Descrição de chapéu The Washington Post

Em julho de 2019, mês mais quente da história, houve onda de calor na Europa e fogo no Ártico

'Este não é o verão de nossos avós', diz António Guterres, secretário geral da ONU

Brady Dennis Andrew Freeman
Washington | The Washington Post

Durante o mês mais quente já registrado pelos seres humanos, uma estação local de TV na Holanda veiculou imagens ininterruptas de paisagens de inverno, para ajudar os telespectadores a esquecer a onda de calor do lado de fora.

Autoridades na Suíça e em outros países pintaram de branco os trilhos das ferrovias, na esperança de impedir que o calor extremo os envergasse. No porto de Antuérpia, dois supostos traficantes de drogas ligaram para a polícia para pedir ajuda, depois de ficarem aprisionados no interior de um contêiner carregado de cocaína, por medo de sufocar no calor. Em Paris, as pessoas lotavam as salas de cinema - alguns dos poucos lugares dotado de ar condicionado na cidade.

Houve incêndios em milhões de hectares de vegetação no Ártico. Um imenso evento de derretimento de gelo na Groenlândia despejou bilhões de toneladas de água no Oceano Atlântico, elevando o nível do mar. E os recordes de temperatura não paravam de cair: 38,7 graus em Cambridge, Inglaterra, e 42,6 graus em Paris e em Lingen, Alemanha.

"Sempre vivemos verões quentes. Mas esse não é um dos verões de nossa juventude. Não é o verão de nossos avós", disse António Guterres, secretário geral da ONU, a jornalistas, na virada de julho para agosto.

Na segunda-feira, dados de uma agência climática europeia oficializaram o que Guterres e outros já tinham informado como provável: julho foi o mês mais quente que o mundo já experimentou desde que registros de temperatura começaram a ser mantidos, mais de um século atrás.

O Copernicus Climate Change Service, um programa da União Europeia, calculou que o mês passado superou por pouco julho de 2016 e detém a dúbia distinção de ter sido o mês mais quente já registrado. O mês teve média de temperatura 0,56 grau mais alta que a média do período 1981-2010, "que fica cerca de 1,2 grau mais alta que a média do período pré-industrial, tal como definida pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima" (IPCC, na sigla em inglês), afirmou a agência em comunicado. O mês superou julho de 2016 por 0,04 grau.

Os cientistas constataram que o planeta está a caminho de um de seus anos mais quentes, e os dados praticamente garantem que o período entre 2015 e 2019 venha a ser o quinquênio mais quente já registrado.

"Julho reescreveu a história do clima, com dezenas de novos recordes de temperatura, em nível local, nacional e mundial", disse Peteri Taalas, secretário geral da Organização Meteorológica Mundial, ao anunciar as implicações históricas do mês. "Não estamos falando de ficção científica. É a realidade da mudança do clima. Está acontecendo agora, e vai piorar no futuro se não houver ação urgente quanto ao clima".

O Copernicus reporta sua classificação mensal de temperatura antes de outras agências que acompanham esse indicador, como a Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa) dos Estados Unidos, e sua classificação pode diferir ligeiramente porque a fonte de seus dados é outra. O ranking mensal é gerado por meio de milhões de leituras de balões e boias meteorológicos, e outras fontes, registradas a cada hora, tudo isso usado para alimentar um modelo de computador.

Os resultados precisam ser verificados diante de registros observacionais recolhidos por redes de milhares de sítios de mensuração de temperatura em todo o mundo. Essas leituras por fim são reportadas pela Nasa, pela Administração Nacional da Atmosfera e Oceano (NOAA, na sigla em inglês), norte-americanas, e por outras agências, depois de algumas semanas. Mas é improvável que os resultados finais divirjam muito dos números do Copernicus, de acordo com cientistas.

Um aspecto notável é que o recorde de temperatura de julho aconteceu sem a influência adicional de um evento "El Niño" forte na região tropical do Oceano Pacífico. Esses eventos climáticos naturais ocorrem uma vez a cada cinco a sete anos e adicionam calor aos oceanos e à atmosfera, ajudando a elevar a temperatura planetária. O recorde de 2016, por exemplo, aconteceu durante um ano em que El Niño foi muito forte.

"Embora não antecipemos que cada ano estabeleça um novo recorde, o fato de que eles venham surgindo em intervalos de alguns poucos anos é um sinal claro de um clima em aquecimento", disse o cientista climático Zeke Hausfather, da Berkeley Earth.

Um estudo divulgado na sexta-feira por um grupo de pesquisadores que estudam o papel da mudança no clima nos eventos extremos constatou que a mudança do clima fez a onda de calor de julho pelo menos 10 vezes mais provável.

O relatório do World Weather Attribution, que foi publicado em uma revista acadêmica com revisão científica, também constatou que, ao elevar a temperatura média de superfície mundial, a mudança no clima intensificou a onda de calor em até três graus.

Do calor escaldante na Europa aos gigantescos incêndios na mata da Sibéria e Alasca, o calor recorde de julho de 2019 deixou sua marca nas pessoas e nos ecossistemas dos quais elas dependem.

