Descrição de chapéu tecnologia

Supercomputador de vigilância estatal chinesa usa chips dos EUA

Tecnologia da Intel e Nvidia não é segredo, e não faltam indicações de que Pequim o utiliza para monitoramento

Urumqi (China) | The New York Times

No final de uma estrada desolada ladeada por prisões, em meio a um complexo repleto de câmeras de vigilância, tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos aciona uma das partes mais invasivas do aparato estatal de vigilância da China.

Os computadores no interior do complexo, conhecido como Centro de Computação em Nuvem de Urumqi, estão entre os mais poderosos do planeta. Podem acompanhar mais imagens de vigilância em um dia do que uma pessoa poderia assistir em um ano. Eles buscam rostos e padrões de comportamento humano. Rastreiam carros. Monitoram telefones.

O governo chinês usa esses computadores para observar um número imenso de pessoas em Xinjiang, uma região no oeste do país em que Pequim desencadeou uma campanha de vigilância e repressão em nome do combate ao terrorismo.

Chips produzidos pela Intel e Nvidia, duas fabricantes americanas de semicondutores, acionam o complexo desde sua inauguração, em 2016. Em 2019, em um momento em que relatórios acusavam Pequim de usar alta tecnologia a fim de aprisionar e rastrear as minorias, primordialmente muçulmanas, de Xinjiang, novos chips produzidos nos Estados Unidos ajudaram os computadores do centro a entrar na lista de supercomputadores mais velozes do planeta. Tanto a Intel quanto a Nvidia afirmam que não estavam cientes do que definem como uso indevido de sua tecnologia.

Três crianças em uma esquina olham para câmera
Câmeras observando uma rua em Hotan, cidade na região ocidental chinesa de Xinjiang; cartaz avisa que 'forças criminosas' serão severamente tratadas; tipo de vigilância é comum na região - Giulia Marchi - 11.dez.2019/The New York Times

Tecnologia poderosa e seu abuso potencial terão posição central em decisões que o governo Biden terá de tomar. O governo Trump proibiu a venda de semicondutores avançados e outras tecnologias a companhias chinesas implicadas em questões de segurança nacional ou de direitos humanos. Uma questão crucial para o presidente eleito Joe Biden será determinar se essas restrições serão endurecidas, afrouxadas ou repensadas.

Algumas figuras no setor de tecnologia argumentam que a proibição foi um exagero, bloqueando vendas valiosas de produtos de tecnologia americanos que têm uma profusão de usos inofensivos, e estimulando a China a criar semicondutores avançados por conta própria. E a China de fato está investindo bilhões de dólares no desenvolvimento de chips de ponta.

Em contraste, os críticos do uso de tecnologia americana em sistemas repressivos afirmam que os compradores exploram caminhos alternativos para evitar as restrições e que a indústria e as autoridades precisam acompanhar de forma mais atenta a venda e uso desse tipo de equipamento.

Companhias apontam com frequência que elas têm pouca influência sobre o destino final de seus produtos. Os chips do complexo de Urumqi, por exemplo, foram vendidos pela Intel e Nvidia à Sugon, a empresa chinesa que mantém o centro em operação. A Sugon é importante fornecedora das forças militares e de segurança da China, mas também fabrica computadores para companhias comuns.

Esse argumento já não é suficiente, disse Jason Matheny, diretor e fundador do Centro de Segurança e Tecnologia Emergente da Universidade de Georgetown, e ex-funcionário dos serviços de inteligência americanos.

“O governo e a indústria precisam pensar mais, agora que as tecnologias estão avançando ao ponto em que se torna potencialmente possível realizar vigilância em tempo real sobre milhões de pessoas usando um único supercomputador”, disse.

Não existem provas de que a venda de chips da Nvidia ou Intel, que antedata a ordem de Trump, violou qualquer lei. A Intel afirmou que já não vende semicondutores para uso em supercomputadores da Sugon. Mas as duas empresas continuam a vender chips à companhia chinesa.

