Descrição de chapéu Financial Times

Chamar Boris Johnson de palhaço é injusto com os palhaços

A palavra é frequentemente usada como insulto; na verdade, é um elogio que ele não merece

Alan Beattie
Londres | Financial Times

Você não precisa ler muitos perfis de Boris Johnson para perceber um determinado epíteto recorrente. As pessoas têm muitas e variadas opiniões sobre o próximo primeiro-ministro do Reino Unido. Mas quase todo mundo, ao que parece, pensa que ele é um palhaço.

É fácil perceber por quê. A aparência excêntrica, pelo menos segundo os padrões dos políticos: descabelado, roupas mal cuidadas, gestos exagerados —braços giratórios, mãos nervosas. Os recursos extravagantes: agitando uma truta defumada num comício para ilustrar uma afirmação (completamente falsa) sobre a pesca britânica e o Brexit. Johnson tem um talento para o teatro cômico acima e além da inteligência verbal típica do humor político britânico.

No entanto, embora o termo "palhaço" seja frequentemente usado como insulto, na verdade é um elogio que Johnson não merece. O ofício dos "clowns" é uma forma de arte nobre, animada por um espírito de que ele não comunga.

Boris Johnson, favorito ao cargo de premiê do Reino Unido
Boris Johnson, favorito ao cargo de premiê do Reino Unido - Henry Nicholls/Reuters

A comunidade britânica de palhaços profissionais está fervendo de indignação pelo fato de sua atividade estar sendo humilhada por associação. Certamente, os palhaços usam técnicas como movimentos exagerados e roupas incoerentes, derivadas de tradições europeias seculares de teatro físico indisciplinado.

Mas a verdadeira arte do clown é mais que uma palhaçada. Jack Stark, um palhaço britânico conhecido no circuito de teatro e cabaré, diz: "Palhaços podem ser desajeitados e propensos a gafes, e vivem num mundo caótico. Mas como eles reagem a esse mundo é diferente. Os palhaços querem melhorar as coisas. Boris usa seu número para se livrar dos problemas criados por ele próprio". 

O teatro moderno dos clowns, desenvolvido pelo mestre francês Philippe Gaulier a partir dos anos 1960, diz que os palhaços são essencialmente crianças brincando. Eles abraçam seus próprios fracassos, erros e mal-entendidos. Eles pretendem evocar empatia: seus percalços representam os percalços de todos. O público geralmente é incluído em suas brincadeiras, em vez de ser ridicularizado ou enganado.

John Wright, que estudou com Gaulier, teoriza que, ao contrário de muitos atores, os palhaços "declaram o jogo". Eles seguram uma batata e insistem que é uma maçã. Mas eles piscam para o público, e todos entram na brincadeira.

Os políticos, em contraste, costumam usar a bufonaria para enganar o público. Ocasionalmente, o número se torna óbvio. A fala de Johnson foi claramente revelada em uma famosa entrevista à BBC em 2013, quando o apresentador Eddie Mair perseguiu implacavelmente sua desonestidade no passado. Johnson se irritou e confundiu. Um verdadeiro palhaço teria admitido e se alegrado com suas falhas.

Com certeza, palhaços e política podem se misturar. A arte do clown é frequentemente usada em manifestações públicas. Stark conta que quando ele e um grupo de outros palhaços se reuniram em uma rua de Londres para celebrar sua profissão rapidamente atraíram a atenção da polícia, que pressupôs que um bando de palhaços em público devia estar protestando contra alguma coisa. Charlie Chaplin, o maior palhaço de todos, fez uma crítica ao capitalismo industrial em seu clássico filme da era da Depressão, "Tempos Modernos".

Mas a política dos palhaços é geralmente subversiva e satírica, e não controladora e enganadora. Os políticos têm agendas: os palhaços, não.

Então, se Johnson não é um palhaço, o que é ele? Um fato narrado recentemente pelo apresentador Jeremy Vine faz a revelação. Vine descreveu Johnson fazendo um discurso extremamente divertido depois de um jantar numa convenção setorial, chegando ao último momento com quase nenhuma preparação visível e tropeçando em uma palestra desordenada que, no entanto, trouxe a casa abaixo. 

Vine ficou impressionado com a capacidade de Johnson de improvisar, até que ele viu exatamente o mesmo ato —o mesmo atraso, a mesma improvisação simulada, a mesma dificuldade verbal—  em outro jantar, 18 meses depois. 

Muitos artistas reconhecerão isso não como palhaçadas, mas como comédia stand-up, em que os jogos verbais e os tiques físicos que acompanham parecem espontâneos, mas são bem ensaiados. Oliver Double, um ex-comediante que hoje ensina teatro na Universidade de Kent, diz que Johnson desenvolveu cuidadosamente uma personagem completa, assim como faria um humorista stand-up, com o hábito performático de constantemente desgrenhar os cabelos. Mas em vez de usá-lo simplesmente para provocar risos ele o emprega para promover sua carreira. 

É possível que essa afetação seja denunciada por um maior escrutínio. Em uma entrevista na TV na semana passada a Andrew Neil, Johnson parecia em pânico, mal-humorado e fora de prumo, enquanto sua persona carismática não conseguia escapar de um anfitrião inabalável.

Ele recentemente cortou o cabelo e emagreceu, talvez querendo moderar sua aparência cômica. Seja qual for o modo como Johnson faz seu número, porém, ele não tem em si um verdadeiro palhaço. Chame-o de cômico, chame-o de "showman", chame-o de bufão. Mas, por favor, não dê a Johnson o privilégio de ser chamado de palhaço.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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