Descrição de chapéu The New York Times

Navios de cruzeiro parados e vazios atraem o interesse de viajantes

Embarcações que estão sem funcionar por causa da pandemia se tornaram atrações turísticas no Canal da Mancha

Ceylan Yeginsu
The New York Times

Enquanto a balsa contornava lentamente a ponta de Hengitsbury, na costa sudoeste da Inglaterra, os passageiros a bordo se levantaram para contemplar, boquiabertos, as silhuetas dos gigantescos navios de cruzeiro ancorados ao longe, emitindo exclamações de admiração quando cada um deles entrava em foco.

“Que beleza. Que maravilha”, gritou um homem, se apressando a se aproximar da amurada da balsa para ver de mais perto. “Parecem criaturas vivas. Eles respiram”, disse outro, apontando para as plumas de fumaça visíveis em seu binóculo. “Absolutamente deslumbrantes”, disse uma mulher, levando a mão ao peito. “Mal posso esperar para poder voltar a embarcar”.

Os fãs ardorosos dos navios de cruzeiro europeus, que normalmente estariam viajando pelo mundo nesta época do ano mas tiveram suas expedições canceladas a fim de prevenir a difusão do coronavírus, estão em lugar disso acorrendo à costa sul inglesa a fim de vislumbrar os navios de cruzeiro vazios. São embarcações pertencentes às diversas operadoras de cruzeiros, e ancorados em pequenos grupos ao longo do Canal da Mancha.

O interesse vem sendo tamanho que Paul Derham, ex-imediato em navios de cruzeiro da P&O, está usando uma das pequenas balsas de passageiros que ele opera em Dorset para oferecer às pessoas visitas mais próximas aos navios. A ideia, anunciada inicialmente em sua página de Facebook em agosto, se tornou um sucesso instantâneo, e as vagas disponíveis para as excursões foram todas reservadas em poucas horas.

“Um dia percebi que alguns dos mais famosos navios de cruzeiro estavam ancorados bem aqui, como que no quintal da minha casa, e eu queria oferecer às pessoas a rara oportunidade de vê-los de perto”, disse Derham ao dirigir sua balsa na direção dos navios. “É uma visão realmente única, espetacular”.

Ao se aproximarem do Allure of the Seas, um navio de 225.282 toneladas, os 24 passageiros da balsa, subitamente apequenados pelo gigantesco casco azul do navio, se alinharam para tirar selfies diante dele como se tivessem avistado uma celebridade. O navio com capacidade para 6.780 passageiros, operado pela Royal Caribbean International, é conhecido como um dos maiores e mais animados navios de cruzeiro do planeta, mas naquele dia parecia fantasmagoricamente vazio, com as luzes apagadas e as cortinas cerradas.

Os fãs dos cruzeiros marítimos não permitiram que a atmosfera os desanimasse. Para muitos deles, a visita era uma forma de reviver passadas excursões, quando os navios estavam repleto de música, luzes brilhantes, restaurantes lotados e pessoas espalhadas pelos conveses de bronzeamento.

“É como levar seu hotel preferido para onde quer que você deseje, sem o problema de ter de trocar de aposentos e carregar bagagem”, disse Victor Francisco, vendedor de moda, cuja esperança era a de ver o Aurora, um navio da P&O, durante a visita. Ele tinha um cruzeiro reservado no navio em dezembro, mas a viagem terminou cancelada.

“É uma viagem e muito mais que isso”, ele disse. “Você passa por experiências realmente especiais, como se vestir bem para os jantares e coquetéis na mesa do capitão, e assistir a palestras de historiadores navais. Mas a melhor parte é a paz interior e o prazer que você encontra por estar no mar, distante de tudo mais”.

Cerca de 30 milhões de pessoas fizeram viagens em navios de cruzeiro no ano passado, ajudando o setor de cruzeiros marítimos a movimentar US$ 150 bilhões e a manter o crescimento recorde que vinha registrando nos últimos 10 anos. Mas agora, a maioria dos quase 350 navios operados pelas grandes empresas mundiais de cruzeiros estão ociosos em águas abertas, ou ancorados em portos.