O pico de temperatura mensal foi propelido principalmente pelo calor recorde da Europa Ocidental, que incluiu uma onda de calor intensa que atingiu o Ártico e culminou em um dos eventos de derretimento mais significativos já registrados na Groenlândia. A camada de gelo da Groenlândia despejou 197 bilhões de tonelada de água no Atlântico Norte só em julho - o suficiente para elevar o nível dos mares mundiais em 0,5 milímetro.

O Alasca também registrou seu mês mais quente. Já em outras porções do Ártico, houve incêndios de matas imensos, consumindo milhões de hectares e emitindo quantidades espantosas de gases causadores do efeito estufa. O gelo no Mar Ártico registrou um recorde de baixa no mês.

No Canadá, uma instalação militar em Alert, Nunavut - o local permanentemente habitado mais setentrional do planeta - registrou sua mais alta temperatura histórica, com 21 graus em 14 de julho, batendo o recorde estabelecido em 1956. O pico de temperatura médio do posto, que fica a cerca de mil quilômetros do Polo Norte, é de sete graus em julho.

Na Bélgica, um zoológico alimentou seus tigres com galinhas congeladas. A base aérea de Kleine-Brogel deteve por algum tempo o recorde nacional de calor, gerando piadas inquietas depois que um órgão da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) publicou acidentalmente um documento que revelava que havia armas nucleares dos Estados Unidos estacionadas no local.

Em Paris, as autoridades locais criaram "salas de refrigeração" improvisadas em cada bairro, onde as pessoas encontravam ar condicionado e água.

Em partes da Alemanha, as autoridades foram forçadas a reduzir o limite de velocidade nas "autobahnen" [rodovias expressas] devido a preocupações quanto à possibilidade de danos no pavimento causados pelo calor. Um motociclista decidiu enfrentar o calor mesmo assim e saiu circulando pelas estradas do leste da Alemanha usando só um capacete, mas foi detido pelas autoridades.

Na capital alemã, Berlim, os moradores tomaram conta da situação e começaram a circular mapas na mídia social que mostram a localização de espaços públicos dotados de ar condicionado. Condicionares de ar portáteis e ventiladores logo se esgotaram, e uma companhia berlinense de instalação de ar condicionado suspendeu seu atendimento telefônico. Uma mensagem gravada explicava a situação dizendo que a empresa não tinha capacidade de atender ao dilúvio de pedidos que vinha recebendo,

Damodhar Ughade, agricultor que planta algodão em Seeras, uma aldeia na região indiana de Vidarbha, no oeste do país, sentiu que estava vivendo de novo um pesadelo em julho, depois da devastadora onda de calor do mês anterior.

Embora seca relacionada a um atraso na monção não seja incomum, ele disse que este ano foi o pior desde 1972, quando dezenas de pessoas deixaram sua árida aldeia e migraram para as cidades. Com as temperaturas disparando para os 38,8 graus - ainda abaixo dos 47.7 graus de julho, mas mesmo assim brutal -, seus campos estavam esturricados, seu gado faminto, e a aldeia estava sem água potável.

"Havia sulcos de 60 centímetros de largura na minha terra. Não dava nem para andar por lá", ele disse pelo telefone. A falta de água potável levava as mulheres a caminhar por duas horas até aldeias vizinhas, carregando jarros na cabeça, em busca de água. O homens alugavam veículos e iam a cidades vizinhas comprar água, carregando-a em caminhões-tanque.

A escassez era tão grave que não havia água suficiente para o gado. Cerca de 15 cabeças de gado morreram na aldeia, ele disse.

Na Inglaterra, Andrea d'Aleo, 22, tinha a tarefa nada invejável de transportar passageiros através do rio Cam, o principal rio que corta a cidade de Cambridge, sede de uma famosa universidade, 100 quilômetros ao norte de Londres. Ele estava em pé em um barco longo, de fundo chato, e apoiava um longo bastão no leito do rio. Normalmente, ele disse, guarda-chuvas são usadas como proteção conta os temporais da estação, mas na quinta-feiura turistas os estavam usando como guarda-sóis.

"Foi complicado", disse d'Aleo sobre trabalhar como guia de turismo naquele calor intenso. "Eu estava falando para um monte de guarda-chuvas, e fritando lá ao sol".

Quatro anos atrás, em Paris, os líderes mundiais assumiram o compromisso de fazer todo o possível para impedir que o planeta esquente mais de dois graus, com o objetivo de manter a temperatura média no máximo 1,5 grau mais alta que a média pré-industrial.

Mas os compromissos que os países aceitaram em Paris são modestos demais para atingir essa meta. Na semana passada, quando o chefe da ONU reconheceu a probabilidade de que o mundo tivesse experimentado seu mês mais quente, ele apelou aos líderes nacionais para que encontrem a vontade necessária a tomar as medidas agressivas requeridas para colocar o planeta em uma trajetória mai sustentável.

"Este ano, vimos recordes de temperatura despencando de Nova York a Anchorage, de Paris a Santiago, de Adelaide ao Círculo Ártico", disse Guterres. "Se não agirmos quanto à mudança do clima já, esses eventos climáticos extremos serão só a ponta do iceberg. E o iceberg na verdade está derretendo rapidamente".

The Washington Post, tradução de Paulo Migliacci

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