Revolução no tratamento contra câncer, medicina de precisão segue inacessível para maioria

Novas técnicas de oncologia foram debatidas em seminário sobre câncer

Laura Castanho
São Paulo

A medicina de precisão —conjunto de técnicas para tratar os pacientes de forma personalizada— permite tratar o câncer a partir de sequenciamento genético, reduzir a mortalidade dos pacientes e alertar sobre a possibilidade de desenvolver câncer com anos de antecedência. Mas está longe de ser para todos.

Esta foi uma das conclusões do primeiro debate do seminário “Medicina de precisão contra o câncer”, na manhã desta quinta-feira (29). O evento foi promovido pela Folha e patrocinado pelo Hospital Sírio Libanês.

Jorge Alberto Bernstein Iriart (esq.), sociólogo e professor do  UFBA, Katia Ramos Leite, professora da USP e vice presidente da Sociedade Brasileira de Patologia, Luis Felipe Ribeiro Pinto, farmacêutico e bioquímico, pesquisador no Inca,  Rodrigo Munhoz, oncologista do Centro de Oncologia do Hospital Sirio-Libanes e Cláudia Collucci, colunista e repórter especial da Folha
Jorge Alberto Bernstein Iriart (esq.), sociólogo e professor do UFBA, Katia Ramos Leite, professora da USP e vice presidente da Sociedade Brasileira de Patologia, Luis Felipe Ribeiro Pinto, farmacêutico e bioquímico, pesquisador no Inca, Rodrigo Munhoz, oncologista do Centro de Oncologia do Hospital Sirio-Libanes e Cláudia Collucci, colunista e repórter especial da Folha - Reinaldo Canato/Folhapress

Na oncologia, a medicina de precisão é capaz de detectar alterações genômicas no tumor e oferecer o tratamento a partir disso. Esse avanço, entre outros, é considerado por especialistas uma revolução na área. 

“Chegaremos a um ponto em que não vai fazer diferença se o câncer nasceu no pâncreas, no pulmão ou na pele. A classificação será pelo tipo de mutação que se apresenta”, explicou Rodrigo Munhoz, oncologista do Hospital Sírio Libanês, para quem a medicina de precisão representa uma mudança de paradigma. Uma mesma droga poderá ser usada para tratar um câncer de mama, por exemplo, cujas células tenham sofrido alterações moleculares similares às de um câncer de pulmão.

As técnicas de precisão podem ser utilizadas na prevenção da doença. O indivíduo pode coletar dados sobre si próprio, complementá-los com informações sobre seus hábitos e predisposições genéticas e, a partir disso, receber orientações no seu estilo de vida —ou saber se tem grande probabilidade de desenvolver a doença.

“A oncologia de precisão não é uma hipótese. É o único caminho viável para tratar tumores com base nas suas causas”, disse Luís Felipe Ribeiro Pinto, bioquímico e pesquisador do Inca (Instituto Nacional de Câncer). 

No entanto, não são poucos os entraves para oferecer esse tipo de tratamento. Há no país uma escassez de patologistas, médicos essenciais para diagnosticar o câncer, e com frequência os pacientes iniciam o tratamento tarde demais. A falta de uniformidade nas alterações presenciadas nos tumores —e a frequência com que elas mudam— também limita a atuação da tecnologia em casos mais complexos.

O maior problema, contudo, é o acesso: extremamente custosa, a oncologia de precisão ainda está limitada à faixa mais rica da população, que reside em metrópoles e tem acesso a planos de saúde e hospitais de elite. 

Para Luís Felipe Pinto, trata-se de uma questão política. “Não damos a chance de pacientes do sistema público de saúde terem a mesma sobrevida que aqueles que podem pagar. Isso é um absurdo. É contra a Constituição”, afirmou. “Politicamente, o Brasil tem que sair dessa posição passiva, de simplesmente levantar barreiras, e vir para uma atuação propositiva.”

O pesquisador criticou a chamada política do avestruz, “de enterrar a cabeça na areia e fingir que nada está acontecendo”, perante as desigualdades de acesso a tratamentos. “Essa realidade, de um oncologista usar drogas quase medievais [no SUS], e no sistema privado poder ofertar as primeiras linhas de tratamento do mundo inteiro, tem que acabar. Todos nós somos pagadores de impostos.”

O pesquisador argumentou que a precariedade de tratamento prejudica a economia do país, ao
aumentar o uso desnecessário de drogas e o tempo durante o qual o paciente não poderá trabalhar. “A gente continua gastando dinheiro, e mal”, resumiu.

O antropólogo Jorge Alberto Iriart, da Universidade Federal da Bahia, afirmou que a lei dos 60 dias —que estipula esse prazo para o paciente com câncer iniciar seu tratamento no SUS, a partir da data do diagnóstico— nem sempre é cumprida na prática, o que prejudica as chances de cura do paciente.

Iriart, que vem entrevistando oncologistas para pesquisar o impacto desses novos tratamentos na sociedade, confirmou a frustração sentida pelos médicos em não poderem oferecer tratamentos adequados no sistema público. Ele também notou a entrada, no mercado, de medicamentos de alto custo, mas baixo benefício. “Isso está acontecendo no mundo todo, é um problema também para países desenvolvidos. Eles se perguntam até quando vão conseguir pagar US$ 100 mil ao ano [com essas drogas].”

Para Katia Ramos Leite, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Patologia, o desenvolvimento de técnicas de oncologia de precisão é uma oportunidade “maravilhosa” para os patologistas. “Não existe oncologia de precisão sem patologista”, constatou.

Ela vê com otimismo a incorporação de inteligência artificial para auxiliar na captação de dados e produção de diagnósticos. Também acredita que essas tecnologias podem vir a ajudar patologistas residentes no interior do país, sem recursos para se especializarem como os das capitais. 
“Hoje está muito mais complexo, mas muito mais bonito”, concluiu.

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