É preciso acabar com o modelo digital baseado nos dados pessoais, diz professora

A história dos direitos é a percepção progressiva de que os seres humanos não são recursos a serem explorados, afirma Carissa Véliz

São Paulo

As empresas de tecnologia jamais nos informaram corretamente como usavam nossos dados, e o mundo subitamente se descobriu vivendo no capitalismo de vigilância. Chegou a hora de dar um basta.

É duro assim o recado de Carissa Véliz, estudiosa de questões éticas do mundo digital.

“Os seres humanos precisam de privacidade”, afirma ela em seu livro “Privacidade é Poder”. Não é tarde demais para retomarmos a nossa, diz.

A quebra da privacidade está no DNA dominante dos modelos de negócios das grandes empresas de tecnologia. Quando você faz uma busca ou posta em uma rede social, suas preferências, desejos, gostos, tudo é gravado e utilizado comercialmente, em sites, aplicativos e aparelhos muitos distantes da navegação inicial.

Retrato da professora Carissa Véliz
A professora Carissa Véliz, da Universidade de Oxford - Fran Monks

Carissa Véliz
É professora no Instituto para Ética em Inteligência Artificial na Universidade de Oxford. Escreveu “Privacy is Power” (Privacidade é Poder, sem previsão de lançamento no Brasil) e está editando o “Manual de Oxford para Ética Digital”


O predecessor de tudo isso, como explica a professora de Oxford, é o Google. O modelo da busca na virada dos anos 1990 para os 2000 evoluiu muito.

“Se os carteiros lessem nossas cartas da maneira que o Gmail faz, iriam para a cadeia”, escreve.

O poder econômico das big techs é facilmente conversível em poder político, e a ascensão e queda de Donald Trump está aí de exemplo.

Essa simbiose deve muito ao 11 de Setembro. Sem os atentados, talvez a história tivesse seguido curso diferente.

“A extensão da vigilância governamental depois do 11/9 é espantosa. A NSA [agência do governo americano] coletou dados de Microsoft, Yahoo!, Google, Facebook, YouTube, Skype, Apple, entre outras, num programa chamado Prism. Isso incluía emails, fotos, vídeos, conversas em áudio e histórico de navegação.”

A reação a isso depende das pessoas, defende Carissa, que é professora no Instituto para Ética em Inteligência Artificial na Universidade de Oxford.

Após publicar “Privacy is Power” (Privacidade é Poder, sem previsão de lançamento no Brasil), onde também dá dicas sobre o que fazer, ela agora edita “Manual de Oxford para Ética Digital”

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A sra. argumenta que privacidade é uma forma de poder. Poderia explicar? Podemos pensar no poder como algo análogo à energia. Pode se transformar de uma forma em outra. Por exemplo, se você tem poder econômico, isso pode ajudá-lo a conseguir poder político.

Os dados são outra forma de poder. Podem levá-lo a ganhar poder econômico (como no caso do Google) e poder político (como no caso das campanhas políticas orientadas pelos dados).

Na era digital, quem tiver dados terá poder. Se damos nossos dados a empresas de tecnologia, os ricos comandarão nossa sociedade. Se damos aos governos, corremos o risco de tendências autoritárias.

Apenas se o grosso do poder (e dos dados) estiver nas mãos dos cidadãos a democracia será forte. Sempre que você entrega dados para outros, você dá poder a eles.


A sra. discute “a crença equivocada de que a privacidade era um valor ultrapassado”. Como foi construída essa crença? Resultado de vários elementos, dois deles proeminentes. Primeiro, era uma narrativa conveniente para as companhias de tecnologia venderem de modo a justificar seu modelo de negócios. É famosa a afirmação de [Mark] Zuckerberg de que nós havíamos “evoluído” em nossas condutas de privacidade.

Segundo, o link entre perda de privacidade e dano é muito mais direto e tangível no mundo offline do que no mundo online. Então é fácil esquecer por que privacidade é tão importante, dado que grande parte das nossas vidas ocorre online.

Quando alguém furta seu diário, você percebe sua ausência e pode imediatamente pensar em como podem utilizá-lo indevidamente. Quando dados sobre você são coletados online, não há nenhum rastro. Os danos podem ser similares ou piores do que os danos da perda de privacidade no passado, mas você não vai perceber. Você pode perder um emprego por causa de discriminação injusta baseada nos seus dados, mas você jamais saberá o que aconteceu.

