Pontes defende não divulgar todos os dados de alertas de desmatamento

Em encontro com cientistas, ministro disse que Bolsonaro exagerou o tom nas críticas ao Inpe e citou falha de comunicação

Gabriel Alves
Campo Grande

O ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, afirmou nesta sexta-feira (26) que dados do sistema de alerta de alteração na cobertura vegetal da Amazônia não deveriam ser divulgados para a sociedade assim que ficam prontos, como ocorre hoje.

Ele também comparou os questionamentos que fez à idoneidade dos dados de desmatamento do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) à revisão de uma conta de água que vem com um valor acima da média.

“Durante o período em que o Ibama está em ação, esse dado não deveria ficar exposto porque a gente estaria dando a chave para o bandido. Eu quero é pegar quem está cortando [árvores] de forma irregular", disse em seu primeiro grande encontro com a comunidade científica, no encontro anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em Campo Grande.

À dir., o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, durante a 71ª reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), ao lado de Ildeu Moreira, presidente da entidade
À dir., o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, durante a 71ª reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), ao lado de Ildeu Moreira, presidente da entidade - Jardel Rodrigues/SBPC

A forma como se daria o fechamento de dados, porém, não foi esclarecida pelo ministro ou por sua assessoria e deve acontecer apenas após uma conversa entre o ministro e a direção do Inpe.

Pontes se referia ao Deter que dispara alertas diários para o Ibama para dar suporte à fiscalização e ao controle de desmatamento. 

Além disso, o Deter não traz avisos sobre as operações de fiscalização do Ibama, mas, sim, do que já foi desmatado.

O Inpe e os sistemas de monitoramento de desmatamento entraram na mira do presidente Jair Bolsonaro, que afirmou que não confia nos dados divulgados pelo instituto após dados de alta de alertas de desmatamento do Deter.

Pontes afirmou que Bolsonaro reconheceu ter exagerado no tom e disse que tudo deverá ser resolvido internamente, pensando no futuro. 

“Eu vi a Amazônia do espaço muitas vezes e digo a dificuldade que é tirar foto porque ela é coberta por nuvens, às vezes fumaça", disse. "O fato é que é difícil fazer essa observação mais precisa, mas isso não quer dizer que os dados sejam incorretos. Eles estão lá e são dados de alerta, estão aí para isso.”

Pontes afirmou que os dados do sistema Deter não têm a finalidade de reportar o desmatamento, algo que o próprio Inpe afirma em seu site: "A informação sobre áreas é para priorização por parte das entidades responsáveis pela fiscalização e não deve ser entendida como taxa mensal de desmatamento." A taxa mensal é calculada pelo sistema Prodes, cujos dados consolidados são divulgados apenas uma vez ao ano.  

No entanto, existe uma correlação bastante significativa entre os dados de alerta mensais e os dados de desmatamento anual, o que mostra que o Deter pode ser lido como indicativo de tendência.

Questionado sobre a permanência de Ricardo Galvão na presidência do Inpe, Pontes disse não ter resposta. "Sobre o Galvão, para ser bem sincero, eu não sei sei se ele fica, se ele mesmo vai ter clima de ficar. Preciso conversar com ele pessoalmente. Ficou uma situação complexa, meio desagradável, mas vamos conversar.”

Pontes disse que o governo ficou insatisfeito com a forma que Galvão reagiu ao dar entrevistas à imprensa em resposta às críticas de Bolsonaro, que não só questionou a idoneidade dos dados do Inpe como sugeriu que o presidente do instituto estaria a serviço de alguma ONG.

Para o ministro, a confusão se deu por falha de comunicação. Ele se explicou sobre a nota que divulgou em rede social na qual dizia “entender e compartilhar a estranheza” expressa por Bolsonaro e afirmou nesta sexta (26) que os resultados divulgados pelo Inpe são confiáveis.

“É um instituto conceituado que faz um trabalho muito bom e é reconhecido internacionalmente. Eu tenho um apreço muito grande pelo Inpe, que é da minha área. Ele vai continuar a fazer seu trabalho da maneira como tem feito. O fato de eu perguntar a respeito de um dado, uma variação, como já foi feito anteriormente, é normal. Tem que encarar sem emoção. É igual a conta de água. Imagina que a média de gasto é de R$ 50 e de repente aparece um gasto R$ 100. Você vai ligar para a companhia, vai querer entender ou descobrir se tem algum cano vazando”, disse o ministro em entrevista a jornalistas.

“Independentemente disso, é preciso dizer que os dados do Inpe são calculados de acordo com uma metodologia e esses dados estão lá. E são confiáveis. Mas quando você compara junho [de 2019] comparado com outro junho [de 2018], dá 88% de aumento. Se fosse comparar com março daria uma queda de 49%.”

Pontes diz que é possível aperfeiçoar o sistema de detecção de desmatamento e que estudos para isso estão em andamento.

Na manhã desta sexta (26), uma longa fila de estudantes se formou na entrada do teatro Glauce Rocha, do campus da Universidade Federal de Mato grosso do Sul, em Campo Grande, onde Marcos Pontes falou para centenas de estudantes e pesquisadores.

O ministro foi recebido com uma mistura de aplausos e vaias e falou sobre sua história e sua trajetória. Durante a sessão com caráter motivacional, disse que era um coach, espécie de treinador que ajuda pessoas a atingirem objetivos pessoais. "Estude, trabalhe, persista e sempre faça mais do que esperam de você. Essa é a maneira de transformar em realidade aquilo que a maioria pensa ser impossível.”, disse o ministro, em frase atribuída à sua mãe, dona Zuleika.

Ele se disse otimista quanto ao futuro, mas também afirmou que os problemas da área de ciência e tecnologia não serão resolvidos “em dois ou quatro anos”.

A 71ª reunião anual da SBPC foi marcada por manifestações de estudantes e discursos de pesquisadores que se queixam dos contingenciamentos e cortes nas áreas de educação e de ciência e tecnologia.

Pontes tem buscado apoio da comunidade científica e de membros do Congresso Nacional na tentativa de ampliar os recursos para a pasta. O CNPq, entidade de fomento à pesquisa ligada à pasta precisa de mais de R$ 300 milhões para conseguir honrar o pagamento de bolsas de pós-graduação até o fim do ano. 

A expectativa do ministério é que o orçamento de 2020 recupere os investimentos aos níveis anteriores aos sucessivos cortes dos últimos anos, de cerca de R$ 6 bilhões. Para isso, seria preciso dobrar o valor atual do orçamento direcionado ao MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações).

Para Marcos Pontes, que ficou conhecido nacionalmente após tornar-se o primeiro astronauta brasileiro, há vontade governamental de ampliar esse orçamento, mas defendeu que as manifestações de apoio sejam feitas junto a parlamentares e membros do Ministério da Economia. “O Paulo Guedes não me aguenta mais”, disse ele.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.