Garimpo ilegal de diamante no rio Jequitinhonha degradou 77 hectares em 1 ano

Área fica no município de Couto de Magalhães de Minas (MG); bacia é tombada como patrimônio histórico

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

Durante 11 meses, uma estrutura com maquinário pesado, explosivos e mão de obra que empregava entre 800 e mil pessoas explorou abertamente uma área de preservação permanente ao redor do rio Jequitinhonha, na cidade de Couto de Magalhães de Minas (MG), em busca de diamantes e ouro. 

O garimpo clandestino ocorria à luz do dia e, segundo cálculos da Polícia Federal, faturava em torno de R$ 20 milhões por mês. Uma operação da PF, com apoio da Polícia Militar de Minas Gerais e da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), realizada nesta terça-feira (2), desarticulou o grupo.

A operação cumpriu 16 mandados de busca e apreensão em pontos comerciais, residências e no próprio garimpo. Das dez ordens de prisão preventiva, que incluíam gerentes e financiadores, apenas duas pessoas foram localizadas. Oito suspeitos continuam foragidos. 

Todas as prisões tinham endereço na cidade de Diamantina (a 300 km de Belo Horizonte). Alguns dos presos já têm antecedentes criminais pela mesma prática, segundo a PF. 

Os suspeitos devem ser indiciados por formação de organização criminosa (com pena prevista entre 3 e 8 anos), crime ambiental (de 6 meses a um ano) e contra o patrimônio da União (de 1 a 5 anos de reclusão).

A Polícia Federal começou a monitorar o local em maio do ano passado, quando o garimpo se intensificou. Segundo o delegado Luiz Augusto Pessoa Nogueira, na mesma época os garimpeiros teriam encontrado no local uma gema de diamante com valor entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões.

“Ela foi achada mais perto da superfície do solo. Isso significa que a chance de ter mais diamantes de boa qualidade ali seria muito grande. Foi assim que eles [aceleraram o garimpo]”, explica ele. 

Em imagens registradas por drones da polícia, áreas que tinham árvores, de acordo com registros de 2006, viraram desertos de areia e rejeitos, com cavas de garimpo espalhadas. O assoreamento do rio também é visível nas filmagens. É possível ver uma quantidade significativa de dragas, tratores e bombas de sucção trabalhando no local. 

A polícia afirma ainda que o grupo usava uma grande quantidade de explosivos de venda controlada para ter acesso a locais mais profundos. O cálculo da PF estima degradação total de 77 hectares —uma área com 34 hectares, uma com 26 e uma terceira área com 17 (no total, equivale a cerca de metade do parque Ibirapuera, em São Paulo). 

“O rio Jequitinhonha praticamente morreu, de tanta areia, de tanto rejeito de diamante que foi lançado nele”, afirma o delegado. 

Minas Gerais tem hoje 90 permissões de lavras para garimpo de diamante, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM). Oito delas estão em Diamantina. Em 2018, foram fornecidas 12 licenças. De ouro, o estado tem 15 permissões, e cinco delas estão na cidade. No ano passado, não houve nenhuma nova permissão. 

A bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha foi tombada e declarada como monumento natural em 1989. No século 18, o Alto Jequitinhonha, onde está Diamantina, foi ocupado por europeus em busca de ouro e diamante da região, de acordo com o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha). 

A economia local se diversificou com a queda da mineração, e várias cidades e povoados se originaram depois que a Coroa portuguesa passou a instalar quartéis de Companhias de Dragões ao longo do rio a partir de 1811. 

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