Prédio branco com um muro de ferro, também branco
O Centro de Computação em Nuvem Urumqi em Xinjiang ajuda a alimentar as partes mais intensivas de computação do sistema de vigilância da região - Paul Mozur - 15.ago.2019/The New York Times

A existência da instalação e o uso de chips americanos no complexo de Urumqi não são segredo, e não faltam indicações de que Pequim o utiliza para fins de vigilância. Desde 2015, quando o complexo começou a ser desenvolvido, a mídia estatal e a Sugon alardeiam os elos entre a empresa e a polícia.

Em materiais promocionais distribuídos na China cinco anos atrás, a Nvidia divulgava as capacidades do complexo de Urumqi e se vangloriava de que “sua aplicação de vigilância em vídeo de alta capacidade” tinha gerado satisfação no cliente.

A Nvidia disse que o material de divulgação se referia a versões anteriores de seus produtos, e que a vigilância em vídeo era parte normal da discussão sobre o “Smart Cities”, um esforço do governo chinês para usar a tecnologia a fim de resolver questões urbanas como poluição, tráfego e crime. Um porta-voz da Nvidia disse que a empresa não tinha motivo para acreditar que seus produtos pudessem ser usados para “qualquer propósito impróprio”.

O porta-voz acrescentou que a Sugon “já não é um cliente importante” da Nvidia, desde a proibição do ano passado. Ele também declarou que a Nvidia não havia prestado assistência técnica à Sugon depois disso.

Um porta-voz da Intel, que ainda vende chips mais simples à Sugon, disse que restringiria ou suspenderia seus negócios com qualquer cliente que ela constate ter usado seus produtos a fim de violar os direitos humanos.

A veiculação de informações sobre os negócios da Intel na China parece ter tido impacto dentro da empresa. Uma de suas unidades de negócios no ano passado definiu regras de ética para seus aplicativos de inteligência artificial, de acordo com três pessoas informadas sobre o assunto que pediram que seus nomes não fossem revelados porque a Intel não divulgou as diretrizes publicamente.

A Sugon afirmou em comunicado que o complexo tinha o propósito de rastrear placas de licenciamento de veículos, originalmente, e de administrar outras tarefas relacionadas ao projeto “Smart Cities”, mas que seus sistemas se provaram ineficazes e passaram a ser usados para outras finalidades. Mas em setembro, um veículo de mídia oficial do governo chinês descreveu o complexo como central de processamento de vídeo e de imagens para a administração de cidades.

Avanços na tecnologia deram às autoridades de todo o mundo poder substancial para observar e rastrear pessoas. Na China, os líderes do país levaram a tecnologia a extremos ainda maiores. Inteligência artificial e testes genéticos são usados para avaliar pessoas e determinar se elas são uigures, uma das minorias da região de Xinjiang. Empresas e autoridades chinesas afirmam que seus sistemas são capazes de detectar extremismo religioso ou oposição ao Partido Comunista.

O Centro de Computação em Nuvem de Urumqi –às vezes também chamado de Centro de Supercomputação de Xinjiang– entrou na lista dos supercomputadores mais velozes do planeta em 2018, na 221ª posição. Em novembro de 2019, chips novos ajudaram a elevá-lo para o 135º lugar.

Duas centrais de processamento de dados operadas pelas forças de segurança chinesas ficam logo ao lado do complexo, uma forma de potencialmente reduzir o atraso na transmissão de dados, de acordo com especialistas. Nas imediações também existem seis prisões e centros de reeducação.

Imagem de um chip de computador
Chipset Nvidia; equipado com chips Nvidia e Intel, o complexo de computação Urumqi foi reconhecido como um dos mais rápidos do mundo - Christie Hemm Klok - 29.ago.2017/The New York Times

Quando um repórter do The New York Times tentou visitar o centro, em 2019, ele foi seguido por policiais à paisana. Um segurança impediu sua entrada.

