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Diumar Bueno: Caminhoneiro conquistou valor e respeito

O movimento ficará marcado para toda a vida

Brasileiros, foram dez dias de intenso trabalho, dia e noite, dedicação e organização, perseverança e com objetivos definidos. Paciência e inteligência, mas com determinação, bravura e coragem. Fomos verdadeiros guerreiros. Os caminhoneiros autônomos correspondem a mais de 1 milhão de trabalhadores e de pequenos proprietários, que hoje respondem diretamente por 50% de tudo que é produzido, consumido e exportado pelo nosso país.

Durante o movimento, eles sofreram desgastes físicos, mentais e psicológicos. Ficaram angustiados com suas contas correndo e sem faturamento por 15 dias, no mínimo. Sentiram saudades de casa e da família, que rezava e pedia para que voltassem logo e bem.

Esses trabalhadores foram sufocados por sucessivos aumentos do óleo diesel, item que representa 50% do frete. Frustraram-se com paralisações de anos anteriores, que usaram o nome forte e a bandeira dos caminhoneiros, mas não tinham organização nem legitimidade, com pautas diversas e outros interesses, inclusive de políticos que apareciam só para sair nas fotos.

 

Porém, desta vez, de forma inédita, o movimento teve organização e dedicação, respeitando as leis e a Constituição, cumprindo as decisões judiciais, proferidas nas diversas ações de interditos proibitórios ajuizadas pela AGU --que, aliás, não proibiu os protestos da categoria nas rodovias, reconhecendo como legítimo o direito de manifestação do caminhoneiro.

Assim, por meio das entidades sindicais, os caminhoneiros realizaram suas assembleias em diversos pontos, aprovando uma pauta inicial e mínima, com estratégias inteligentes, estabelecendo começo, meio e fim. Com 30 dias de antecedência, começaram a divulgar comunicados em todos os pontos de origem e destino de cargas para caminhões e entre os caminhoneiros.

Dessa forma, a população teria conhecimento antecipado de que, a partir do dia 21/5, os caminhoneiros iniciariam um movimento nacional. A CNTA, por sua vez, protocolou no dia 16/5 um ofício ao presidente da República, à Casa Civil, aos ministérios dos Transportes, do Trabalho e da Justiça e à Secretaria Geral da Presidência, alertando sobre a necessidade de se ouvir a categoria. Eis que os caminhoneiros, voluntariamente e de forma espontânea, começaram um movimento paredista.

O governo não reagiu, e o gigante adormecido acordou. Os caminhoneiros se uniram de forma coordenada, ganhando o reconhecimento e o respeito da população, que compreendeu o valor do seu trabalho e entendeu, também, o sofrimento de estar, na maior parte do tempo, ausente do cotidiano familiar. Mostramos, ainda, que o frete pago não cobre nem os custos elevadíssimos de óleo diesel, pedágios e insumos e, principalmente, o desgaste da mão de obra.

Os brasileiros tomaram conhecimento da importância do trabalho do caminhoneiro e o peso de sua atividade na economia do país.

Os caminhoneiros autônomos têm o sentimento de terem atingido seus objetivos iniciais, com sua pauta atendida, incluindo alguns temas que havia décadas eram objeto de reivindicação e que beneficiarão outros setores produtivos do país.

É importante destacar que o diesel é consumido quase que igualmente pelos três segmentos produtivos do país: 30% para indústria, 30% para o agronegócio, 30%, para o transporte, considerando que 15% é para o transporte de passageiros e 15% para cargas. Nesse último percentual, os caminhoneiros autônomos respondem por apenas 6% do consumo.

O eixo suspenso pago nos pedágios também é outra conquista que vai beneficiar toda a economia do país e a população, baixando os custos de produtos e transportes.

Devemos também parabenizar toda a população que, de uma forma ou de outra, contribuiu com as manifestações legítimas e autênticas iniciadas pelos caminhoneiros autônomos.

Lamentavelmente, após as reivindicações serem atendidas pelo governo na mesa de negociação (apesar do longo tempo transcorrido até essa decisão), caminhoneiros de vários pontos do país entraram em contato com as entidades sindicais e apresentaram suas preocupações pelas pressões de grupos e pessoas alheias ao movimento, que começaram a ameaçar, intimidar, agredir, provocando até mortes. O temor e a exaustão de tantos dias parados passaram a dominar o sentimento dos caminhoneiros, que pediram proteção dos órgãos de segurança.

Agora, o que os caminhoneiros mais querem é matar as saudades de quem está esperando ansiosamente por eles, descansar da mais longa viagem que já fizeram e voltar ao trabalho, seguros de que serão recompensados de forma justa e mais respeitados por todos.

Iniciado, administrado e finalizado por uma única categoria, de forma inédita, legal, pacífica, organizada e inteligente, o movimento obteve 87% de aprovação da população, tornando-se a maior manifestação da história dos caminhoneiros autônomos do Brasil. Isso ficará marcado para toda a vida. Vamos em frente, com as bênçãos de Deus.

Diumar Bueno

Presidente da CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos)

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