Ascensão de Bolsonaro sela a crise de legitimidade dos partidos, diz pesquisador

Fernando Bizzarro, pesquisador em Harvard, afirma que erros estratégicos dos tucanos e polarização causaram ruptura na direita

Marco Rodrigo Almeida
São Paulo

O surpreendente desempenho de Jair Bolsonaro (PSL) neste primeiro turno selou uma ruptura no jogo partidário das últimas seis eleições presidenciais brasileiras. As disputas travadas de 1994 a 2014 foram dominadas por PT e PSDB , com quatro vitórias para o primeiro e duas para o segundo.

O predomínio dos dois partidos —a despeito da grande fragmentação partidária nos pleitos municipais e estaduais— garantiu o que cientistas políticos chamam de relativa institucionalização do sistema partidário brasileiro.
 

O cientista político Fernando Bizzarro no campus de Harvard, nos Estado Unidos - Divulgação

Neste ano, contudo, Bolsonaro, do até então inexpressivo PSL, assumiu o papel de opção antipetista. Com 46% dos votos válidos, vai ao segundo turno contra Fernando Haddad (PT), que obteve 29% na primeira fase do pleito. O candidato tucano, Geraldo Alckmin, teve cerca de 5%, o pior desenho da história do partido.

Para o cientista político Fernando Bizzarro, a ascensão do capitão reformado reflete a grave crise de legitimidade pela qual passam os partidos tradicionais e o clima de polarização mais extremado nos últimos anos. 

Bizzarro, 29, doutorando no departamento de governo na Universidade Harvard, estuda as origens e as consequências de partidos fortes. Um dos orientadores de suas pesquisas é Steven Levitsky, coautor do livro sensação do ano nas ciências sociais, “Como as Democracias Morrem”. 

 

O senhor ficou surpreso com o resultado de Bolsonaro neste primeiro turno? Surpreendeu a quantidade de votos que Bolsonaro teve. Não imaginava essa onda de votos úteis nos últimos dias. Isso gerou um efeito cascata para diversos candidatos a governadores e ao Legislativo.  
A disputa para presidente dominou tão intensamente a eleição que o eleitor não teve tempo de pensar em outros cargos. Então acabou se guiando no voto em Bolsonaro para escolher os demais candidatos no pleito. 

Tivemos uma mudança dos atores nesta eleição, com Bolsonaro, de um partido sem tradição, assumindo o papel do PSDB contra o PT. Qual o impacto no sistema partidário? Tivemos, é óbvio, uma ruptura no jogo partidário em disputa. A questão mais importante, e mais difícil de saber a resposta, é se a partir daí ocorreria apenas uma substituição —sai o PSDB e entra o Bolsonaro e seu grupo político, disputando várias eleições consecutivas contra o PT— ou se vamos para um novo cenário no qual eleições presidenciais serão mais fragmentadas do que vinham sendo, refletindo melhor a divisão do sistema de partidos que existe nas eleições legislativas e estaduais, com várias siglas se sucedendo nas posições competitivas. Ainda não está claro qual será a consequência. 
 

Falta a Bolsonaro, porém, a estruturada partidária e os quadros técnicos do PSDB. Ele estaria capacitado para ocupar esse papel de oposição ao PT? Pode ser que se firme ao redor dele um partido de direita mais estruturado. A competição, de toda maneira, será bem mais personalizada. 
O PSDB também é muito personalista, mas algumas ideias gerais orientam a atuação do partido. Já o PSL é basicamente o partido de Bolsonaro, sem qualquer expressão.
De forma geral, o resultado reflete uma crise de legitimidade partidária, uma crise geral. Os políticos tradicionais foram rejeitados.
Eduardo Suplicy (PT) vinha liderando a disputa para o Senado em São Paulo, mas ficou de fora, em terceiro lugar. Em Minas Dilma Rousseff (PT) aparecia em primeiro lugar para o Senado, e também  ficou de fora. Marconi Perillo (PSBD), ex-governador, ficou em quinto lugar em Goiás, também não foi eleito para o Senado. 

