Entenda os protestos na Belarus e quais os possíveis resultados

Protestos contra o ditador Alexandr Lukachenko, brutalmente reprimidos no começo, chegam neste domingo (23) ao 15º dia; relatos de tortura se ampliam

Bruxelas

Desde a eleição presidencial de 9 de agosto, considerada fraudada, milhares de bielorrussos saem às ruas diariamente para pedir novas eleições e o fim da repressão policial contra manifestantes na Belarus.

Protestos chegaram a reunir mais de 100 mil pessoas aos domingos, segundo medições feitas com base em fotos aéreras.

Entenda o que querem os manifestantes e quais os prováveis desfechos.

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Quando e por que começaram os conflitos?

No domingo (9) à noite, quando pesquisa oficial apontou mais de 80% dos votos para o ditador Alexandr Lukachenko, no poder há 26 anos.

A expressiva margem de liderança foi considerada fraude explícita, já que a candidata independente Svetlana Tikhanovskaia atraiu até 50 mil pessoas a comícios durante a campanha.

Milhares de pessoas saíram às ruas em protesto, reprimido com brutalidade nas três primeiras noites, quando ao menos cinco manifestantes morreram.

A polícia recuou após reação internacional, mas voltou a usar excesso de violência a partir do final de agosto.

Até o dia 14 de setembro, mais de 7.000 prisões já haviam sido feitas pela repressão bielorrussa.

Há ao menos 450 casos documentados de tortura e dezenas de jornalistas foram presos ou impedidos de participar.

Foi a primeira eleição fraudada na Belarus?

Não. O único pleito considerado livre e justo foi o primeiro, em 1994, vencido por Lukachenko.

Observadores internacionais viram problemas nas quatro seguintes e, neste ano, não puderam vir ao país.

Observadores independentes internos dizem ter sido impedidos de fiscalizar a votação.

Quem se manifesta contra o governo?

Eleitores da oposição, mulheres que formaram correntes contra a violência, entidades de direitos civis, artistas, trabalhadores de algumas grandes empresas estatais, alguns ex-militares, policiais e membros da máquina estatal que reunciaram.

Cerca de 300 empresários de tecnologia, importante setor exportador de serviços, ameaçaram deixar a Belarus se os conflitos continuarem.

O que querem os manifestantes?

O protesto não é unificado, mas há cinco reivindicações básicas e comuns: 1) a saída do ditador Alexander Lukashenko, 2) novas eleições livres coordenadas por um governo de transição, 3) o fim da violência policial, 4) a responsabilização judicial dos responsáveis por abuso de poder e tortura, 5) a libertação de todos os presos políticos

São os primeiros protestos na história do país?

Houve atos após as eleições de 2010 e 2015, nas grandes cidades, com menor participação e duração. As manifestações que completam 15 dias neste domingo (23) são as maiores e mais longas da história do país.

Aos domingos, os protestos têm reunido ao menos 100 mil pessoas em Minsk e dezenas de milhares em outras cidades do país.

Se os protestos eram pacíficos, por que a polícia interveio?

Manifestações sem autorização do governo são ilegais e sujeitas a multa e detenção na Belarus. A tropa de choque, porém, fez mais que isso. Há relatos de surras, estupros e torturas, inclusive de menores de idade e de bielorrussos que não estavam nos locais de protesto.

De quem foi a ordem para bater e torturar?

Não está claro se o governo ordenou força máxima, incluindo tortura, ou policiais se excederam por iniciativa própria. Não há processos instaurados a partir das denúncias de tortura.

No final de agosto, o ministro do Interior (responsável pela área de segurança), Yuri Karaev, afirmou que não deu ordens “para o tratamento cruel das pessoas, seja nas ruas, nos veículos policais ou nos locais de detenção”.

Os protestos estão aumentando ou refluindo?

Houve alta de eventos e de participação total até o dia 16 de agosto.

Nas semanas seguintes, as manifestações se reduzem nos dias úteis, mas acontecem todos os dias em dezenas de cidades.

Moradores das grandes cidades têm também promovido manifestações nos pátios internos de seus edifícios.

Movimentos grevistas, que cresceram nas primeiras duas semanas, foram reprimidos pela tropa de choque e por ameaças de demissão. Renúncias de policiais, militares e membros do governo continuam ocorrendo. Empresas de TI, como a Viber, fecharam escritórios no país.

As manifestações são apenas contra Lukachenko?

Não, há também protestos a favor do ditador, que começaram no dia 16, em Minsk, e na semana seguinte aconteceram em outras cidades. Há apoio espontâneo a Lukachenko mas, diferentemente dos protestos contra ele, grande parte dos participantes a favor são trazidos de ônibus e há relatos de coerção.

