'Sentia brasas no corpo e quis expressar isso', diz ex-paciente de câncer

Fotógrafa recebeu prêmio internacional com autorretratos do período em que enfrentou doença

Autorretrato da fotógrafa russa Alyona Kochetkova, 31, que teve câncer de mama em 2107
Autorretrato da fotógrafa russa Alyona Kochetkova, 31, que teve câncer de mama em 2107 - Alyona Kochetkova
Everton Lopes Batista
São Paulo

Alyona Kochetkova, 31, é uma fotógrafa e professora de fotografia russa. Teve um câncer de mama em 2107 e, durante o tratamento, fez uma série de autorretratos que mostravam a evolução da doença

Em 2018, seu trabalho “How I Fell Ill”, com as fotos desse período, venceu o Andrei Stenin International Press Photo Contest. Em depoimento, Alyona conta por que decidiu fazer as imagens e como o trabalho a ajudou a não perder sua identidade enquanto combatia o câncer.

Em 2017, descobri um nódulo sob a pele. Eu estava de férias na época e não levei a sério. Minha mãe insistiu até que eu fosse ao médico. Mesmo no caminho para o consultório para receber o resultado da minha biópsia eu tinha certeza de que não era câncer. E o resultado me deixou chocada. 

Em julho daquele ano, recebi o diagnóstico de câncer de mama triplo negativo, conhecido por ser um dos tipos mais agressivos. Meu tratamento começou com a terapia neoadjuvante (que combinou quimioterapia e uma cirurgia). 

No tratamento, fiz seis sessões de quimioterapia. Do diagnóstico até a cirurgia se passaram cerca de seis meses. A reabilitação após o tratamento também foi longa, durou aproximadamente dois meses até que eu começasse a me sentir razoavelmente bem. 

Agora, minha saúde está bem, mas ainda preciso fazer uma checagem a cada três meses. No entanto, ainda sinto o impacto da quimioterapia e da cirurgia. Sinto cansaço mais rapidamente do que antes e, às vezes, fica difícil me concentrar no trabalho ou para me lembrar de algo.

Quando recebi o diagnóstico e fiquei espantada, precisei cancelar tudo que havia planejado. Eu estava aterrorizada e confusa e não tinha nenhuma ideia do que estava acontecendo comigo naquele momento. 

No começo, não fiz nenhuma foto. Eu estava irritada por ter de ir à clínica todos os dias e ter de passar por inúmeros exames para definir qual era o tipo de câncer que eu tinha. Eu estava desgastada para tentar fazer qualquer foto. 

Após a primeira sessão de quimioterapia, comecei a sentir uma dor forte nos meus ossos, que fluía pelo meu corpo. Eu sentia que havia brasas incandescentes pelo meu corpo e comecei a procurar uma forma para expressar isso visualmente. Foi então que tive a ideia de fazer as fotos. 

Algumas dessas imagens foram feitas espontaneamente, para fazer outras eu precisei pensar e tentar muitas vezes.

Durante o tratamento, minha condição variou bastante. Tive momentos de depressão, e, em outros, eu confiava que tudo iria ficar bem. Tive momentos de cansaço sem fim e de mórbida introspecção. 

Decidi também fotografar as transformações na minha aparência. Antes da doença, sempre usei meus cabelos compridos. Durante a quimioterapia, comecei a perder cabelo e, então, cortei minha trança. Essa fotografia se tornou uma das imagens mais simbólicas das mudanças físicas e mentais pelas quais eu estava passando. E precisei aceitar isso.

Fazer essas fotos era uma necessidade minha, no início. Quando eu conheci outros pacientes de câncer no hospital, entendi que muitos deles tinham sentimentos, pensamentos e medos parecidos com os meus. Isso foi o que me inspirou a continuar o meu trabalho.

Esse projeto se tornou a ligação com minha vida de antes da doença. Ele me ajudou a manter a minha personalidade. 

Durante a quimioterapia, minha imunidade ficou enfraquecida. Eu não conseguia viajar ou tirar fotos em lugares abertos como antes. Por causa da náusea e da fraqueza, às vezes eu nem conseguia sair de casa. Fiquei prisioneira. A fotografia se tornou minha única atividade. 

Trabalhando como fotógrafa por mais de dez anos, me acostumei a contar histórias sobre o que acontece do lado de dentro e do lado de fora com as imagens. Fotografias podem falar sobre coisas que são difíceis de se dizer com palavras. É uma linguagem universal que pessoas do mundo todo podem entender. Foi uma terapia para mim.

Alguns sobreviventes do câncer preferem esquecer o período da doença. Para mim é um pedaço da minha vida que serviu para me ensinar diversas coisas. A vida é complexa: tem dor, doenças e morte, mas, ainda assim, tem alegria, esperança, fé e amor.

Passar por isso foi um desafio que me ajudou a descobrir o que mais importa e o que merece a prioridade —fazer algo útil, criar alguma coisa e ajudar os outros.

Há muitas informações erradas a respeito de pacientes de câncer e sobreviventes da doença. Frequentemente, pessoas saudáveis não querem ouvir sobre o assunto e, às vezes, os pacientes são tratados como “mortos-vivos”. 

Eu entendo que uma história como a minha pode ser difícil de ouvir para muitas pessoas que não tiveram de lidar com câncer em suas vidas. Eu não quis criar uma história assustadora. 

Eu não conto uma história particular nessas imagens. Conto a história de muitas pessoas que sofrem com o câncer ao redor do mundo. Meu objetivo sempre foi ajudar a entender o que sente alguém que enfrenta uma doença grave como essa. Espero que isso sirva de motivação para que você compartilhe o seu amor com as pessoas que estão em dificuldade.

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