Em um artigo de agosto de 2017, o senhor apostava na preservação de nosso sistema partidário, embora o Brasil esteja em “águas turbulentas”. Passado um ano, o senhor mantém o otimismo? Creio que o sistema partidário vai sobreviver. Desde o começo dos anos 1990, os partidos brasileiros construíram uma rede de proteção para si próprios. Eles adotaram uma série de fórmulas eleitorais e dispositivos institucionais.
Isso cria uma situação na qual mesmo um terremoto político como o que o Brasil experimenta desde 2015 é incapaz de gerar o tipo de colapso do sistema partidário que ocorreu em países como a Venezuela ou a Itália no começo dos anos 1990, nos quais os principais partidos desapareceram e novos foram criados. 
O que pode acontecer é uma reconfiguração da força relativa de algum dos principais atores, especialmente com o enfraquecimento do PSDB e do MDB, sem que um sistema totalmente novo seja criado. 

Aposta em que resultado no segundo turno? O Bolsonaro larga na frente, pela votação expressiva que teve agora. Pela alta rejeição, porém, pode ter mais dificuldade para alcançar novos eleitores.
Na dinâmica do segundo turno, é natural que os candidatos se aproximem do centro para conquistar mais votos. Ou seja, é preciso moderar o discurso.
Nessa aspecto o Haddad leva vantagem, pois é muito mais crível como moderado do que Bolsonaro. É difícil um candidato que diz as coisas que Bolsonaro diz se apresentar como um moderado. 
O problema para Haddad é que ele precisa de muitos votos, mas não tenho certeza de que consiga angariar todos.

 Que perspectivas de governabilidade vê para ambos? Uma vitória de um candidato como o Bolsonaro vai forçar um exercício de coordenação entre o Congresso e a Presidência muito maior do que nós jamais tivemos. Diferentemente das eleições passadas, em que acordos eram tecidos antes da eleição, desta vez terá que construir uma coalizão a partir de agora, em um contexto altamente polarizado e no qual decisões muito difíceis terão que ser tomadas. Vai ser um enorme desafio para o país, o que pode jogar gasolina na brasa que cozinha as instituições brasileiras agora.

E em relação a Haddad? Também terá dificuldades. Ele tem uma distância ideológica em relação ao legislador mediano maior que a de Bolsonasro. Nesse sentido, Bolsonaro também terá alguma vantagem.
 

Que avaliação já é possível fazer do Congresso eleito? Me parece que será um Congresso ainda mais fragmentado do que já é, o que é extraordinário, pois já temos o Congresso mais fragmentado do mundo. Percebe-se também um enfraquecimento da esquerda e um fortalecimento de nomes conservadores.
Partidos novos, como o PSL, tiveram bons resultados. Por outro lado, os partidos mais tradicionais, os que dominavam a política brasileira desde os anos 1980, devem perder parte de seu protagonismo.

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Eleições 2018 - PT
Eleições 2018 - PT
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Até pouco antes do período eleitoral, cientistas políticos eram quase unânimes em dizer que Bolsonaro logo perderia fôlego, que ele não chegaria ao segundo turno por não ter estrutura partidária sólida e tempo de TV, enquanto Alckmin cresceria. Qual foi o erro de análise? Eu fui um desses analistas e tenho me perguntado isso todos os dias nas três últimas semanas. 
Duas razões me parecem as principais. Primeiro houve o atentado contra Bolsonaro. A premissa de que ele iria desidratar estava baseada na ideia de que seria bombardeado por seus concorrentes, especialmente Alckmin, sem ter tempo de se defender. Com o atentado, o eleitor passou a receber informações neutras ou até positivas sobre Bolsonaro. Isso amenizou o efeito da campanha negativa e deu a ele mais fôlego para sobreviver aos ataques.
O segundo ponto é que nós, analistas, estávamos com a expectativa de que Alckmin seria capaz de reconquistar parte do voto dos antigos eleitores do PSDB. Mas parece que o abismo entre os políticos tradicionais e o eleitor é muito maior do que imaginávamos.