A eleição pode ser anulada?

Dificilmente, já que Lukachenko controla o Legislativo e o Judiciário bielorrussos. A oposição contestou o resultado na Comissão Eleitoral no dia seguinte à votação, mas seu recurso foi negado.

No dia 14 de agosto, o resultado final oficial deu 80,1% ao ditador e 10,1% à principal candidata da oposição, Svetlana Tikhanovskaia.

Quem é o líder da oposição?

Não há uma liderança única. Svetlana Tikhanovskaia, que assumiu a campanha de seu marido quando ele foi preso, representou uma frente de três candidaturas de oposição e se ofereceu para negociar uma transição pacífica que leve a novas eleições.

Se Tikhanovskaia se exilou na Lituânia, como pode negociar uma transição?

Um conselho de transição de cerca de 50 pessoas foi criado na Belarus para negociar em seu nome, com a participação de ex-membros de sua campanha e personalidades do país.

Mas o governo não aceitou receber representantes do conselho e abriu um processo criminal contra o grupo de oposição.

Dos 7 líderes do conselho, 6 estavam detidos ou exilados em meados de setembro.

Qual a reação internacional?

A União Europeia declarou não reconhecer o resultado eleitoral e afirmou que vai impor sanções aos responsáveis pela fraude eleitoral e pela repressão violenta. Os EUA também cogitam impor sanções.

A China cumprimentou Lukachenko pela vitória na noite de domingo.

A Rússia, principal aliado externo da ditadura bielorrussa, tem repetido que não permitirá interferência externa (ou seja, do Ocidente) na Belarus.

Qual o interesse da Rússia na Belarus?

Há grande interesse geopolítico, pois a Belarus separa a Rússia das tropas da Otan situadas na União Europeia. O país é também zona de passagem de óleo e gás exportados pelos russos para os europeus.

Passam pela Belarus um quinto do gás e um quarto do petróleo comprado da Rússia pelos europeus.

A Rússia pode intervir contra os manifestantes?

É improvavel, segundo Gustav Gressel, analista sênior do Conselho Europeu de Relações Internacionais (ECFR) especialista em Rússia e em conflitos armados.

Os custos seriam altos principalmente do ponto de vista institucional. Para ele, a população bielorrussa não vê a Rússia com antipatia, mas o apoio explícito de Putin a um presidente considerado ilegítimo poderia mudar esse quadro.

Putin tem agido para deixar claro à oposição da Belarus que qualquer novo governo terá que se conformar às estratégias geopolíticas russas.

Putin pode apoiar mudanças na Belarus?

Não deve haver intervenção pró-democracia, mas Putin pode apoiar um desfecho que leve ao poder uma alternativa confiável, diz o ex-embaixador britânico na Belarus Nigel Gould-Davies.

Para o analista Gustav Gressel, no atual cenário é decrescente o interesse russo em apoiar um didator que, pelos seus próprios erros, pode empurrar a população bielorrussa para o Ocidente.

O especialista em Rússia aponta que, nos últimos anos, Putin aceitou ou mesmo promoveu mudanças de liderança em países como na Armênia, em 2018, e em regiões sob sua esfera de controle como a Abcásia, em 2014 e 2020, e a Transnístria, em 2011.


Que nomes seriam opções aceitáveis para Putin?

O casal Tikhanovski não tem experiência política e é uma incógnita, mas a Rússia mantém contato próximo com candidatos independentes impedidos por Lukachenko de concorrer, como os executivos Valeri Tsepkalo e Viktor Babariko. Ambos compõem a frente de oposição que se uniu na candidatura de Tikhanovskaia.

Maria Kalesnikava, ex-chefe de campanha de Barbariko que integra o conselho de transição, declarou antes de ser detida que pretendia estabelecer relações de “benefício mútuo” com Moscou.

A fragmentação e ampliação do movimento de revolta dificulta os cálculos políticos de Putin, mas as declarações da União Europeia de que não vão se envolver em questões internas da Belarus pode fortalecer as chances de uma transição, segundo o analista do ECFR.


Lukachenko pode cumprir o sexto mandato?

Segundo analistas, depende da força e duração dos protestos e greves, da pressão de empresários, da defecção de membros do alto escalão do governo e da existência ou não de alternativas a ele que sejam consideradas confiáveis pela Rússia.


