em meio ao caos. Nós nos sentimos bastante motivados com o projeto.”

Para pagar as gravações, engenheiros de som, estúdio e o que mais fosse necessário para a realização deste disco, Strauss vendeu instrumentos que herdou do pai, o violinista Tadeu Martins, membro da Orquestra Sinfônica de Olinda, que morreu em 2011. Ao todo, ele investiu US$ 4.500 (R$ 17,9 mil) no projeto.

O flautista conta que tentou ajuda financeira para o lançamento do disco no Brasil, mas não conseguiu. 
Segundo o maestro titular e diretor artístico da Camerata Florianópolis, Jeferson Della Rocca, um dos contatados por Strauss, a dificuldade das orquestras brasileiras está em obter patrocínio para financiar concertos, tanto localmente quanto por recursos federais.

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