A mídia oficial chinesa e declarações anteriores da Sugon retratam o complexo como central de vigilância. Em agosto de 2017, autoridades locais disseram que o centro apoiaria um projeto de vigilância policial chinês chamado Sharp Eyes e que a capacidade de processamento do centro era de 100 milhões de fotos por segundo. Em 2018, de acordo com revelações da companhia, seus computadores tinham a capacidade de se conectar a 10 mil “feeds” de vídeo e de analisar até mil deles simultaneamente por meio de inteligência artificial.

“Com a ajuda da computação em nuvem, ‘big data’, aprendizado profundo e outras tecnologias, o motor inteligente de análise de vídeo é capaz de integrar dados policiais e aplicações de imagens de vídeo, hot spots de Wi-Fi, informações de postos de vigilância e análise de reconhecimento facial a fim de apoiar as operações de diferentes departamentos” dentro da polícia chinesa, afirmou a Sugon em um artigo postado em uma de suas contas oficiais de mídia social em 2018.

Por ocasião de uma visita de líderes locais do Partido Comunista ao complexo, naquele ano, a empresa escreveu em seu site que os computadores “atualizaram nosso pensamento, de rastreamento posterior ao fato a policiamento preditivo anterior”.

Em Xinjiang, o termo policiamento preditivo muitas vezes serve como eufemismo para detenções preventivas de pessoas cujo comportamento seja classificado como desleal ao partido. Esses comportamentos podem incluir demonstrações de fé islâmica, laços com parentes que vivam no exterior, a posse de dois telefones ou não ter telefone algum, de acordo com depoimentos de uigures e de documentos oficiais do governo chinês.

A tecnologia ajuda a selecionar vastos volumes de dados que seres humanos seriam incapazes de processar, disse Jackson Poulson, antigo engenheiro do Google e fundador da organização ativista Tech Inquiry.

“Quando você tem algo que se aproxime de um Estado de vigilância, a limitação primária passa a ser a capacidade de identificar eventos que o interessem, entre seus ‘feeds’”, ele disse. “E a forma de ampliar a vigilância é por meio de aprendizado por máquina e inteligência artificial em grande escala”.

O complexo de Urumqi entrou em desenvolvimento antes que as informações sobre abusos em Xinjiang começassem a circular amplamente. Em 2019, governos de todo o mundo estavam protestando diante da conduta da China em Xinjiang. Naquele ano, o computador de Sugon apareceu no ranking internacional de supercomputadores, usando processadores Intel Xeon Gold 5118 e chips avançados de inteligência artificial Nvidia Tesla V100.

Não está claro como ou se a Sugon obterá chips poderosos o bastante para manter o supercomputador de Sugon no ranking. Mas tecnologia menos desenvolvida tipicamente usada para tarefas inofensivas também pode ser usada para vigilância e repressão. Clientes também podem recorrer a revendedores em outros países ou a chips fabricados por empresas americanas fora do país.

No ano passado, a polícia em dois condados de Xinjiang, Yanqi e Qitai, adquiriu sistemas de vigilância acionados por chips Intel menos poderosos, de acordo com documentos oficiais de aquisição. O serviço de segurança pública do governo autônomo da região de Kizilsu Kyrgyz adquiriu em abril uma plataforma de computação que usa servidores apoiados por chips Intel menos poderosos, de acordo com documentos. No entanto, a agência foi colocada em uma lista negra do governo Trump no ano passado por seu envolvimento em operações de vigilância.

A dependência da China quanto a chips americanos por enquanto tem ajudado o mundo a pressionar o governo do país, disse Maya Wang, que pesquisa questões chinesas na organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch.

“Temo que, em poucos anos, as empresas e o governo chinês venham a encontrar maneiras de desenvolver chips e capacidades próprios”, disse Wang. “E então não haverá maneira de tentar impedir esses abusos”.

Tradução de Paulo Migliacci

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