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Aliança de checadores detecta 16 notícias falsas em 48 horas, um terço do total de 2018

Acusações infundadas contra a lisura das urnas e da apuração dos votos foram compartilhadas

Cristina Tardáguila
TAMPA (EUA)

Para aqueles que achavam que os ataques às urnas eletrônicas e à credibilidade do processo eleitoral brasileiro tinham atingido seu ápice em 2018, o primeiro domingo de eleição de 2020 foi um susto. A soma das falhas técnicas envolvendo o aplicativo e-Título com o vazamento de dados antigos do Tribunal Superior Eleitoral e a demora na totalização dos votos inflou as teorias da conspiração e, agora, obriga o TSE a se preparar de forma mais robusta para o segundo turno.

Mas um ponto deve ser ressaltado: o número de checagens publicadas ao longo do último fim de semana indica que a desinformação relativa ao processo eleitoral foi menor neste ano, se comparado com 2018.

Desde 1º de outubro, AFP, Agência Lupa, Aos Fatos, Boatos.org, Comprova, E-Farsas, Estadão Verifica, UOL Confere e Fato ou Fake trabalham em parceria com o TSE para fazer frente às notícias falsas de cunho eleitoral. A aliança consiste numa versão mais robusta, organizada e institucionalizada da iniciativa colaborativa #CheckBR, levada a cabo por seis times de verificadores há dois anos.

Em linhas gerais, cada vez que os checadores publicam uma verificação que diz respeito ao processo eleitoral, eles enviam ao tribunal o link contendo o artigo e um pequeno resumo do trabalho. O TSE reúne todos os links na página Fato ou Boato e distribui a informação em suas redes sociais. Os checadores também podem trocar checagens entre si, mantendo o crédito e a autoria.

Na noite de domingo, quem entrava no Fato ou Boato encontrava um total de 16 grupos de verificações que haviam sido publicados entre os dias 14 e 15 de novembro — oito deles traziam informações coletadas e verificadas no próprio fim de semana. Ao se comparar esses dados com os coletados pelos checadores em 2018, a notícia é positiva.

No fim de semana do primeiro turno das eleições presidenciais daquele ano, o total de checagens publicadas pelo #CheckBR foi três vezes maior. Cinquenta notícias falsas foram flagradas pela aliança de checadores em 48 horas.

Se observada a média de boatos por hora, algo que impacta diretamente na rotina dos fact-checkers, o alívio é certo. Há dois anos, o grupo enfrentou uma média de mais de uma falsidade por hora. No último fim de semana, esse total caiu para um valor quase insignificante.

É claro que há diferenças substanciais entre as eleições de 2018 e de 2020. Se há dois anos a disputa era presidencial, com o país inteiro focado numa dezena de candidatos, agora havia mais de meio milhão de políticos disputando cargos públicos. A desinformação tende, portanto, a ficar difusa, menos visível e mais local. Mas, nessa iniciativa, o trabalho dos verificadores se centra não nos candidatos, e sim no processo eleitoral —que pouco mudou de lá para cá. Os dados preliminares que saem dessa comparação sugerem que o ministro Luís Roberto Barroso, atual presidente do TSE, estava correto na sexta-feira passada: a desinformação relativa ao processo eleitoral diminuiu.

É evidente que a centralização da totalização dos votos em Brasília, a indisponibilidade técnica de um dos super computadores do TSE e a impossibilidade de justificar a ausência na eleição pelo aplicativo experimentada por muitos eleitores foram problemas que ainda precisam ser sanados para o segundo turno. Em termos numéricos, as peças desinformativas diminuíram - e isso deve se celebrado.

Para Edgard Matsuki, criador do site Boatos.org, a queda foi acentuada.

"Nos dois turnos em 2018, fizemos 262 textos sobre notícias falsas. Neste ano, até o primeiro turno, foram 27. Acredito que o trabalho realizado em 2020, se mantido e aperfeiçoado, será importante em 2022, eleição que deve ter um volume maior de desinformação".

Marco Faustino, jornalista e editor-chefe do site e-Farsas, concorda:

"A coalizão deveria ser um projeto permanente no combate à desinformação sobre o processo eleitoral, e parte de um processo preparatório ainda maior para as eleições presidenciais de 2022. Já deveríamos estar pensando nisso, e traçar esse planejamento o quanto antes. A defesa da democracia precisa ser um exercício constante. Não dá para imaginar esse combate sem essa ampla aliança, e que ela seja pautada, principalmente, pela transparência".

Desde sábado, conforme havia ocorrido em 2018, os checadores viram pipocar nas redes acusações falsas contra a lisura das urnas eletrônicas e da apuração dos votos. Também houve ataques indevidos a chapas e políticos —num cenário muito semelhante ao da eleição presidencial.

Oito times de checadores classificaram como falsa a informação de que as tentativas de hackear o TSE tinham violado a segurança das urnas eletrônicas. Quatro organizações alertaram suas audiências para o fato de que a empresa "Smartmatic, que forneceu urnas para a Venezuela, nunca vendeu aparelhos para o Brasil".

Dois times destacaram que o "ataque hacker ao Supremo Tribunal de Justiça não ameaçava a segurança das urnas" brasileiras. Outros dois que "o TSE não envia e-mails convocando eleitores para teste de voto pela internet".

A aliança de fact-checkers também informou que uma lista de locais de votação que circulou em Porto Alegre (e pelo WhatsApp) no domingo não dizia respeito ao pleito de 2020 e que era falsa a mensagem alegando "ser possível alterar voto caso o mesário não entregasse o comprovante ao eleitor".

Foram detectadas como falsas as informações de que o eleitor que não levasse caneta não poderia votar, que os mesários podem transferir votos abrindo o sistema das urnas eletrônicas e que a urna em si não é passível de auditoria. Cinco organizações checadoras analisaram este último conteúdo.

Na lista de falsos ataques pessoais desferidos contra políticos, o grupo de verificadores negou que a chapa de Francilene Paixão, candidata à prefeitura de Santa Luzia (MA), havia sido cassada e que o governador de São Paulo, João Doria, havia votado usando máscara da China.

A aliança Fato ou Boato também destacou que não era verdadeira a corrente que pregava que o "Código Eleitoral permite que pessoas cometam crimes sem punição".

Lançada no início de outubro, a parceria do TSE com os checadores faz parte de uma campanha do tribunal para fazer frente à desinformação. O esforço colaborativo seguirá ativo até o fim do segundo turno.

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