Médico deve olhar para além da doença durante tratamento

Em debate, ex-pacientes defenderam postura mais humanizada de oncologistas

Everton Lopes Batista Susana Terao
São Paulo

Fazer o tratamento de câncer com um médico que tenha um olhar integral sobre o paciente ajuda a passar pelos momentos difíceis.

Em debates durante o seminário Medicina de Precisão contra o Câncer, realizado pela Folha em São Paulo na quinta-feira (29), os participantes ressaltaram a importância de os profissionais da área tratarem os pacientes com mais proximidade.

O seminário, que aconteceu no Instituto Tomie Ohtake (SP), teve patrocínio do Hospital Sírio-Libanês.
Segundo a jornalista Susana Naspolini, que já passou por quatro diagnósticos de câncer, o paciente se sente mais motivado quando o médico demonstra estar ao seu lado, pronto para “enfrentar junto a doença”.

“Nesse processo todo, desde os meus 18 anos, passei por muitos médicos. Cada vez mais percebo a diferença que faz estar diante de alguém que te olha e não enxerga apenas um câncer. Ele tem que me olhar e ver uma mulher, uma mãe, uma profissional”, disse.

Após o diagnóstico mais recente —a recidiva de um câncer de mama, em 2016—, Naspolini precisou ficar afastada do seu trabalho na TV Globo no Rio. Nesse período, começou a receber relatos de pacientes oncológicos e decidiu contar sua experiência no livro “Eu Escolho Ser Feliz” (ed. Agir, R$ 29,90, 160 págs.), lançado neste ano.

De acordo com a jornalista, a postura de distanciamento e de superioridade que percebe em alguns médicos gera intimidação no paciente, que sente vergonha de perguntar e conversar sobre o que está acontecendo com ele.

Segundo a psicóloga Márcia Stephan, especializada no atendimento de pessoas em tratamento de câncer, há pouco tempo não se pensava em dar voz ao paciente. “Isso era visto como uma espécie de heresia”, disse.

Stephan, que já teve seis melanomas, contou que sentiu ela mesma dificuldade para conversar quando estava doente. “Quando uma pessoa sabe que está com câncer, ela olha direto no olho do medo. É a possibilidade, perto da gente, de a morte chegar.”

Pesquisa Datafolha feita em julho e apresentada no seminário pelo diretor do instituto, Mauro Paulino, mostrou que ter câncer é o maior medo do brasileiro, superando, por exemplo, o temor de ficar desempregado ou de ser assaltado (leia reportagem na pág. 5).

Para ajudar o paciente a enfrentar esse medo, Stephan recomenda que o médico seja parcimonioso nos dados. “Mais do que uma enciclopédia, a pessoa procura um parceiro para passar por aquela dificuldade”, disse.

Para Rodrigo Munhoz, oncologista do Hospital Sírio-Libanês, o médico não pode ser um replicador de informações. “Tem que transformar o dado em algo que tem por objetivo maior acolher o paciente”, disse.
Oncologista há 40 anos, Juvenal Filho conhece a doença pelos dois lados. Sua filha teve um diagnóstico de leucemia linfoide aguda aos 9 anos. A menina se curou e enfrentou outro tipo de câncer, raro, anos mais tarde.

“Para um pai, ter uma filha com diagnóstico de câncer já é difícil. Como um pai oncologista, foi muito penoso”, disse.

Segundo o médico, o tratamento deve estar baseado num tripé: confiança na equipe profissional, na medicina alicerçada em evidências e na crença de que “tem alguém cuidando da gente lá em cima”.
Naspolini também ressaltou a importância da fé no tratamento: “Daí vem uma força que a gente acha que não tem. Vem de Deus, sem sombra de dúvida”.

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