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Explosão de casos e falta de oxigênio levam saúde da Índia ao colapso

País bate novo recorde diário de infecções por Covid; alta de mortes lota cemitérios e crematórios

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Samaan Lateef
Nova Déli

A morte de 20 pacientes com Covid no hospital Jaipur Golden, de Nova Déli, na sexta-feira (23), por falta de oxigênio, escancarou uma realidade: o sistema de saúde da Índia está desabando sob o peso da segunda onda da pandemia de coronavírus.

Em hospitais onde o suprimento de oxigênio está acabando, há pacientes ofegantes, com falta de ar.

Os crematórios do país estão cheios de piras, e pilhas de terra são espalhadas por cemitérios. O choque e a angústia eram visíveis no rosto de Vikramjit Singh, 45, que na sexta perdera seu irmão e a cunhada, com apenas minutos de diferença, quando o estoque de oxigênio do hospital Jaipur Golden acabou.

Pessoa de pé com uniforme protetivo ao lado de corpo coberto sobre mesa em sala fechada
Familiar de vítima de Covid-19 ao lado de corpo antes de cremação em Nova Déli - Adnan Abidi - 24.abr.21/Reuters

“Quando se casaram, juraram enfrentar juntos qualquer coisa que a vida lhes apresentasse. Mas o juramento foi posto à prova antes da hora”, afirmou Singh, desolado. “O governo reuniu ladrões aqui”, disse, apontando para um dos maiores hospitais particulares de Déli. “Querem matar qualquer pessoa que sobreviva à infecção. Esses empresários clientelistas são os que mandam no governo.”

O superintendente médico do hospital, D.K. Baluja, disse que, quando os estoques de oxigênio começaram a esgotar, foram feitas várias ligações para autoridades e fornecedores. Após uma espera de sete horas, receberam mil litros de oxigênio, "mas até lá já tínhamos perdido 20 pacientes”.

Hospitais em toda a Índia estão orientando pacientes a irem para casa e procurarem oxigênio por conta própria. Também na noite de sexta, morreram 25 pacientes com Covid-19 em outro hospital conceituado de Déli, o Sir Ganga Ram. Mas a instituição não vinculou as mortes oficialmente à falta de oxigênio.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que a situação na Índia é um “lembrete devastador” do que o coronavírus é capaz de fazer. No início do ano, o governo indiano acreditou ter vencido a pandemia. Em meados de fevereiro, os casos novos caíram para 11 mil, e o país estava exportando vacinas. Em março, o ministro da Saúde declarou que a Índia estava na fase final da pandemia.

No domingo (25), porém, a Índia alcançou um novo recorde de novos casos diários de Covid pelo quarto dia consecutivo. O aumento decorre de uma nova variante insidiosa que veio desmentir as alegações do governo de sucesso na luta contra a pandemia. Os 349.691 casos confirmados elevaram o total da Índia para mais de 16,9 milhões, à frente do Brasil e atrás apenas dos EUA —o governo americano suspendeu o embargo de exportação de matéria-prima de vacinas e enviará aos indianos insumos, além de testes, respiradores e equipamentos para a proteção hospitalar.

O Ministério da Saúde divulgou ter havido mais 2.767 mortes nas últimas 24 horas, elevando o total de mortos por Covid na Índia para 192.311.O aumento das mortes sobrecarrega crematórios e cemitérios, onde os corpos ficam estirados por horas antes de serem cremados ou sepultados.

Em vários lugares, corpos foram queimados sobre piras em trilhas diante de crematórios, depois de familiares não conseguirem encontrar vaga para cremá-los.

O médico Pradpi Bijalwan morreu na sexta em sua casa em Noida dois dias depois de o Jaipur Golden mandá-lo para casa porque não havia oxigênio no hospital. Com grande dificuldade, seu amigo Pradeep Tandon obteve um cilindro de oxigênio para ele vindo do estado de Harayana, no norte do país.

Mas Bijalwan não resistiu. Temendo a decomposição do corpo se fosse mantido em casa por muito tempo, Tandon imediatamente contatou várias agências particulares que operam os crematórios em Déli, mas não conseguiu vaga para a cremação dos restos mortais do amigo.

Depois de ouvir várias negativas, Tandon finalmente encontrou no sábado (24) uma vaga em um crematório na cidade de Ghazipur, em Uttar Pradesh. “É altamente desaconselhável ficar com um cadáver em um apartamento de dois quartos. Tentamos cremar seu corpo o quanto antes, mas não havia vagas”, contou Tandon. Até adoecer, Bijalwan dirigia uma clínica para pessoas sem-teto com Covid.

Vikas Kumar é faxineiro no maior crematório de Nova Déli, o Nigambodh Ghat. Ele relatou que 349 corpos foram cremados no sábado, apesar de a capacidade total do estabelecimento ser de 160 plataformas.

Com as plataformas ocupadas, os corpos foram cremados em espaços vazios. O total de cadáveres em crematórios em todo o país ultrapassa de longe as cifras oficiais. Os óbitos por Covid são subnotificados principalmente nos estados comandados pelo partido governista BJP, como Gujarat, Uttar Pradesh e Bihar.

A Índia divulga letalidade de 1,17%. Especialistas dizem que as mortes por Covid no país podem chegar a entre 1 milhão e 2 milhões. No distrito de Bharuch, em Gujarat, por exemplo, as autoridades notificaram menos de 20 mortes em 20 de abril, mas o número real de óbitos pode ter chegado a cerca de 500.

Com a segunda onda crescente do vírus, os dados oficiais indicam uma queda aguda nas doses de imunizante aplicadas nos últimos dez dias. De uma média de mais de 3,6 milhões de injeções diárias nos dez primeiros dias de abril, nos dez seguintes esse número caiu para 2,8 milhões.

A Índia tem o objetivo de vacinar com duas doses todos os adultos do país (940 milhões de pessoas) até o fim do ano. Para isso, especialistas dizem que a média diária de doses aplicadas precisa subir para pelo menos 6,8 milhões, 2,5 vezes acima do ritmo atual.

Quase 130 milhões de doses foram aplicadas até agora. Mais de 111 milhões de pessoas ainda precisam receber a segunda dose. A Índia ainda pode precisar de mais de 1,2 bilhão de doses. Em vista da capacidade produtora nacional atual e do atraso na entrega de imunizantes vindos do exterior, é quase certo que a oferta seja insuficiente para atender à demanda.

A partir de 1º de maio, a vacina deve ser oferecida a todos os maiores de 18 anos. Isso significa que as exportações vão continuar proibidas por mais tempo, com um impacto forte sobre o envio de imunizantes ao Brasil, ao Canadá e a países europeus. “Embora não exista uma proibição oficial à exportação de vacinas, a política de vacinação mais recente anunciada pelo governo parece indicar uma pausa nas exportações, por tempo indeterminado”, afirmou Malini Aisola, codiretora da All India Drug Action Network (Aidan), organização da sociedade civil que atua na defesa dos direitos dos pacientes.

“A política prevê que 50% da vacina manufaturada na Índia vá diretamente para o governo central para ser distribuída e 50% fique para os estados e o setor privado”, disse. Com a redução dos estoques, na primeira semana de abril o país autorizou, em caráter emergencial, a importação da russa Sputnik V, que será usada para imunizar até 125 milhões de pessoas.

Tradução de Clara Allain

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