Isto é Belarus

  • Em março de 1918 foi criada a República Popular Bielorrussa, no território considerado etnicamente bielorrusso. O país tinha Constituição própria e foi reconhecido por nações vizinhas, mas sua independência foi breve: em 1919, foi ocupado pelos soviéticos
  • Foi considerada um país independente em 1991, após a dissolução da antiga União Soviética. Antes disso, esteve sob domínio de Rússia, Polônia e Lituânia
  • A atual Constituição foi adotada em 1994, quando também ocorreram as primeiras eleições presidenciais
  • Aleksandr Lukachenko foi o eleito e permanece na liderança do país há 26 anos, após emendas constitucionais baseadas em referendos amplamente contestados
  • Considerado um dos mais repressivos regimes da Europa, a Belarus realizou eleições não democráticas, suprimiu a oposição política e silenciou a imprensa
  • No ranking da Freedom House, que monitora as democracias pelo mundo, a Belarus tem a sétima pior pontuação e é classificada como um regime autoritário

ECONOMIA

Formação do PIB

  • serviços: 51,1%
  • indústria: 40,8%
  • agricultura: 8,1%
  • O segmento de serviços emprega a maior parte da força de trabalho, com destaque para os setores bancário, imobiliário e de comunicações
  • Belarus é hoje o principal hub de tecnologia da informação na Europa. Exportou US$ 15 bilhões em 2019, ou 35,6% das receitas de exportação
  • Atividades industriais se concentram na fabricação de veículos pesados, principalmente caminhões, tratores e escavadeiras.
  • No segmento agrícola, a maior parte da produção é voltada para batatas, beterrabas, cevada, trigo, centeio e milho
  • O turismo da Belarus é menos desenvolvido que nos países vizinhos. Os destinos mais visitados são o Parque Nacional Belovejskaia, Patrimônio Mundial pela Unesco, e a Fortaleza do Herói em Brest, palco da resistência soviética à invasão nazista em 1941

GRUPOS ÉTNICOS*

  • bielorrussos: 83,7%
  • russos: 8,3%
  • ucranianos: 1,7%
  • outros**: 3,2%

* Dados do censo de 2009
** Judeus, letões, lituanos e tártaros. Antes da Segunda Guerra (1939–1945), os judeus constituíam o 2º maior grupo étnico da Belarus e mais da metade da população urbana. O genocídio e a emigração do pós-guerra quase eliminaram os judeus do país

GRUPOS RELIGIOSOS

  • cristãos ortodoxos: 48,3%
  • católicos: 7,1%
  • não religiosos ou ateus: 41,1%
  • outros*: 3,5%

TCHERNÓBIL

  • O acidente na usina nuclear em Tchernóbil, na Ucrânia, ocorreu a 447 km da capital bielorrussa, Minsk. A Belarus foi um dos países mais afetados
  • A maior parte das chuvas radioativas após a explosão caiu em território bielorrusso. No início dos anos 2000, um quinto das terras da Belarus seguia contaminado
  • Houve aumento nos registros de crianças nascidas com malformações e na incidência de câncer, além de queda na taxa de natalidade

PERSONALIDADES

  • Marc Chagall (1887-1985): Talvez o mais famoso dos bielorrussos, o pintor, ceramista e gravurista é conhecido como um mestre da arte clássica de vanguarda
  • Svetlana Aleksiévitch (1948-): Escritora vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, em 2015. Atualmente, é integrante do conselho que busca a transição de poder na Belarus
  • Victoria Azarenka (1989-): Tenista com duas medalhas olímpicas, foi considerada a melhor do mundo em 2012. Atualmente, ocupa a 59ª posição no ranking
  • Louis Burt Mayer (1884-1957): Produtor de cinema que ajudou a fundar o estúdio hollywoodiano Metro-Goldwyn-Mayer e a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, criadora do Oscar. Foi dele a ideia de tornar anual a maior premiação do cinema
  • Zhores Alferov (1930-2019): Vencedor do Prêmio Nobel de Física, em 2000, pelo desenvolvimento de semicondutores que possibilitaram o aprimoramento dos telefones celulares
  • Oleg Novitski (1971-): Primeiro cosmonauta bielorrusso a liderar uma expedição à Estação Espacial Internacional (ISS), em 2012

ESPORTES

  • As modalidades mais populares são futebol, basquete, hóquei no gelo, atletismo, ginástica e luta livre
  • Antes da independência, os bielorrussos competiam nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos pela delegação soviética
  • Desde a 1ª participação independente, em 1994, a Belarus ganhou 97 medalhas olímpicas e 133 paraolímpicas

Fontes: Banco Mundial, Enciclopédia Britannica, PNUD, Regime da Belarus e World Factbook

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