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A retomada do crescimento econômico corre riscos neste ano? NÃO

O problema do crescimento é 2019

Imagem da Carteira de Trabalho e Previdência Social sobre uma mesa
Carteira de Trabalho e Previdência Social - Gabriel Cabral - 5.fev.18/Folhapress
Sergio Vale

Há uma certa preocupação no ar com o mercado de trabalho. Alega-se fraca recuperação do emprego, com taxa de desemprego ainda elevada sendo um impeditivo para uma recuperação mais vigorosa da economia. Mais especificamente, considera-se o forte crescimento do emprego informal como um elemento que inibirá uma recuperação mais plena este ano.

Em que pese o mercado de trabalho ser elemento central de qualquer recuperação econômica, não o vejo neste momento como elemento que barraria uma recuperação mais relevante. Em geral, o mercado de trabalho responde à recuperação econômica. Ele é mais um sintoma da melhora da economia do que o contrário. Nem mesmo uma taxa elevada de desemprego tem sido impeditivo para o crescimento.

Basta lembrar que durante o boom de 2004 a 2008 o crescimento médio da economia foi de 4,8% ao ano e a taxa de desemprego média no período foi de 10,2%, número próximo da taxa que devemos alcançar no fim deste ano.

É verdade que grande parte da recuperação do emprego é pela informalidade. Algo natural em saídas de recessão tão extensas como a que tivemos, sem falar que toda a expectativa sobre a reforma trabalhista no ano passado gerava adiamento de contratações formais.

Dado que a reforma trabalhista entrou em vigor apenas no fim do ano, seria natural esperar uma recuperação mais efetiva desse tipo de emprego este ano. De fato, o emprego formal já dá claros sinais de reação.

No primeiro bimestre de 2017, o saldo líquido do emprego formal pelo Caged foi negativo em 5.200 pessoas. No primeiro bimestre deste ano, o saldo foi positivo em 139 mil, devendo chegar a um acumulado de quase 1 milhão ao fim de 2018.

Pode-se argumentar que é pouco para a recuperação e por tudo que se perdeu com a crise. Mas o motor da recuperação e o que vai continuar a ajustar o emprego formal para cima é através de quem já está empregado. Não à toa, a maior parte da recuperação está ocorrendo nos segmentos de bens duráveis.

De fato, em cálculo feito pela consultoria MB, identificamos que os segmentos mais dependentes de crédito estão tendo expansão de volume de vendas de 8,6% no acumulado em 12 meses, enquanto os menos dependentes de crédito estão com expansão de 2,4%.

Essa evolução maior nos bens duráveis se dá pela parte da população que estava empregada e que tinha receio de voltar a consumir por conta do tamanho da recessão. Não seria outra a justificativa para as vendas de automóveis crescerem em torno de 22% no primeiro trimestre e o valor geral de vendas de imóveis em São Paulo já se aproximar dos números que se tinha no início de 2015.

Assim, o que move a recuperação da economia está em outra seara, já amplamente conhecida por todos e que passa pelas boas práticas de política econômica que têm sido feitas desde 2016. A preocupação é muito menos a velocidade de recuperação este ano e, sim, sua sustentabilidade para os próximos anos.
 
De nada adiantará discutirmos o tamanho do crescimento este ano enquanto o risco maior se encontrar na fala de candidatos que recorrem sistematicamente à reinvenção da roda. Os primeiros lugares nas pesquisas de opinião povoam nossos ouvidos com políticas do arco da velha, desde desmontar a TLP, a regra do teto e a reforma trabalhista.

No mais, a velha fórmula surrada de tentar emplacar mais gasto público e mais empresas estatais para estimular o crescimento tem sido a marca da campanha dos candidatos mais bem avaliados. Isso, sim, é preocupante.

Sergio Vale

Mestre em economia pela Universidade de Wisconsin (EUA), é economista-chefe da MB Associados

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