O que explica o desempenho tão fraco do PSDB, com apenas 5% dos votos? O PSDB, diferentemente do PT, nunca se dedicou a transformar o eleitor fiel em partidário. Sempre investiu bem menos na marca do partido, adotando estratégias mais personalistas de campanha. O PSDB recebeu mais de 300 milhões de votos desde 1994, mas só um número pequeno desses eleitores se identifica com o partido. As consequências dessa estratégia estão agora assombrando os tucanos.
Basicamente Alckmin teve os votos dos que sempre se declaram tucanos [3% na mais recente pesquisa Datafolha de preferência partidária]. É um resultado chocante, praticamente não conseguiu aglutinar outros eleitores. 
 
Isso também explica a ascensão de Bolsonaro? Creio que sim. O PSDB não criou vínculos fortes com o eleitor, o que abriu brechas para Bolsonaro. Na hora em que surgiu outra alternativa contra o PT, esse eleitor que não se via como tucano não hesitou um minuto em abandonar o partido. Aí o PSDB não tinha condições de impedir essa migração. 
O PSDB, até a eleição de 2014, foi extremamente talentoso em bloquear os competidores pelo lado da direita. Nunca houve um candidato à direita do PSDB que fosse relevante. Na medida em que o PSDB vira mais um, a capacidade de fechar o mercado da direita desaparece.

E agora Bolsonaro furou esse bloqueio.  Sim, soube surfar na onda da crise partidária, do enfraquecimento das lideranças tradicionais. Bolsonaro se aproveitou disso, foi construindo sua imagem como um antipetista radical. Na medida em que o eleitor desconfiado passou a procurar alternativas antipetistas, ele percebeu que havia aparecido esse cara chamado Bolsonaro. 

Para esse eleitorado mais à direita, o PSDB já não era antipetista o suficiente? O PSDB nunca foi um partido nítido de direita. Surgiu como uma sigla de centro-esquerda. No governo FHC começou a incorporar pessoas mais ligadas à direita. Isso gerou uma tensão, e o partido nunca conseguiu se posicionar muito claramente contra o PT porque há grupos que simpatizam com muitas das ideias de esquerda. 
Historicamente era uma oposição mais moderada, mais à direita, que tinha feito uma série de reformas. O eleitor percebia que era algo diferente do PT, mas não algo completamente oposto. Quem foi buscar algo completamente oposto acabou encontrando Bolsonaro.

Entre Haddad e Bolsonaro, quem o PSDB apoiará? Acho que haverá uma disputa no partido entre os candidatos nos segundos turnos estaduais, que querem se mostrar antipetistas e, portanto, apoiariam uma aliança com o Bolsonaro, e as lideranças nacionais que temem a ameaça democrática que é o Bolsonaro. 
João Doria (PSDB), por exemplo, nesta segunda (8) será mais Bolsonaro que os próprios filhos de Bolsonaro. Faz parte da dinâmica para atrair votos. 
Já Antonio Anastasia, em Minas, vive situação mais delicada. Também quer representar o antipetismo, mas seu oponente, Romeu Zema (Novo), já se aproximou de Bolsonaro, e provavelmente por isso cresceu nos últimos dias e chegou ao segundo turno. 
Apoiar o PT me parece a opção menos provável, pois o PSDB colocaria em perigo o pouco que lhe resta de credibilidade como uma alternativa ao PT. Então talvez haja uma opção geral pela neutralidade, com cada candidato agindo de forma independente. 

O resultado da eleição poderá restituir um ambiente político mais tranquilo, após quatro anos de sucessivas turbulências? É improvável que os ânimos arrefeçam imediatamente. A polarização vai estar no máximo ao final da eleição. A diferença ideológica de Haddad e Bolsonaro é a maior entre todos os pares de candidatos competitivos. E Bolsonaro já deu declarações de que contestará o resultado em caso de derrota.
Pesquisas recentes mostram que perdedores em eleições presidenciais que vêm de partidos com poucos deputados tendem a contestar o resultado para tentar projetar nacionalmente mais força política do que realmente têm.
 

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