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23/07/2011 - 14h18

Fabricar cerveja em casa vira mania entre paulistanos

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LÍVIA SAMPAIO
DE SÃO PAULO

Não satisfeitos com a possibilidade de beber cervejas de todas as partes do mundo em bares e pubs, os paulistanos arregaçaram as mangas para fazer a própria bebida. Foi dentro da sauna do sogro, em Pinheiros, que a produção do cirurgião Marcelo Cury, 33, começou. "Depois, dominamos também a churrasqueira e o terraço", conta ele, que desde 2008 faz cerveja com dois amigos.

A ideia surgiu depois que Marcelo voltou de uma temporada de estudos nos EUA. "Antes, eu era o cara que tomava chopinho. Quando voltei, queria mais opções, mas começou a ficar difícil pagar R$ 65 por uma garrafa importada. Então, fui aprender a fazer." A produção dá trabalho e leva cinco horas, no mínimo, além de um mês de fermentação. Mas todos os cervejeiros são unânimes em dizer que o esforço, inclusive o financeiro, compensa.

Com um investimento de cerca de R$ 800, é possível montar uma cervejaria artesanal, encomendando itens on-line. Para produzir, gasta-se, em média, R$ 5 (fora os equipamentos) em uma garrafa de 600 ml, mesmo preço de uma cerveja popular no bar. Ingredientes, como lúpulo, malte e fermento, são importados e também estão disponíveis na internet.

Depois de a cerveja ficar pronta, a etapa seguinte é tirar onda exibindo rótulos personalizados e sabores exclusivos. Na festa de um ano da filha, os convidados de Marcelo receberam uma garrafa comemorativa.

Com a fama, os pedidos pela cerveja aumentaram e a sauna acabou ficando pequena. Tanto que eles estão de mudança para o segundo andar do restaurante Casa da Li, na Vila Madalena, zona oeste, onde funciona desde sexta o "brew pub" (bar que produz a própria cerveja) da Corsário, marca criada pelos amigos. Com um novo equipamento profissional, eles produzem seis tipos da bebida: cinco fixas e uma sazonal -a atual é inspirada em uma receita do Egito antigo.

Em expansão, as microcervejarias já representam 5% do mercado, movimentando R$ 2 bilhões.

Em sala de aula
Antes de chegar a essa fase, que envolve venda e requer autorização do governo, o iniciante costuma passar por alguns percalços. O mais comum é deixar que ocorra contaminação no líquido após a fervura. Na cervejaria-escola Sinnatrah, a primeira do gênero na capital, os bioquímicos Alexandre Sigolo, 34, e Rodrigo Louro, 33, dão dicas para o sucesso do cervejeiro de primeira viagem. No pequeno espaço, já se formaram 80 pessoas desde o ano passado. No curso de um dia (R$ 250), os alunos aprendem, entre um "beer break" e outro, a produzir cerveja, desde o cozimento do malte até a fermentação.

O público é bastante heterogêneo e vai da publicitária descolada que quer oferecer a própria cerveja aos clientes a membros dos Arautos do Evangelho, uma dissidência da conservadora TFP (Tradição, Família e Propriedade). A Sinnatrah também funciona como "incubadora" e aluga equipamentos com supervisão para quem não quer se arriscar na cozinha.

Pioneiro
O primeiro a oferecer esse tipo de curso na cidade foi o bar de Jaime Pereira Filho, 59. Dono do Pier 1327, na Vila Mariana, na zona sul, ele calcula ter ajudado 3.000 pessoas a realizar o sonho da cerveja própria, ao longo de três anos, ensinando a arte nos fundos do bar a R$ 800 por grupo.

Um de seus pupilos é o engenheiro Caio Oliveira, 28, que produz cerveja com um amigo e compartilha receitas e rótulos em seu blog. Sua última criação, a Porter dos Desesperados, brinca com o tipo de cerveja porter, chamada assim por ser a favorita dos trabalhadores dos portos ingleses, e com o quadro "nonsense" do extinto programa de Sérgio Mallandro. "Queremos mudar a percepção de que a cerveja artesanal é algo requintado, para um público selecionado."

Christian von Ameln/Folhapress
Caio Oliveira e amigos fazem churrasco e cerveja no quintal
Caio Oliveira e amigos fazem churrasco e cerveja no quintal

Outras ex-alunas de Pereira Filho são as Maltemoiselles, sete blogueiras que começaram a registrar na internet suas reuniões para harmonizar comida e cerveja. Desde novembro, já produziram três tipos da bebida. "Nós as batizamos homenageando divas como Courtney Love e Billie Holiday", conta a jornalista Larrisa Januário, 32. "Nossas cervejas são como filhas, a gente adora."

Nos EUA, a febre é tamanha que até a família Obama serviu uma cerveja produzida na Casa Branca durante a final de futebol americano, em março. Se por lá a associação dos cervejeiros caseiros conta com 26 mil membros, no Brasil há cerca de 700 sócios de carteirinha, 130 deles na Acerva Paulista, uma associação estadual. "Para cada sócio deve haver outros cinco cervejeiros artesanais produzindo", diz o presidente da Acerva-SP, David Figueira.

O teste das caseiras
O sommelier de cerveja Edu Passarelli, sócio do Melograno, bar da Vila Madalena especializado na bebida, e autor do blog "Edu Recomenda", na Folha.com, avaliou produções caseiras a pedido da sãopaulo. "Todos estão no caminho certo", disse.

Gramm Beer
Autores: Georges Parkinson e Márcio Fazolin
Estilo: american pale ale
Avaliação: cor bonita, porém com mais turbidez que o normal. Um pouco enjoativa

Pride Beer (a favorita)
Autores: Rogério Chioquette e Cristiano Mendonça
Estilo: india pale ale
Avaliação: gostosa e fácil de beber, estamos diante de uma cerveja sem defeitos, agradável

Rock Beer
Autores: Caio Oliveira e Fred Lima
Estilo: american wheat
Avaliação: refrescante e bem leve, não é uma cerveja ruim. Problema na temperatura de fermentação trouxe aroma de solvente

Holiday
Autor: Maltemoiselles
Estilo: dry stout
Avaliação: indícios de contaminação, que pode ser só nessa garrafa ou ter ocorrido após a fervura. Estaria OK se não tivesse esse problema

 

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