Muitas pessoas usam as redes sociais para se comunicar com parentes e amigos que vivem longe. Podem ver as crianças crescendo e compartilhar experiências, reforçando relações que, em outros tempos, seriam muito distantes. Não é uma recompensa pela perda de privacidade? Comunicar-nos online com as pessoas que amamos é muito importante para os que vivemos longe. Mas não precisamos, ou não deveríamos, ter de desistir da nossa privacidade para conseguir isso.

Podemos usar serviços criptografados como o Signal. Algo importante para ter em mente é que a compra e venda de dados pessoais faz parte de um modelo de negócios. A tecnologia em si não precisa disso para funcionar.

A sra. argumenta que não é tarde demais para recuperar nossa privacidade. Mas não parece um tanto quixotesco a essa altura? Não mais quixotesco do que acabar com o trabalho infantil, conseguir o sufrágio universal ou implementar os turnos de oito horas com fins de semana livres, feriados pagos, e licenças-maternidade e paternidade.

A história dos direitos é a percepção progressiva de que os seres humanos não são recursos a serem explorados segundo o desejo de alguém. Temos necessidades e demandas que deveriam limitar o que os outros demandam de nós.

Para consertar o ambiente digital, precisamos acabar com a economia dos dados. Os dados pessoais simplesmente não são o tipo de coisa que deveria ser comprada e vendida. Isso cria incentivos ruins e tem consequências tóxicas.

A sra. escreve: “Se damos nossos dados para os governos, acabaremos com alguma forma de autoritarismo. Apenas se as pessoas guardarem seu dados a sociedade será livre”. Já perdemos nossa liberdade? Parte dela sim. Algumas pessoas perderam mais liberdade do que as outras. Mas todos nós podemos perder muito mais. A arquitetura da vigilância que estamos construindo poderia ser o andaime de um regime autoritário quase invencível.

Quão conectados estão o governo americano e as empresas de tecnologia? Como elas auxiliam no trabalho de vigilância dos órgãos públicos? Muito. Algumas empresas têm laços mais próximos dos que outras. Um laço particularmente preocupante é o entre a Palantir e o governo americano. A Palantir é uma empresa que ajudou a NSA a implementar seu programa de vigilância em massa e agora está envolvida com outras agências do governo, como o Centro para Controle de Doenças, por causa da pandemia. Desde o comecinho, a vigilância na era digital tem sido um empreendimento público-privado.

Quão rapidamente a consciência sobre a privacidade está ganhando corpo pelo mundo? Há algum país à frente? Numa pesquisa recente que fiz com uma colega, Sian Brooke, descobrimos que 92% das pessoas haviam tido alguma má experiência relacionada à privacidade online. Como resultado do acúmulo de más experiências, estamos ficamos mais conscientes sobre a importância da privacidade.

A Alemanha talvez seja um dos mais países mais conscientes sobre isso no mundo, possivelmente por causa de sua história com a Stasi (polícia secreta da antiga Alemanha Oriental).

O Facebook tem a privacidade de seus usuários como a mais baixa prioridade em sua lista, segundo a sra. argumenta. O poder público está fazendo o que é necessário em relação ao Facebook? Não, os reguladores ainda não estão fazendo o necessário em relação ao Facebook. Mas a empresa é alvo atualmente de várias investigações e processos mundo afora. O resultado deles pode ser importante no caminho para regular as big techs.

Como a sra. lembra no livro, a Folha parou de publicar em sua página no Facebook, três anos atrás, num raro movimento. Por que a mídia tem tanto medo de agir contra o controle de informações pelas big techs? Porque as empresas de tecnologia são grandes e poderosas. Transformaram-se em mediadores entre os jornais e seus leitores, com muitas pessoas recebendo suas informações pelas redes sociais. Os jornais temem que, se não aceitarem as demandas e os caminhos traçados pelas big techs, serão simplesmente deixados de lado.

A sra. se preocupa porque mais e mais pesquisa acadêmica é financiada por empresas de tecnologia. Essas pesquisas, assim como o trabalho de ONGs também bancadas por big techs, guia o debate e políticas públicas. Como lidar com isso? Precisamos criar zonas de proteção entre pesquisa, política pública e empresas de tecnologia. Isso é parte do caminho para limitar o poder delas. Se as big techs querem financiar pesquisa, então isso precisa ocorrer por mediadores que garantam que esse dinheiro chegará sem amarras.

Nós não podemos permitir que as big techs ditem a agenda da sociedade, porque elas não têm o interesse público no coração. Se querem dar dinheiro para melhorar a sociedade, que paguem seus impostos.

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