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Duque recorre ao Exército após protestos ganharem força na Colômbia

Atos antigoverno já duram mais de um mês e contabilizam 59 mortos; negociações estão travadas

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Buenos Aires

Uma marcha convocada pelo Centro Democrático, partido do presidente colombiano, Iván Duque, levou centenas de pessoas às ruas de Bogotá e de outras cidades do país neste domingo (30) para protestar contra os bloqueios de estradas realizados por participantes de atos antigoverno.

O fechamento de rodovias e a greve geral convocada pelos manifestantes contrários a Duque têm impedido o abastecimento de diversos municípios. Os apoiadores do presidente também pediram o fim da violência nas manifestações, em um ato que foi batizado de "Marcha do Silêncio".

Manifestantes contra o bloqueio de rodovias na Colômbia
Manifestantes protestam contra o bloqueio de rodovias na Colômbia - Juan Barreto/AFP

Na capital, houve um princípio de confronto entre participantes da marcha governista e apoiadores da greve nacional, mas o enfrentamento foi controlado pela polícia.

O país, que acaba de completar um mês de turbulência social, viu os atos começarem como uma revolta contra uma proposta de reforma tributária. As manifestações, no entanto, cresceram e passaram a incluir uma agenda com diversas demandas. Entre outros pontos, os manifestantes pedem mais empregos, maior acesso à saúde e à educação e a implementação de uma renda básica mínima durante a pandemia.

Eles também pressionam pelo fim do uso do glifosato, herbicida utilizado para destruir as plantações de coca —o tema é controverso, já que a substância química pode causar câncer. Além disso, os manifestantes exigem uma reforma da própria polícia nacional, que é controlada pelo Exército.

Muitos dos atos realizados até o momento terminaram em confrontos com as forças de segurança, em especial em Cali, a terceira maior cidade do país. Ao todo, segundo a Defensoria do Povo, já são 59 os mortos pelos embates, 13 dos quais apenas na última sexta (28).

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Em meio a esse panorama, Duque anunciou que pretende usar o Exército para ajudar a conter os atos.

José Miguel Vivanco, diretor da divisão das Américas da ONG Human Rights Watch, disse à Folha que o "repetido desrespeito aos direitos humanos na repressão aos protestos tem o efeito de colocar mais lenha na fogueira das próprias manifestações". "Ou seja, as pessoas já saem [às ruas] hoje mais por discordar desse tipo de Estado que reage desta maneira do que pelas pautas iniciais do processo."

Para ele, Duque "se equivoca ao dar mais demonstrações de uso das forças de segurança nacional, como o Exército, porque são um símbolo de intolerância e de que não há desejo real de diálogo".

Vivanco critica ainda as afirmações do presidente colombiano de que a violência tem sido causada por grupos de estrangeiros organizados. O diretor da ONG considera que a hipótese não pode ser descartada, mas também não pode ser comprovada nesse momento. "Insistir todas as fichas de seu discurso nessa narrativa do vandalismo pago por forças de fora passa uma mensagem muito ruim aos colombianos, a mensagem de que as suas bandeiras, suas reivindicações, não são legítimas. E são."

Em meio ao aumento dos atos, Duque deu início a negociações com um comitê formado por lideranças de alguns dos setores envolvidos nos protestos. As conversas, porém, não chegaram a um acordo. Nos últimos dias, nas ruas, um dos gritos que se ouviram é o de que "o comitê de greve não nos representa".

"É preciso ficar claro que o que vemos nas ruas são jovens que não se veem representados nem na política nem nessas negociações realizadas em seu nome. Isso, nos últimos dias, tem se tornado também um motor da insatisfação geral", afirma o analista político Ariel Ávila. "A juventude colombiana, que já tinha se posicionado com sua agenda de reformas do Estado em 2019, agora voltou às ruas com ainda mais bronca, porque quando se olha para os números do aumento da pobreza, os jovens também são a franja mais afetada, são os que estão sem emprego e sem perspectivas", completou.

A pobreza na Colômbia cresceu 6 pontos percentuais desde o início da pandemia, e hoje é de 42,5%​. Na mesma tendência, o desemprego juvenil também cresceu —entre os colombianos de 18 a 28 anos, a desocupação foi de 20,5%, em 2020, para 23,9%, em 2021. Pesquisa divulgada pelo instituto Invamer neste domingo indica que 89% dos entrevistados estão de acordo com as manifestações, mas 95% desaprovam que elas sejam violentas. Sobre a atuação do Esmad, o batalhão anti-distúrbios da polícia colombiana, 55% dizem discordar do modo como atuam, e 60% pedem o fim do bloqueio das ruas e estradas.

A analista Elizabeth Dickinson, do International Crisis Group, considera que o diálogo "deve incluir mais atores e abrir o leque das demandas dos jovens, pois são a maioria dos que estão nas ruas". Para Ávila, não há ânimo para interromper os atos. "Não acho que vá parar logo. Não vejo desânimo ou cansaço dos que estão saindo todos os dias às ruas. E só creio que esses protestos podem ser amenizados quando houver entregas concretas por parte do governo."

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