Empresas se aliam a startups para ganhar mais agilidade

Companhias se reinventam com parcerias e novos modelos organizacionais

São Paulo

A inovação não está presente apenas na criação de um aplicativo ou produto. Pode aparecer, também, em processos internos ou novas posturas adotadas por uma empresa diante do mercado.

Segundo estudo da Visa divulgado neste ano, das 20 empresas mais inovadoras da América Latina, 8 são brasileiras. O relatório, feito com a consultoria Americas Market Intelligence, não aponta o nome das companhias, mas mostra quais são as características que elas compartilham. 

Entre elas estão: equipes dedicadas à inovação, parcerias com startups, estruturas mais horizontais, espaços colaborativos e uso de tecnologias para aperfeiçoar processos.

Obra de Herman Tacasey
Obra de Herman Tacasey - Herman Tacasey

É um caminho pelo qual a Natura segue. Desde 2015, a empresa aposta em mudanças no modelo organizacional. Hoje, opera com equipes pequenas, com autonomia para tomada de decisão, formadas por funcionários de áreas diversas, chamadas de squads (do inglês “esquadrão”).

Segundo Gleycia Leite, diretora de gestão de processos da empresa, o arranjo facilita a colaboração e dá aos grupos autonomia e flexibilidade. Há mais de 50 pequenos times dedicados a projetos de tecnologia, serviços e desenvolvimento de produtos.

A mudança de procedimentos reflete no espaço físico. Para acompanhar a configuração, foi criado na sede da empresa em São Paulo um espaço com planta aberta e salas com paredes de vidro.
“Criar formatos que favoreçam essa nova forma de pensar o trabalho, em que você não fica restrito só à sua tarefa, é uma vantagem competitiva para todas as organizações”, diz Gleycia.

A organização em squads também é adotada pelo Pão de Açúcar, que começou o redesenho de equipes em 2017.

No cenário atual, as grandes empresas são como dinossauros, e as startups, mosquinhas “ágeis e flexíveis”, afirma Jorge Faiçal, diretor de transformação digital do grupo. 

Para reverter esse panorama, o Grupo Pão de Açúcar passou a se aliar às empresas mais novas. Só em 2018, entrou em contato com cerca de 1.800 startups para avaliar parcerias. “Não íamos conseguir conduzir as mudanças necessárias sozinhos”, afirma Faiçal.

Os investimentos em agilidade são acompanhados pelo gasto com tecnologia. O maior sucesso são os aplicativos de fidelidade do grupo, Pão de Açúcar Mais e Clube Extra, que somam 10 milhões de downloads, com cupons utilizados em uma a cada quatro compras nas lojas do grupo.

Receita parecida foi seguida pela BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão. Em outubro do ano passado, a empresa começou um plano de modernização de suas mais de 700 linhas de produção. 

Aliando a organização em squads à tecnologia, conseguiu implementar em quatro meses um projeto piloto em algumas de suas fábricas: o controle de qualidade, que antes era feito manualmente, agora é via smartphones. 

Com armazenamento dos dados em nuvem, há um alerta imediato caso algum parâmetro esteja fora do padrão. 

“Antes, demorava pelo menos um turno para ser identificado”, afirma Ricardo Trinkel, diretor de engenharia industrial da empresa.

Está nos planos da companhia adotar a tecnologia em todas as unidades até novembro deste ano. Para auxiliar a colocar o projeto em prática, foi criado um quiz que testa os conhecimentos dos supervisores sobre o novo sistema.

Os funcionários que acumularem mais pontos até dezembro serão reconhecidos na convenção anual da BRF. “Só em três semanas, foram acumuladas mais de 2.500 horas de treinamento, com uma média de 200 jogos por supervisor”, conta Trinkel.

Apesar de reconhecer a agilidade e os bons resultados que as inovações nos processos internos têm obtido, Gleycia Leite, da Natura, ressalta que é preciso planejamento antes de colocar essas novidades em prática. 

“Tem tarefas que precisam ser mais estáveis. Não dá para fazer a mudança só pela mudança, é preciso aplicar a melhor configuração a serviço da estratégia da empresa”, diz.

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