Uma restrição de viagens divulgada pelo CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), para todos os cruzeiros marítimos nos Estados Unidos está em vigor até o dia 30 de setembro. Na maioria dos países europeus, os cruzeiros continuam restritos até que as autoridades locais considerem seguro retomar as operações. Os executivos do setor continuam otimistas quanto a uma retomada dos cruzeiros, mas a imprevisibilidade da pandemia está forçando muitas empresas a considerar o que fazer com suas frotas caso os desafios financeiros se provem incontornáveis.

A maioria dos passageiros de cruzeiros que estavam navegando pelas águas da costa sul inglesa mal podiam esperar para voltar aos navios, e têm viagens marcadas para o ano que vem, ainda que os cruzeiros que aconteceriam em 2020 continuem a ser cancelados.

Pouco importa que os navios de cruzeiro tenham desempenhado papel importante na difusão inicial do coronavírus e que diversas operadoras tenham continuado a navegar apesar de surtos em seus navios.

Gay Courter, 75, romancista e passageira entusiástico de cruzeiros, ficou presa no Diamond Princess, no Japão, em fevereiro, quando centenas de passageiros e tripulantes contraíram o vírus. Courter teve a sorte de escapar do contágio, mas suas experiências durante a quarentena —os primeiros 12 dias confinada em sua cabine, seguidos por 15 dias em uma base da força aérea americana no Texas— foram tão perturbadores que ela teve de passar por terapia para distúrbio de estresse pós-traumático, ao voltar para casa.

Ainda assim, ela pensa a cada dia em quando poderá voltar a navegar.

“Entendo porque tantas pessoas estão ansiosas por voltar”, ela disse, em entrevista por telefone. Courter disse que viajar em navios de cruzeiro libera endorfinas e “como uma droga, isso vicia, e acho que muita gente não consegue encontrar satisfação equivalente em outras atividades”.

Mas Courter disse que, sendo realista, ela não vai pensar em retornar aos cruzeiros antes que uma vacina efetiva esteja disponível e que todos os passageiros da viagem sejam inoculados.

“Em minha opinião, muita gente está vivendo em negação”, ela disse. “Precisamos de uma receita completa que inclua vacinas, exames rápidos e mesmo medicação caso você seja infectado quando estiver no meio do Oceano Índico”.

Diversas operadoras de navios de cruzeiros que retomaram suas operações nos últimos meses foram forçadas a encurtar suas viagens por conta de suspeitas ou casos confirmados de contágio a bordo dos navios.

Algumas operadoras europeias de navios de cruzeiro, como a linha Costa, italiana, começaram a realizar cruzeiros locais com lotação reduzida na Itália, requerendo que todos os tripulantes e passageiros sejam testados antes de embarcar no navio.

Craig Lee foi apanhado em um exame no Diamond Princess como portador do vírus mesmo depois de duas semanas de confinamento em sua cabine sem janela. O professor aposentado, canadense, disse que não conseguia imaginar voltar a um cruzeiro sem que um regime de exames obrigatórios fosse adotado.

“Tive sorte porque era assintomático e não tive problemas para respirar, mas você pensa em todas as pessoas com quem entra em contato durante a viagem, e é muito preocupante”, disse Lee, 72, em entrevista por telefone.

Quando o Canadá suspender suas restrições a viagens, Lee planeja viajar à Inglaterra para visitar parentes, e depois explorar rotas curtas de cruzeiro do Reino Unido à Europa.

“Confio muito mais nos europeus do que nos americanos, no momento”, ele disse, rindo.

Outros passageiros leais de cruzeiros, entre os quais alguns dos que participaram da excursão em Dorset para ver os navios ociosos, dizem que confiam em que as operadoras tomem todas as precauções necessárias no futuro.

Shannon Wright, 45, é esteticista e viajou seis horas de carro com a família até Osmington Mills, uma cidadezinha costeira em Dorset que oferece uma das melhores vistas para os navios.

