Mato Grosso lidera queimadas na Amazônia

Brasil registra aumento de 83% de focos de fogo em relação ao mesmo período do ano passado

Incêndio em Mato Grosso do Sul, nesta terça (20) Saul Schramm/Governo MS

Juliana Arini
Cuiabá

O estado do Mato Grosso lidera as queimadas na Amazônia, com 13.682 focos de calor acumulados em todo o ano, de acordo com dados do ICV (Instituto Centro de Vida), com base na plataforma do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Levando em conta os oito primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período do ano passado há um aumento de 87% nos focos de calor.

Se analisados o período de julho a setembro, o chamado período proibitivo —quando fazer queimadas é ilegal em todo o estado— o crescimento chega a 205%.

Com 72.843 focos de incêndio do início de janeiro até segunda-feira (19), o Brasil já registra um aumento de 83% em relação ao mesmo período do ano passado. O fogo também avança sobre áreas protegidas. Somente nesta semana, houve 68 ocorrências dentro de terras indígenas e unidades de conservação estaduais e federal.

Incêndio atinge a região centro-norte da unidade de conservação Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso
Incêndio atinge a região centro-norte da unidade de conservação Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso - ICMBio

Em Colniza, no noroeste do Mato Grosso, foram detectados 1.049 focos desde o início do período proibitivo (15 de julho a 15 de setembro). O município detêm 81% de área coberta por floresta e guarda os remanescentes da Amazônia mato-grossense, tal como o segundo colocado em focos de calor, Aripuanã, que tem 81,5% de área florestada.

As queimadas ocorrem principalmente nas propriedades particulares. Desde janeiro, 60% dos focos de calor foram em áreas privadas registradas no Cadastro Ambiental Rural, 16% em Terras Indígenas e 1% em Unidades de Conservação.

“Um alerta é que o número de focos de calor não representa a área que está sendo destruída. Eles são indicativos de frente de fogo ativa”, afirma Vinícius Silgueiro, do ICV. “Um grande incêndio como o da Serra de Ricardo Franco será contabilizado como um foco de calor. O estrago real em área só aparecerá quando terminar o período crítico e processarmos as imagens.”

O parque estadual da Serra de Ricardo Franco, entre Vila Bela da Santíssima Trindade e a fronteira com a Bolívia, é outra importante área de floresta atingida pelas queimadas. A porção boliviana desse maciço florestal é tombada pela Unesco como patrimônio natural da humanidade.Segundo o comandante do batalhão de emergências ambientais, coronel do Corpo de Bombeiros Paulo Barroso, o fogo no parque pode ser considerado controlado. Uma equipe de bombeiros permanece na região para extinguir o incêndio.

O Pantanal é outro bioma sob alerta em Mato Grosso. O  risco é que seja atingido pelo fogo que avança do Paraguai e do Mato Grosso do Sul. Um dos grandes problemas dos incêndios no bioma é a dificuldade em se combater o fogo na região. A ausência de estradas faz o combate depender de barcos que precisam seguir por um labirinto de rios. Também há o fogo subterrâneo que acontece apenas na região por conta do tipo de vegetação local.

Apesar do risco, o monitoramento do Ciman (Centro Integrado de Monitoramento Ambiental), do governo estadual, ainda não aponta nenhum alerta de o Pantanal ser atingido pelas queimadas. “O vento está vindo mais do norte e no caso o rio Cuiabá ainda é um grande obstáculo natural. O problema é se o vento virar, daí pode ser que o fogo chegue”, diz o coronel.

“Não há incêndio sem controle nas unidades de conservação de Mato Grosso. Temos monitorado intensamente essas áreas, a questão são as áreas privadas. No caso agimos apenas nas que ameaçam às terras protegidas”, disse Barroso.

Parte do combate às queimadas no Brasil é financiada pelo Fundo Amazônia —que visa a preservação da floresta—, iniciativa financiada por Noruega e Alemanha. Na última quinta (15), a Noruega informou que irá bloquear os recursos enviados ao fundo. O governo Bolsonaro extinguiu os conselhos que orientam o fundo, o que levou à ação da Noruega. 

No último dia 10, a Alemanha também afirmou que suspenderá R$ 150 milhões que seriam destinados à preservação da Amazônia. Até 2016, o fundo apoiou o combate às queimadas em Mato Grosso com recursos de R$ 12,6 milhões. Foram adquiridos dois aviões de combate a incêndio florestal e cinco bombas-tanque, que transportam 5.000 litros de água.

“Nós, governadores da Amazônia Legal, somos defensores incondicionais do Fundo Amazônia. Já informamos oficialmente ao presidente da República e às embaixadas da Noruega, Alemanha e França, através de audiência e durante o Fórum em Palmas, que o Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia Legal estará dialogando diretamente com os países financiadores do Fundo”,  afirmou, em nota, o governador do estado, Mauro Mendes (DEM).

Nesta terça, durante a Fenasucro (Feira Internacional da Bioenergia), maior evento do setor no país, Salles afirmou que todas as equipes de combate na região Norte estão em operação e que o principal combate ao fogo é dado pelos governos estaduais e, em caráter complementar, pelas equipes do Prevfogo (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais).

“Estamos fazendo o máximo de esforço que podemos. Isso decorre de um tempo muito seco e há portanto essa maior incidência de queimadas.”

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