“Ninguém sabia exatamente como o vírus funcionava, no começo, e agora que sabem confio em que as medidas certas sejam tomadas”, ela disse.

Embora as visitas para ver os navios sejam parte de uma onda de turismo recente que foi recebida positivamente pelas comunidades costeiras, alguns moradores locais se preocupam com os efeitos dos navios sobre o meio ambiente, especialmente na cidade litorânea de Weymouth, onde as pessoas perceberam um novo smog na atmosfera.

Diferentemente de aviões, que ficam desligados quando não estão em uso, os navios de cruzeiro mantêm motores auxiliares em operação quando estão ancorados no mar, para manter potência suficiente para a manutenção e para precauções de segurança em caso de clima ruim.

“A maior parte dos navios de cruzeiro opera com óleo combustível pesado, que é realmente espesso, tóxico, aquele combustível espesso que fica no fundo do barril”, disse Lucy Gilliam, ativista de causas relacionadas à aviação e navegação na organização Transport & Environment, que defende o transporte sustentável.

“Quando ancorados, eles continuam a manter uma demanda básica de energia para os sistemas de filtragem de ar, para manter as luzes acesas, conservar os motores auxiliares em operação, cuidar da manutenção e alimentar a tripulação básica que fica a bordo”, ela explicou. “Não é um consumo no mesmo nível que aquele que teriam com uma carga total de passageiros, mas as chaminés continuarão a bombear poluentes”.

As autoridades locais rejeitaram afirmações de que os navios de cruzeiro estão causando smog na baía de Weymouth. “O clima de verão que temos experimentado está causando inversões de temperatura – e elas são responsáveis pela produção do smog, ao aprisionar os poluentes produzidos por todos os veículos, pelos incêndios e por atividades industriais”, disse um representante do conselho do condado de Dorset em email.

Todos os navios de cruzeiro ancorados ao largo da costa britânica devem cumprir os regulamentos ambientais da Organização Marítima Internacional, que são aplicadas rigorosamente, de acordo com a Agência Marítima e de Guarda Costeira do Reino Unido.

“O Reino Unido monitora as emissões das embarcações com muita atenção. Eles precisam usar combustível dentro de limites aprovados a fim de garantir que cumpram a regulamentação”, disse uma porta-voz da agência em email.

Os navios de cruzeiro cada vez mais são equipados com tecnologia que permite que recebam eletricidade de terra, para que quando estejam ancorados em um porto eles se conectem à rede local de energia e possam desligar seus motores.

“O setor de cruzeiros investiu mais de US$ 23,5 bilhões em navios com novas tecnologias e combustíveis mais limpos, e está trabalhando diligentemente a fim de identificar maneiras novas e inovadoras de ampliar esse progresso e, no futuro, chegar a um estado de emissão zero de poluentes”, afirmou a Associação Internacional de Linhas de Cruzeiro, a organização setorial das empresas do ramo, em comunicado.

Laura Baldwin, ativista ambiental em Dorset e ex-velejadora olímpica, está há algumas semanas em campanha contra os navios de cruzeiro ancorados. Ela acredita que o setor precisa fazer muito mais e que o principal problema seja que muitos residentes e empresas de Weymouth não estejam conscientes dos problemas porque sua preocupação é recuperar os prejuízos sofridos com a pandemia.

“Somos uma das áreas mais carentes do país, e muita gente vive preocupada com suas dificuldades diárias e com alimentar as crianças” disse Baldwin. “Ter de encarar problemas de clima e uma emergência ecológica é demais”.

Para muitos dos turistas em visita a Weymouth, ver os navios é mais importante que qualquer preocupação sobre a poluição.

“Você deveria vê-los à noite, todos iluminados ao longe”, disse Mary Rhodes, gerente aposentada de um restaurante. Ela jamais viajou em um navio de cruzeiro, mas reparou neles ao visitar um parente em uma cidade próxima. “É a vista mais maravilhosa com que já me deparei”.

Tradução de Paulo Migliacci

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